Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Depois do erro


Independentemente do que vier a acontecer, a disponibilidade para o diálogo e a abertura a uma efectiva discussão de todos os tópicos por parte da actual ministra da Educação é uma diferença carregada de significados, dos quais o menor não será o reforço da ideia de que a teimosia (chamemos­‑lhe assim, por delicadeza) da anterior detentora do cargo e dos seus cães fiéis foi um erro grosseiro. O contrário disto talvez nem já pelos habituais indefectíveis do partido do poder seja afirmado, ainda que, com as adequadas modulações, se esforcem por não reconhecer uma verdade que lhe ferra os calcanhares (talvez subsista sempre algum compagnon de route mais radical, como são sempre os compagnons de route, frequentemente mais empenhados do que os militantes partidários, como se quisessem mostrar serviço).

Terça-feira, Novembro 10, 2009

RSI & MORAL


O Correio da Manhã está indignado com a atribuição de 365,56 euros de rendimento social de inserção a uma família que não tem meios de subsistência. Porquê? Porque essa família, em 2001, ganhou 600 mil euros no Totoloto, comprou duas casas e três carros topo de gama. Por razões que não nos dizem respeito, a família espatifou o dinheiro. Mãe, pai e filho estão desempregados. Eu percebo a indignação do jornal. O jornal vende rancor, e a história tem todos os condimentos para excitar o pagode.

Mas não percebo Helena Matos. O rendimento social de inserção é um instrumento de apoio. Não é uma bengala moral. Se a Helena acha que duas casas se vendem num abrir e fechar de olhos, devia mudar de profissão. Quem sabe não enriquecia no ramo imobiliário.

Os velhos das Avenidas Novas que têm casas de 150 metros quadrados e pagam 90 euros de renda (inquilinos há mais de 50 anos), mas não têm dinheiro para fazer uma sopa de nabiças, talvez devessem ter também direito ao RSI. Ou será que devem reinstalar-se na Buraca, porque a Avenida de Roma é para quem pode?

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ELEMENTAR, MEU CARO WATSON


As escutas feitas a Armando Vara, que “apanharam” o primeiro-ministro de forma fortuita, são nulas. Quem o diz é o Supremo Tribunal de Justiça. Caso tivessem sido previamente validadas por um tribunal superior, talvez pudessem ser consideradas. Assim não. Os Vidais andam com azar.

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Segunda-feira, Novembro 09, 2009

NEBULOSA, 2


Sobre as famosas certidões que estariam há quatro meses na PGR, o dr. Pinto Monteiro foi claro: é mentira. Assim que chegaram, foram remetidas, com despacho seu, para o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Em 3 de Setembro, o conselheiro Noronha do Nascimento exarou despacho. O conteúdo desse despacho ainda não foi divulgado porque Aveiro não pára de mandar cassettes. Seja como for, os procuradores não podem ouvir conversas do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-Ministro.

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NEBULOSA


A opinião do costume anda excitada com as escutas da PJ de Aveiro que “apanharam” Sócrates a falar com Armando Vara. Tendo o vice-presidente do Millennium BCP andado um ano a ser escutado, é natural que essas escutas tenham apanhado Sócrates, seu amigo pessoal, e mais cem pessoas. Até aqui, nada de surpreendente.

O que me parece bizarro é que a operação Face Oculta tenha sido apresentada como um sucesso de discrição (durante um ano nada transpirou) e, agora, a opinião do costume queira saber por que razão as certidões que alegadamente implicariam Sócrates estão “paradas” na PGR desde Julho.

A ver se a gente se entende. A operação Face Oculta, relacionada com corrupção, tráfico de influências e branqueamento de capitais, foi desencadeada no passado 28 de Outubro, conforme registado aqui. Para já, os arguidos são catorze, entre eles o sucateiro Godinho, Armando Vara, José Penedos, presidente da REN, e o filho de Penedos. O sucateiro foi preso. Vara suspendeu o cargo no banco. O pai Penedos continua de pedra e cal. Desta gente toda, só o sucateiro e os amanuenses foram ouvidos. Os “quadros” serão talvez ouvidos daqui a 15 ou 20 dias. Quem ganha com isso é a imprensa marron.

É curioso que tais certidões tenham chegado à PGR em plena campanha pré-eleitoral. Aparentemente, os papéis são inócuos. Ninguém acredita que o dr. Pinto Monteiro, procurador-geral da República, tendo em cima da mesa matéria de facto, aos costumes tenha dito nada, continuando, ao fim de quatro meses, calado.

Porém, a partir do momento em que uma fuga de informação deu conta do facto, compete-lhe dizer, preto no branco, em que pé ficamos.

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O MURO


Faz hoje 20 anos. Palavras para quê?

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Domingo, Novembro 08, 2009

REGO AFASTOU DALILA


Esclarecido. Foi mesmo Paula Rego quem afastou Dalila Rodrigues da Casa das Histórias.


[Foto de Nuno Ferreira Santos, Público.]

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CITAÇÃO, 220


Vasco Pulido Valente, Cavaco em queda, hoje no Público. Brevíssimo excerto, sublinhado meu:


«Na última sondagem, o saldo de Cavaco entre os que o aprovam e os que o desaprovam ficou pelos 3,5 por cento. É um caso sem precedentes, que precisa de uma explicação. [...]

De observador passou a interventor nas trapalhadas públicas do dia-a-dia, pretendendo simultaneamente (não se percebe porquê) uma rigorosa reserva oficial. Em quatro anos, opôs doze vetos ao Governo socialista. Deixou cair comentários sibilinos sobre assuntos polémicos. Pior ainda: na eleição de Setembro, defendeu claramente o programa económico de Manuela Ferreira Leite. E, no fim, conseguiu arranjar uma espécie de
“escândalo”, o “escândalo da vigilância”, que pareceu à maioria dos portugueses deliberadamente dirigido contra Sócrates. Não admira que esteja hoje pelas ruas da amargura. É o resultado da constância no erro e na presunção.»

