Agora que o n.º 85 [Novembro] da
LER já está na rua, aqui fica a crónica
Foi você que pediu um Bolaño?, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 84.
Houve um tempo em que trocávamos livros como drogados trocam seringas. Horas a fio com Carson McCullers, Saul Bellow, Truman Capote, Mary McCarthy, Dashiell Hammett, Jack Kerouac, Edith Wharton e outros. Noites perdidas a discutir se
Coração Solitário Caçador ou
Agarra o Dia. Kubrick e Truffaut obrigando-nos a ir ler Anthony Burgess e Ray Bradbury por causa de
Laranja Mecânica e
Fahrenheit 451. Primícias de página literária, em 1968, à conta do que Mike Nichols fez ao Albee de
Quem tem medo de Virginia Woolf?. Uma temeridade: o puto entre os doutores.
Tempo de protesto, descoberta e crescimento: Bob Dylan e Jacqueline du Pré, Godard e Bogdanovich, Chet Baker e Britten, Sartre e Érico Verissimo, Bacon e Lichtenstein, Kennedy e Régis Debray, Knopfli e T. S. Eliot, Beatles e Joan Baez, Auden e Clarice Lispector, Hockney e Edward Hopper, Beckett e Arthur Penn, Mick Jagger e Mary Quant. Mais que tudo, tempo. O tempo acabou. O tempo e as possibilidades do
punch feito à base de rum, Coca-Cola & Dramamine.
Cada época impõe os seus protocolos. Em 1966 era proibido não ver
Blowup, de Antonioni. Quem não discutiu o jogo do rato e do gato entre David Hemmings e Vanessa Redgrave? Hoje é um opróbrio não ter lido
2666, de Roberto Bolaño. A tradução portuguesa de Cristina Rodriguez e Artur Guerra acabou de chegar às livrarias, não se sabe exactamente para quê, porque “toda a gente” leu o livro no original castelhano ou nas traduções de Natasha Wimmer, Roberto Amutio e Christian Hanse (inglesa, francesa e alemã). Toda a gente. Isso deixa de fora os koalas. A Quetzal pensou neles.
Roberto Bolaño morreu cedo. Tinha 50 anos e 20 livros publicados. As mortes prematuras provocam sempre um tumulto
groupie. Com W. G. Sebald passou-se o mesmo, embora Sebald tivesse morrido com uns anitos a mais. Apesar de inacabado,
2666 tornou-se um fenómeno no mundo de língua inglesa. O escritor Benno von Archimboldi, personagem do livro (inspirada no médico e bacteriólogo alemão Hans Conrad Julius Reiter) e provável alter-ego do autor, suscita teses que trazem os departamentos de literatura comparada num virote. Como Archimboldi, Reiter também publicava sob pseudónimo. Afinal, mesmo para um nazi, a eugenia, ou aprimoramento genético, nunca deixou de ser matéria sensível.
Bolaño nasceu no Chile mas passou a adolescência e o início da idade adulta no México. Em 1973 regressou a Santiago para lutar ao lado de Allende. Pinochet trocou-lhe as voltas e o jovem trotsquista, fundador do Infrarrealismo poético (ao tempo era sobretudo poeta), esteve preso oito dias. Quem ler
Os Detectives Selvagens encontra referências ao surrealismo
punk que distinguia o movimento. Depois do intervalo chileno voltou à diáspora. Essa parte inclui a amizade com o poeta salvadorenho Roque Dalton, que o introduziu na guerrilha da Frente Farabundo Martí. Acusado de colaboracionismo com a CIA, Dalton foi executado aos 39 anos por camaradas de uma facção rival. Foi então que Bolaño partiu para a Europa, onde lavou pratos em restaurantes (acontece a muito boa gente) antes de ver reconhecido o estatuto de escritor. Descontada a estreia de 1984, a pretexto de Morrison e Joyce e em co-autoria com Antoni García Porta, a obra arranca em 1993, com
La pista de hielo (1993); os poemas foram compilados em
Los perros románticos (2000), numa fase avançada da doença. Morreu em Barcelona a 14 de Julho de 2003. A fama chegou em 2007, quando a Farrar, Straus and Giroux publicou
The Savage Detectives. Estava aberto o caminho para
2666, que mesmo póstumo recebeu meia dúzia de prémios, entre eles o incontornável National Book Critics Circle Award. Creio, mas não juro, que terá sido o único autor de língua estrangeira a receber o galardão.
Num tempo em que os escritores começam por ser professores e acabam escritores-residentes das
Ivy Leagues possíveis, Bolaño é uma reminiscência dos tempos da cólera.