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Sábado, Novembro 07, 2009

O TREMENDISMO


De cada vez que António Barreto, Ernâni Lopes e Medina Carreira abrem a boca, a direita tem um delíquio. Ouvir homens que foram de esquerda, e estão hoje ao centro, defender políticas que a direita supõe serem do seu interesse, reacende nela a nostalgia do sidonismo. Qualquer dos três tem as “competências” (e a autoridade) que faltam aos líderes da direita. Barreto e Medina foram militantes do PS e ministros de Soares antes de abandonarem o partido. Lopes não sei se militou, nem onde, mas foi ministro das Finanças e do Plano num governo de Soares, entre Junho de 1983 e Novembro de 1985. Propondo coisas diferentes, os três questionam a governação dos últimos quinze anos: o ocaso de Cavaco, Guterres, Barroso, Santana, Sócrates. Mas nenhum quis ou quer ir a votos. Falar de cátedra sempre impressionou os indígenas. Sem parar um minuto para pensar, a generalidade dos media faz eco de coisas diferentes como se fossem iguais. Exemplo notório, os grandes investimentos públicos. Barreto e Medina são contra. Nem mais um tijolo. Lopes, porém, sendo contra o TGV, defende a construção do novo aeroporto de Lisboa. E ainda há menos de dois meses Lopes defendia uma coligação do PS com o PSD (cf. Público de 19 de Setembro). Nenhum dos três desce do Olimpo à rua.

Lendo-os, ouvindo-os, é fácil deduzir o que querem. Querem pôr isto na ordem. De preferência por aclamação. A catorze meses das eleições presidenciais, é talvez chegada a altura de se decidirem. Se, como dizem, o que os move é o interesse de Portugal, devem ser consequentes. Juízos tremendistas para alimentar headlines não levam a lado nenhum. Ide a votos, de uma vez por todas.

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Sexta-feira, Novembro 06, 2009

PARIS REVIEW


Hoje no Público:


Ao contrário do que o título sugere, The Paris Review é uma revista literária de Nova Iorque, fundada em 1953 por um grupo de amigos (Harold L. Humes, George Plimpton, William Pène du Bois e outros) que convenceu o príncipe Sadruddin Aga Khan a financiar o projecto. Não cabe aqui fazer a sua história. Dizer apenas que foi nas suas páginas que, entre muitos mais, se estrearam Adrienne Rich, Philip Roth, V. S. Naipaul, Peter Matthiessen, Jeffrey Eugenides e Italo Calvino. O mesmo se diga das primeiras traduções de Samuel Beckett em língua inglesa. O Círculo George Plimpton, entretanto criado, canaliza as doações que permitem a subsistência da Paris Review, cujo actual editor é Philip Gourevitch.

O melhor da Paris Review acaba coligido em volume. E foi a partir das duas compilações de entrevistas, feitas em 2006 e 2007, que Carlos Vaz Marques seleccionou, traduziu e anotou as dez que compõem esta edição: E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac. Tenho pena que Elizabeth Bishop, T. S. Eliot, Dorothy Parker e Vladimir Nabokov não façam parte da selecção, mas não se pode ter tudo. Carlos Vaz Marques escolheu bem apesar de ter deixado de fora todas as mulheres: Bishop, Parker, Didion, Morrison, Welty, etc. Também é pena que cada entrevista não venha antecedida de breve nota biobibliográfica. Afinal, quantos leitores portugueses sabem, hoje, quem foi Edward Morgan Forster ou mesmo Boris Pasternak?

Logo a abrir, Carlos Vaz Marques anota: «As entrevistas da Paris Review são o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar. Mais do que isso: são a invenção desse fascínio.» Exactamente. Como poucas, estas conversas fazem a síntese da inteligência com o glamour. A edição portuguesa cobre os quinze anos que vão de 1953 (Forster e Greene) a 1968 (Kerouac). Embora houvesse muito por onde escolher, nenhum autor vivo foi contemplado. É, digamos, uma selecção clássica.

Um dos aspectos mais interessantes da leitura é a percepção da passagem do tempo. Em 1953, ainda Forster, então com 74 anos, falava de Passagem para a Índia (1924) como se tivesse acabado de o escrever na véspera, discorrendo sobre as grutas de Marabar com a desenvoltura dos iniciados. Quinze anos mais tarde, Kerouac não tem telefone em casa. A entrevista (a mais longa do volume) tem de ser marcada com meses de antecedência. É o exacto oposto do estilo “controlado” de Forster. Verdade que Kerouac tinha apenas 46 anos, e era obrigado a aturar Stella. À laia de justificação da torrente confessional, Kerouac cita Goethe e Dostoiévski, precursores, diz ele, de Neal Cassady, o amigo imortalizado como Dean Moriarty, personagem central de Pela Estrada Fora (1957). Sucede que o manuscrito da Carta de Joan Anderson foi literalmente pela borda fora. Aspecto desconcertante é verificar como Kerouac já estava “datado” em 1968: «Allen [Ginsberg] já tinha escrito no jornal que eu não estava a dormir lá porque andava a tentar comê-lo, mas era ele que me andava a tentar comer a mim. Mas naquela altura, de facto, estávamos só a dormir. Depois disso ele arranjou uma almofada...»

Nos antípodas dos estilos bloomsberrie (Forster) ou beat (Kerouac), Truman Capote faz prova de precocidade: aos 10 anos concorreu a um concurso de escrita infantil com uma espécie de roman à clef que apresentava como ficção um escândalo local. A tramóia foi descoberta, o prémio foi à vida. Nessa altura percebeu que queria ser escritor. Em adulto, tirou desforra.

Não é por acaso que destaco Forster, Kerouac e Capote. Dos três, Capote consegue ser o mais transgressor e, do mesmo passo, o mais didáctico. Forster e Kerouac estão ambos, cada um à sua maneira, ocupados com o próprio umbigo. Capote disfarça muito bem. Disfarça tão bem que parece ser ele (e não Forster) o autor de Aspects of the Novel (1927). Ouvi-lo discretear sobre «as rédeas estilísticas e emocionais» do texto, a técnica do conto, as primícias literárias, influências e desaires, releva do puro virtuosismo. Clichês óbvios? Seja. Repetir as vezes todas que forem precisas: «Encontrar a forma certa para a nossa história é pura e simplesmente descobrir qual o modo mais natural de a contar. [...] A escrita tem as suas próprias leis da perspectiva, de luz e de sombra, tal como a pintura ou a música.»

Estas Entrevistas da Paris Review pertencem à categoria de livros que lemos uma e outra vez, descobrindo sempre coisas novas a cada leitura.


O Círculo de George Plimpton, in Ípsilon, 6-11-2009, p. 48. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

VIOLETAS, DIZ ELA


Lembra-se de Julie Christie? Fez 68 anos em Abril. Parece que Darling (1965) e The Go-Between (1970) foram ontem. Não a via desde Afterglow (1997), e hoje apanhei um susto ao vê-la à beira dos 70 em New York, I Love You. O tempo é cruel.

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FOI VOCÊ QUE PEDIU UM BOLAÑO?



Agora que o n.º 85 [Novembro] da LER já está na rua, aqui fica a crónica Foi você que pediu um Bolaño?, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 84.


Houve um tempo em que trocávamos livros como drogados trocam seringas. Horas a fio com Carson McCullers, Saul Bellow, Truman Capote, Mary McCarthy, Dashiell Hammett, Jack Kerouac, Edith Wharton e outros. Noites perdidas a discutir se Coração Solitário Caçador ou Agarra o Dia. Kubrick e Truffaut obrigando-nos a ir ler Anthony Burgess e Ray Bradbury por causa de Laranja Mecânica e Fahrenheit 451. Primícias de página literária, em 1968, à conta do que Mike Nichols fez ao Albee de Quem tem medo de Virginia Woolf?. Uma temeridade: o puto entre os doutores.

Tempo de protesto, descoberta e crescimento: Bob Dylan e Jacqueline du Pré, Godard e Bogdanovich, Chet Baker e Britten, Sartre e Érico Verissimo, Bacon e Lichtenstein, Kennedy e Régis Debray, Knopfli e T. S. Eliot, Beatles e Joan Baez, Auden e Clarice Lispector, Hockney e Edward Hopper, Beckett e Arthur Penn, Mick Jagger e Mary Quant. Mais que tudo, tempo. O tempo acabou. O tempo e as possibilidades do punch feito à base de rum, Coca-Cola & Dramamine.

Cada época impõe os seus protocolos. Em 1966 era proibido não ver Blowup, de Antonioni. Quem não discutiu o jogo do rato e do gato entre David Hemmings e Vanessa Redgrave? Hoje é um opróbrio não ter lido 2666, de Roberto Bolaño. A tradução portuguesa de Cristina Rodriguez e Artur Guerra acabou de chegar às livrarias, não se sabe exactamente para quê, porque “toda a gente” leu o livro no original castelhano ou nas traduções de Natasha Wimmer, Roberto Amutio e Christian Hanse (inglesa, francesa e alemã). Toda a gente. Isso deixa de fora os koalas. A Quetzal pensou neles.

Roberto Bolaño morreu cedo. Tinha 50 anos e 20 livros publicados. As mortes prematuras provocam sempre um tumulto groupie. Com W. G. Sebald passou-se o mesmo, embora Sebald tivesse morrido com uns anitos a mais. Apesar de inacabado, 2666 tornou-se um fenómeno no mundo de língua inglesa. O escritor Benno von Archimboldi, personagem do livro (inspirada no médico e bacteriólogo alemão Hans Conrad Julius Reiter) e provável alter-ego do autor, suscita teses que trazem os departamentos de literatura comparada num virote. Como Archimboldi, Reiter também publicava sob pseudónimo. Afinal, mesmo para um nazi, a eugenia, ou aprimoramento genético, nunca deixou de ser matéria sensível.

Bolaño nasceu no Chile mas passou a adolescência e o início da idade adulta no México. Em 1973 regressou a Santiago para lutar ao lado de Allende. Pinochet trocou-lhe as voltas e o jovem trotsquista, fundador do Infrarrealismo poético (ao tempo era sobretudo poeta), esteve preso oito dias. Quem ler Os Detectives Selvagens encontra referências ao surrealismo punk que distinguia o movimento. Depois do intervalo chileno voltou à diáspora. Essa parte inclui a amizade com o poeta salvadorenho Roque Dalton, que o introduziu na guerrilha da Frente Farabundo Martí. Acusado de colaboracionismo com a CIA, Dalton foi executado aos 39 anos por camaradas de uma facção rival. Foi então que Bolaño partiu para a Europa, onde lavou pratos em restaurantes (acontece a muito boa gente) antes de ver reconhecido o estatuto de escritor. Descontada a estreia de 1984, a pretexto de Morrison e Joyce e em co-autoria com Antoni García Porta, a obra arranca em 1993, com La pista de hielo (1993); os poemas foram compilados em Los perros románticos (2000), numa fase avançada da doença. Morreu em Barcelona a 14 de Julho de 2003. A fama chegou em 2007, quando a Farrar, Straus and Giroux publicou The Savage Detectives. Estava aberto o caminho para 2666, que mesmo póstumo recebeu meia dúzia de prémios, entre eles o incontornável National Book Critics Circle Award. Creio, mas não juro, que terá sido o único autor de língua estrangeira a receber o galardão.

Num tempo em que os escritores começam por ser professores e acabam escritores-residentes das Ivy Leagues possíveis, Bolaño é uma reminiscência dos tempos da cólera.

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LER 85


A LER n.º 85 (Novembro) chegou hoje às bancas e livrarias. O entrevistado de Carlos Vaz Marques é Richard Zimler, o escritor americano que adoptou o Porto. Além das rubricas habituais da revista, Carlos Câmara Leme assina um extenso dossiê sobre Jorge de Sena. Entre outros temas, o trabalho de Câmara Leme recupera a expulsão da Marinha, em Março de 1938, do «cadete Jorge Cândido de Sena», então com 18 anos, alegadamente por razões de natureza sexual. Novidade, a partir deste número, a coluna de Eduardo Coelho sobre a actual realidade literária do Brasil.

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HISTÓRIAS DE MULHERES


Continua por esclarecer o afastamento de Dalila Rodrigues da Casa das Histórias. Nem o conselho de administração da Fundação Paula Rego nem a Câmara de Cascais se descosem. Paula Rego não abre a boca. As suas representantes no CA — Maria João Libera, Carolina Willing e Francesca Rossi — também não. Dalila continua em Nova Iorque. Do lado da Câmara de Cascais, nem Ana Clara Justino, vice-presidente do CA, nem Sofia Galvão, se pronunciam.


[Na imagem, Dancing Ostriches, de Paula Rego, 1995, Saatchi, Londres.]

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Quarta-feira, Novembro 04, 2009

O DEBATE PENINSULAR


Pode ler aqui a minha crónica O Debate Peninsular, sobre a 10.ª edição do Ágora, que juntou em Cáceres vários portugueses, entre políticos (Medeiros Ferreira, Leonardo Mathias, Jaime Nogueira Pinto, etc.), escritores (Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira, eu próprio, etc.) e feministas (Joana Amaral Dias, Pedro Pinto Matoso, Adriana Bebiano, etc.), para debaterem as relações entre Portugal e Espanha.

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AVALIAÇÃO, AGAIN


Vá-se lá saber porquê, a oposição (ou seja, o conjunto dos partidos que perderam as eleições) convenceu-se de que a maioria relativa do PS lhe dava a ela, oposição, o direito de governar. O caso da avaliação dos professores é paradigmático.

O sr. Nogueira quer a suspensão, já. O PSD, o CDS-PP, o BE, o PCP e os Verdes, idem. Sucede que o governo não pode nem deve trocar a lei pelo vazio. Se e quando um novo método for aprovado no Parlamento, manda o bom senso que uma coisa substitua a outra. Até lá, a lei é para cumprir. Isabel Alçada não foi para o lugar de Maria de Lourdes Rodrigues para fazer tábua rasa do quadro legal existente.

Durante quatro anos, a oposição foi incapaz de propor uma alternativa ao processo em vigor. Agora, parece que o CDS-PP e o BE têm alternativas. Ainda bem. Estranhamente, o PSD aos costumes nada diz. E o PCP de que depende o sr. Nogueira também não, excepto que ou pára o processo ou vai tudo para a rua.

Assim que o programa do governo e o Orçamento forem aprovados, é bom que se discuta, rapidamente e em força, como diria o outro, a avaliação dos professores. Já sabemos que o BE não quer quotas, porque, Ms. Drago dixit, «não há quotas para o mérito». A ver vamos o que propõe o CDS-PP. O PSD, infelizmente, fechou para obras.

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CITAÇÃO, 219


Francisco José Viegas, O “debate de ideias” na sala-de-espera. Definitivo. Na íntegra, sublinhados meus:



«Uma das coisas mais divertidas na baronagem do PSD é a exigência, repito, exigência de trabalho ideológico. Minto; a expressão é debate de ideias. É assustador ver como esta exigência toma conta de almas que se escusam a tropeçar numa ideia sobre o Estado, a Cultura, a Economia ou a vida comum. Debate de ideias quer dizer pensar no futuro da vidinha e no lugar que se há-de ocupar na sala-de-espera, o recinto onde um hipotético futuro governo os pode vir buscar para fazer deles ministros e directores-gerais. Há-de ser um debate de ideias sobre como chegar lá, mas não sobre o que fazer até lá ou nos tempos que se seguem. Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa vinha a calhar; o professor arrastaria consigo as ideias, expostas com clareza meridiana na televisão (luzes sobre economia, administração pública, justiça, diplomacia, biblioteconomia, ténis e estratégia), batalharia com Sócrates e eles apoiariam (ou aplaudiriam, consoante os casos), na retaguarda, protegidos e cumprindo o papel. Chegada a hora, logo se veria. É esse o debate de ideias. Foi assim que queimaram Marques Mendes, deixando-o sem apoio, seria assim que lidariam com Marcelo. Só assim se compreende a “vaga de fundo” de gente que detesta Marcelo mas que apareceu a apoiá-lo, desde que Marcelo os protegesse de Pedro Passos Coelho, o candidato com quem não querem discutir.

Esta gente ainda não percebeu o que a levou a tornar-se irrelevante para tudo o que seja o debate sobre o futuro do país, sobre o papel do Estado na sociedade e na economia, sobre as novas realidades culturais, sobre o sentido que tem a política portuguesa na Europa de hoje. Mas explica-se facilmente: preguiça e baronatos. Foi isso que matou a Direita antes, durante os seus governos liquefeitos entre heranças do cavaquismo e do barrosismo. É isso que ameaça liquidá-la se não desperta desta vontade apaixonada pelo “debate de ideias” ao cantinho da sala-de-espera. Ou seja, se não diz, mesmo, o que quer, para além daquilo que se sabe que quer: a “alternância democrática”, uma espécie de baloiço que lhes garanta lugares de quatro em quatro ou de oito em oito anos.

2. Ora, dizer o que quer faria muito jeito — na Europa, na Educação, na vida das cidades, no ordenamento do território, na política fiscal, no apoio às famílias e na relação do Estado com as grandes empresas. Não se vê, sobre isso, uma palavra. Aguiar-Branco (que em certo Verão anunciou que era absurdo um “debate de ideias” em pleno mês de Agosto) convidou o partido para fazer oposição, mas não se sabe com que caderno de encargos; Morais Sarmento distanciou-se de Marcelo e anunciou que quer um “debate de ideias” sobre o sistema político (o tema que faltava, caramba). No arranque da discussão sobre o programa de governo, ouviu-se alguma alma, entre esta gente, a exprimir uma dúvida, a fazer uma pergunta, a criticar, a esbracejar que fosse? Pensou esta gente, antes e durante a campanha eleitoral, em convocar apoios, chamar nomes novos, fazer propostas sérias? Com esta banda filarmónica, o PS pode dar música até quando quiser.»

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O ARMÁRIO


Como é que Hollywood tem tratado a homossexualidade masculina e feminina? Nesse particular, os anos 1920 foram mais puritanos que os anos 1960, ou foi ao contrário? E porquê? Como é que o Código Hays foi ultrapassado? De que modo, a partir de 1969, Hollywood olhou para a afirmação da cultura gay? Rob Epstein e Jeffrey Friedman fazem a narrativa da realidade americana. Cem filmes, cem anos (1895-1995). Há depoimentos de Shirley MacLaine, Gore Vidal, Tony Curtis, Susan Sarandon, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Armistead Maupin e outros. Notável.

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Terça-feira, Novembro 03, 2009

CLAUDE LÉVI-STRAUSS 1908-2009


Claude Lévi-Strauss, filósofo e antropólogo, morreu sábado passado, embora só hoje a sua morte tenha sido anunciada pelo Collège de France. O fundador da antropologia estruturalista faria 101 anos no próximo dia 28. A foto ao alto é de 1989.

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EM WESTMINSTER, OF COURSE


Chris Bryant, antigo diácono da Igreja Anglicana e actual ministro dos Assuntos Europeus do governo britânico, vai casar com o seu companheiro Jared Cranney. É a primeira união entre dois homens a ter lugar em Westminster. O protocolo está a ser afinado por John Bercow, presidente dos Comuns.

Na vida política britânica nada disto é novidade. Ben Bradshaw, o actual ministro da Cultura, Comunicação e Desportos, vive em união de facto com Neal Dalgleish, jornalista da BBC. Do lado tory também há precedentes públicos, designadamente o de Alan Duncan, ministro-sombra de Cameron, que no ano passado se casou com James Dunseath.

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PAVLOV, SEMPRE


Já ouviu falar de condicionamento clássico, também conhecido por condicionamento respondente? Na bloga, território por excelência do reflexo condicionado, os cães de Pavlov andam à solta. Método: calibrar a frase e ouvir por antecipação o eco do coice. Tão previsível.

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LISBOA É CONNOSCO


A fórmula oficial reza: Instalação dos Órgãos do Município de Lisboa. É hoje, às 17h. Quer isto dizer que António Costa toma posse como presidente da Câmara, e Simonetta Luz Afonso como presidente da Assembleia Municipal. Recorde-se que o PS detém 9 vereadores, o PSD 7 e a CDU 1. Desejo boa sorte à equipa de Costa, que apoiei desde a primeira hora.

Fazer votos para que a Câmara de Lisboa multiplique o número de pilaretes por cem, na provável improbabilidade de ter condições para multiplicar por mil. Começar pelos acessos às faixas de peões. Há cada vez mais grunhos a estacionar o jipe mesmo em cima. Reintroduzir o hábito de lavagem das ruas. Acabou quando? Há 35 anos? E então depois reabilitar os bairros antigos e dar azo à imaginação de Manuel Salgado, o número dois do executivo.

No entretanto, não era mau chamar o Metro à pedra. O prolongamento da linha vermelha abriu há dois meses, as estações são magníficas, mas, à superfície, a Alameda, o Saldanha, a Duque de Ávila e São Sebastião continuam num caos: lixo, tapumes, material de construção, blocos de cimento, redes metálicas, etc. Parece que o projecto de recuperação arranca em Dezembro, com a abertura das propostas dos concorrentes. Não podia ter sido em Setembro?

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Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O PROGRAMA


Como previsto, o governo entregou hoje ao fim da tarde, na Assembleia da República, o seu programa. O documento será discutido nos próximos dias 5 e 6. Naturalmente, o programa do governo corresponde ao programa com que o Partido Socialista se apresentou a sufrágio. Fazer o contrário seria enganar os eleitores. Se não leu antes, pode lê-lo aqui.

Como previsto, a oposição deu pinotes de corça. Argumento repetido ad nauseam: um governo de maioria relativa não pode apresentar o mesmo programa com que pediu a maioria absoluta! Só lhes faltou dizer que o programa devia ser redigido de forma proporcional pelos partidos representados no Parlamento.

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AFFAIRE BPN. UM ANO


Faz hoje um ano que o BPN foi nacionalizado. O imbróglio que levou à prisão Oliveira e Costa está longe de esclarecido. Sobretudo para aqueles clientes, e foram mais de quinhentos, que em Julho e Agosto de 2008, durante a gestão de Miguel Cadilhe, transferiram dinheiro de contas a prazo para emissões em papel da SLN Valor, no valor de 150 milhões de euros. Salvo se o Estado os vier a reembolsar, o que seria sempre questionável (os impostos de todos não podem servir para pagar a especulação financeira de alguns), esses clientes perderam parte ou a totalidade das suas economias. É a vida, como dizia o outro. Os liberais concordam, com certeza. Por razões diferentes, os bloquistas também.

Sobre o assunto, excerto do editorial de hoje do Público:

«[...] Não se sabe ainda ao certo quanto custará aos contribuintes o caso BPN. Sabe-se, isso sim, que uma parte da factura teria de ser paga pelo Orçamento do Estado. Se não fosse através dos empréstimos para cobrir perdas, teria de ser através do pagamento das garantias dos depósitos. A factura estava emitida e o Estado teria sempre de a liquidar.

Sobra ainda assim a reparação de danos morais. As operações que envolveram bancos em Cabo Verde, compras delirantes em Porto Rico ou empréstimos de 300 milhões a accionistas não resultaram apenas de simples actos incompetentes. O caso do BPN confirmou o pântano onde muitos negócios se realizam. Ainda que o banco seja vendido e o Estado possa recuperar parte das verbas que já lhe injectou, esta questão ética não pode ser contornada. Se não ficar tudo esclarecido, se os prevaricadores não forem punidos, se o desastre não se tornar um exemplo, o país não terá aprendido nada. E o drama do BPN manter-se-á na vida pública como um fantasma até que um novo escândalo surja no horizonte.
»

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GUERRA & PAZ


Não são só os futebolistas que mudam de clube. Teresa Loureiro deixou a Bertrand e está a partir de hoje na Guerra & Paz, substituindo Mário Sena Lopes. Ganha esta, perde aquela. A Teresa é uma grande profissional da edição. Boa sorte, é o que lhe desejo.

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Domingo, Novembro 01, 2009

EDITORIAIS


Como acontece na generalidade dos títulos da imprensa internacional, os editoriais do Público deixam de ser assinados. Por isso é que são editoriais. Se o director quer expressar opiniões pessoais, assina uma coluna própria. É assim em todo o mundo de língua inglesa e na maioria dos jornais de referência de dezenas de países. Em Portugal, foi sempre a norma do Diário de Notícias e do Expresso. Na Europa, a excepção é a França.

Os nossos bloggers, que tanto se gabam de ler a imprensa estrangeira, sabem isso com certeza. O que não impede alguns de citarem a Economist, o que é um valente disparate. Afinal, o Público limita-se a alinhar pelo modelo canónico, em que os boards editoriais são da responsabilidade da direcção, de analistas veteranos e de especialistas convidados. O editorial reflecte o jornal que o publica. Não é um estado de alma.

[A imagem mostra a sala de montagem do NYT em 1971.]

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LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Não sei se David Sedaris (n. 1956) é muito ou pouco conhecido em Portugal. Quem lê a New Yorker ou a Esquire decerto sabe quem ele é. O seu livro mais recente, When You Are Engulfed in Flames (2008), acaba de ser traduzido por Duarte Sousa Tavares (um sinal de garantia) com o título Diário de um Fumador. Sedaris, diz a crítica mais conspícua, tem como predecessores Tobias Wolff, Flannery O’Connor e Kurt Vonnegut. Naked, talvez a mais famosa das suas colecções de ensaios, saiu em 1997. No mundo anglo-saxónico, Sedaris é um ícone. A New York Magazine não hesita em escrever: «Dramaturgo, escritor, estrela da rádio e duende de Natal reformado, David Sedaris é provavelmente o nova-iorquino mais brilhante e espirituoso desde Dorothy Parker.» Estão a ver a fasquia. A ler, absolutamente.


Para irritar os patuscos do costume, esta crónica do Luis Novaes Tito.

Jansenista: «Desde que mudou de BCP para Millenium, aquela simpática instituição cambista do Eng. Jardim só tem tido azares. E convenhamos que neste momento precisava tanto de um escândalo como cada um de nós precisa de uma dor de dentes. / Como os tempos são de crise, temos agora administradores a alinharem em falcatruas por 10 mil euros. Onde é que isto vai parar? Burlas a troco de um maço de tabaco? / Fica-se varado com a rasteirice…»

José Simões: «O que é que alguém tem alguma coisa a ver com o que duas pessoas queiram muito bem fazer o que muito bem entenderem das suas vidas e das suas relações, para nos ser colocada a questão, pergunto eu. / A propósito, foi referendado no dia 27 de Setembro. Ganhou o “Sim”.»

Luís Januário: «Todos os anos , antes do Natal, uma Tempestade, um Relâmpago, uma Face oculta. A PJ mostra que isto é um estado de direito, que os poderosos podem ser investigados. O povo rejubila. Na sociedade do espectáculo, o show da igualdade dos cidadãos perante a lei. Dura um mês. Alimenta umas sociedades de advogados, uns juízes e alguns intermediários. Há um incauto que cai. O Bibi ali, o Faria de Oliveira acolá. Há uns sobrinhos que têm de fazer as malas e uns tios que abandonam a ribalta até uma lua mais favorável. Depois chega o Ano Novo e, no terreno real dos Tribunais, a coisa resolve-se, entre a poeira e os recursos.»

Paulo Gorjão: «Manuela Ferreira Leite consome mais de dois terços do espaço da sua crónica no Expresso a contar a história da carochinha. Há algum português que a desconheça? Convido o leitor a ir ver porque contado ninguém acredita. Enfim, no final, consegue escrever um parágrafo e meio sobre algo minimamente relevante, embora sem dizer nada de original ou de muito substantivo. Tem dias em que me parece que até os 29% obtidos nas legislativas foram um bom resultado. Poderia ter sido muito pior…»

Rui Bebiano: «Mas alguém duvida de que este homem, como indica com invulgar perspicácia o camarada Fidel, tenha sido capaz de introduzir insidiosamente em Cuba a Gripe A?»

Tomás Vasques: «Estava escrito nas estrelas que a direita, quando chegasse o momento, iria pedir que a legislação que permita o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse sujeita a referendo. [...] Jorge Bacelar Gouveia, deputado do PSD, deu o pontapé de saída. Não entendo porque motivo a direita se sente tão incomodada com a liberdade e os direitos dos outros, a não ser por submissão à doutrina do Vaticano. Mas há muito tempo que, por cá, a Igreja se separou do Estado. Os argumentos de Bacelar Gouveia são de uma fragilidade assustadora. Como diria Vasco Pulido Valente, são argumentos de “trolha ou de tipógrafo semi-analfabeto”, o que não fica bem a um professor catedrático. [...] Pedir um referendo sobre o casamento civil de pessoas do mesmo sexo só faria sentido político se tal tema não constasse no programa do partido (ou dos partidos) que vai propor a sua votação na Assembleia da República.»

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PÚBLICO, ERA III


A partir de hoje, Bárbara Reis é a nova directora do Público. Sucede a Vicente Jorge Silva (1990-1998) e José Manuel Fernandes (1998-2009). Começa uma nova etapa da vida do jornal.

Bárbara Reis fez parte da equipa que fundou o Público, foi editora de Política Internacional e de Cultura, depois correspondente do jornal em Nova Iorque (1995-2000). Nos últimos seis meses exerceu funções de directora-executiva. Entre 2000 e 2002 ocupou o cargo de porta-voz da Missão de Paz das Nações Unidas em Timor Leste, chefiada por Sérgio Vieira de Mello, com quem já trabalhara em Nova Iorque.

A partir de hoje, os editoriais do Público deixam de ser assinados:

«Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página. Não queremos doutrinar nem vender receitas. Queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos. Os editoriais serão escritos pelo novo Gabinete Editorial, composto pela direcção e mais cinco jornalistas do PÚBLICO — Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes, Margarida Santos Lopes, Ricardo Garcia e Vítor Costa. Há 20 anos, quando nascemos, foi decidido que os editoriais seriam assinados com base em duas ideias: seriam mais acutilantes e comprometeriam apenas o seu autor. Hoje sabemos que essa ideia original se tornou utópica e que um editorial compromete todo o jornal — é a cara do jornal — e não pode, por isso, ser veículo da opinião de uma só pessoa. Acreditamos, também, que é possível escrever editoriais incisivos, com pontos de vista corajosos e provocadores, que questionem e mobilizem a sociedade. Os novos editoriais do PÚBLICO são, portanto, textos de opinião do jornal como instituição. A mesma filosofia será aplicada à secção Sobe e Desce. Não serviremos governos, nem procuraremos certificados de bom comportamento. Prosseguiremos uma nova etapa do caminho, no respeito pelos valores que nos guiam desde o primeiro dia.»

Ciente de que «a credibilidade da imprensa de referência ficou seriamente afectada pelos incidentes que rodearam a última campanha para as legislativas», Bárbara Reis pretende «repor essa credibilidade ameaçada» pelo «excesso de peso ideológico no jornal». A nova direcção acredita «num jornalismo culto e responsável, que desafia o sensacionalismo e as agendas informativas cada vez mais estreitas.» É um bom (re)começo.

Seja-me permitida uma nota pessoal: parabéns, Bárbara!


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Sábado, Outubro 31, 2009

LEHRER NO ÍNDEX


Um leitor chamou-me a atenção para esta notícia. Custa a acreditar? Pois custa. Resumidamente: um professor americano foi suspenso porque aconselhou aos alunos a leitura de um artigo do neurocientista Jonah Lehrer (ao alto), The Gay Animal. The effeminate sheep and other problems with Darwinian sexual selection (2006). Pode lê-lo aqui. O mundo está perigoso.

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ACABOU A OLÁ!


Acabou a Olá!, a revista da alta-sociedade fundada em 1986 por Marcelo Rebelo de Sousa, Victor da Cunha Rego, José Miguel Júdice, Daniel Proença de Carvalho, Carlos Barbosa e Francisco Sarsfield Cabral. Na Olá! não entrava dinheiro novo, políticos, artistas, decoradores, modelos, cabeleireiros, apresentadores de televisão, futebolistas, actores de novela, nem sequer jet-setters. O único plebeu admitido era André Jordan, o homem que fez a Quinta do Lago. Durante 23 anos, a Olá! foi o reduto dos Lavradio, Palmela, Champalimaud, Melo, Espírito Santo, Pinto Basto e poucos mais. O espírito do tempo ditou o seu fim. Como diz Maria João Vieira, citada pelo Diário de Notícias, «a classe média que ganhou poder económico nas últimas décadas não está interessada em saber quem ganhou o concurso de atrelagem em Santo Estêvão ou se a marquesa de Pombal teve mais um neto.» Portanto, acabou.

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DALILA, AGAIN


Pouco antes de partir para férias em Nova Iorque, Dalila Rodrigues foi ontem notificada do seu afastamento da direcção da Casa das Histórias (Museu Paula Rego), inaugurada em Cascais no passado 18 de Setembro. No entanto, se Dalila quiser, pode assegurar a transição até ao fim do ano. A isso, a Fundação Paula Rego não se opõe. Aparentemente, a decisão de a afastar partiu da Câmara de Cascais. Como o museu é privado, e a Câmara do PSD, o argumento da asfixia não cola. A ver vamos o que diz a direita iluminada.

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Sexta-feira, Outubro 30, 2009

E OS SALTOS, NÃO?


Em artigo de opinião no Público, o deputado Jorge Bacelar Gouveia, do PSD, opositor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, advoga a necessidade de um referendo sobre o tema, porquanto, diz ele, «esta é uma das típicas decisões que numa democracia plena como a portuguesa só podem ser tomadas pelos portugueses em referendo nacional.» Sucede que o assunto foi sufragado nas últimas eleições legislativas. O casamento entre pessoas do mesmo sexo consta do programa de dois partidos políticos: o PS, que ganhou as eleições, e o BE.

Mais: julgando sensibilizar o eleitorado de direita e centro-direita para “a iniquidade” do casamento gay, PSD, CDS-PP, PPM, MPT, etc., não se cansaram de alertar o bom povo para o que aí vinha se a esquerda ganhasse. Ou seja, ao contrário do que afirma o prof Bacelar Gouveia, o assunto foi discutido, e muito, durante a campanha eleitoral. O bom povo marimbou-se para a beatice. E o PS ganhou.

Na Assembleia da República haverá deputados, em todos os partidos, contra e a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena arrancar as vestes. Basta deixar funcionar a democracia. Por este andar, qualquer dia estamos a referendar o tamanho dos saltos altos...

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IMPRENSA ESCRITA


Entre Janeiro e Agosto deste ano, as vendas dos títulos generalistas foi como segue:


DIÁRIOS

Correio da Manhã — 117.914/dia
Jornal de Notícias — 94.234
Público — 38.593
Diário de Notícias — 36.182
24 horas — 29.574
Diário Económico — 14.900
i — 12.005
Jornal de Negócios — 9.564

SEMANÁRIOS

Expresso — 111.861/semana
Sol — 42.850
Weekend Económico — 10.408

REVISTAS

Maria — 207.644/semana
Visão — 102.796
Sábado — 73.689
Focus — 9.849


Um país que não lê é um país atrasado. Se compararmos Portugal (cerca de 11 milhões de habitantes) com países europeus de dimensão equivalente, como a Bélgica, a Dinamarca, que tem metade da população portuguesa, ou mesmo a Suécia, verificamos quão residual é a expressão da imprensa escrita nos media nacionais. Isto tem consequências.

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As novas colecções da Deriva


O ensaio literário de grande qualidade marca as novas colecções da Deriva. No âmbito de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, terão início as colecções Pulsar e Cassiopeia. Na primeira, publicar­‑se­‑ão livros de pequeno formato e de baixo custo, especialmente destinados a um público maioritariamente estudantil, mas que não deixarão de suscitar interesse nos outros leitores. Para tal, basta notar que os três primeiros autores desta colecção são Jean­‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Literatura: Por Que Fazer?). Quanto à Cassiopeia, que se destinará a acolher estudos literários, abrirá com um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão. Para mais informações, pode consultar­‑se o blogue da editora.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

FACE OCULTA?


Estava escrito nas estrelas: Armando Vara, vice-presidente do Millennium BCP, entrou no rol dos happy few do Ministério Público. A ver vamos, daqui a um ano ou dois, se lhe acontece o mesmo que a Luís Nobre Guedes, e a tantos outros, que ficaram em banho-maria até serem ilibados. Entretanto, a opinião pública regista. Como é de uso, a opinião pública dá o desconto da praxe. Adiante.

Alegados factos: a PJ de Aveiro desencadeou ontem a operação Face Oculta, relacionada com corrupção, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Foram realizadas buscas em Aveiro, Ovar, Lisboa, Oeiras, Sines, Santa Maria da Feira, Alcochete, Faro, Ponte de Sôr e Viseu. O empresário Manuel Godinho, sucateiro, proprietário das empresas O2 e da SCI, ambas de Ovar, fornecedoras da REFER e das siderurgias espanholas, foi preso. Os restantes treze arguidos continuam em liberdade. Vara é um deles. Acusam-no de ter pedido 10 mil euros de comissão. Paulo Penedos, advogado, membro da Comissão Nacional do PS, filho de José Penedos, presidente da REN, também. Acusam-no de ter recebido 270 mil euros de comissões. A operação da PJ é liderada por Teófilo Santiago, um dos responsáveis pelo processo Apito Dourado. A ver vamos, desta vez.

Por falar em banho-maria. O caso BPN está longe de encerrado. O buraco alastra. Vai já em três mil milhões de euros. Passada a fase carnavalesca (a comissão Melo), sossegado o establishment com a prisão de Oliveira e Costa, bode expiatório da tramóia, ninguém mais se preocupou. A coisa fia mais fina. O polvo não tem epicentro em Ovar.

Tudo isto é fado?


[A foto é do Diário de Notícias.]

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NO BLUES


Um mês depois das eleições, vinte simplexes e uma honourable reuniram-se num jantar que se prolongou noite fora. Luís Novaes Tito foi o chefe de protocolo do serão que juntou Ana Matos Pires, Ana Vidigal, André Couto, Bruno Reis, Carlos Manuel Castro, Eduardo Graça, eu próprio, Hugo Mendes, Irene Pimentel, João Constâncio, João Galamba (na foto à minha direita), José Reis Santos, Novaes Tito himself, Mariana Vieira da Silva, Palmira Silva, Paulo Ferreira, Rui Herbon, Tiago Julião, Tomás Vasques, Vera Santana e Victor Sancho. As pêras marinadas em Remy Martin e pistachio estavam deliciosas!

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Quarta-feira, Outubro 28, 2009

OS 320


Até 1999, os cargos dirigentes da Administração Pública eram providos por escolha. Foi assim com Salazar e Caetano. Foi assim nos sucessivos governos durante os primeiros 25 anos da democracia. Até que Guterres inventou, e fez aprovar na Assembleia da República, a Lei n.º 49/99, de 22 de Junho. A partir daí, directores-gerais e subdirectores-gerais continuaram a ser nomeados por escolha da tutela, mas os directores de serviço e os chefes de divisão passaram a ter de sujeitar-se a concurso. Não vale a pena insistir na hipocrisia do método: os concursos eram feitos à medida de quem tinha de ser nomeado. O governo de Barroso introduziu alterações (Lei n.º 2/2004, de 15 de Janeiro), mantendo o essencial. Até que o XVII Governo Constitucional, o primeiro de Sócrates, fez aprovar a Lei n.º 51/2005, de 30 de Agosto, estabelecendo novas regras. O PSD, o CDS e o PCP votaram contra, mas o diploma foi aprovado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda. De acordo com as regras em vigor, as comissões de serviço do pessoal dirigente cessam automaticamente assim que muda o governo.

Significa isto que, neste momento, há 320 lugares de topo para redistribuir. O governo pode, se quiser, mudar esses dirigentes (sem direito a indemnização) num prazo de 45 dias. O mais certo é que mude uns quantos e confirme a maioria. Trata-se de lugares de confiança política. Não vale a pena rasgar as vestes contra o óbvio. Aliás, em lugar de acusar o governo de dirigismo, a direita tem agora condições para alterar a lei. A menos que não convenha... Nunca se sabe se daqui a 4 ou 8 anos ganham as eleições.

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Contaminações


Talvez se possa falar desta revista como de uma publicação de âmbito antropológico, mas o mais exacto será dizer que ela se abre à multiplicidade de relações que o corpo entretece com o mundo. No seu número 13, datado de Junho deste ano, há vários textos a merecerem destaque. Entre eles, conta­‑se o ensaio de Luís Quintais sobre Crash, de J. G. Ballard, que pretende saber de «que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa experiência reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno­‑ciência» (p. 17). Ainda hoje me lembro de ter assistido ao filme que Cronemberg fez a partir do romance de Ballard e de, à saída do cinema, ter tentado defender a obra do realizador perante quem a vira comigo. As ideias de contaminação e de impureza pareciam­‑me essenciais para compreender aquele objecto quase provocatório, ao mesmo tempo que se mostravam como os pontos decisivos para que eu defendesse o filme e o considerasse tão relevante. Por outras palavras diz Quintais o mesmo quando faz notar que a cidade de Ballard se apresenta como um «laboratório onde acidente e simulação se afiguram os dois vértices experimentais de uma complexa encruzilhada de hipóteses em torno de uma natureza humana infiguravelmente plástica e, em última instância, opaca» (p. 22).

Para essa direcção também se encaminha a entrevista que Christine Buci­‑Glucksmann concedeu a Jorge Leandro Rosa, onde se pode ler que «será na articulação entre as culturas e nas culturas, nesse processo que chamei a 'mundialidade', que não se resume à mundialização, que poderá existir criação, e criação nos mundos virtuais» (p. 68). O raciocínio da autora de La Raison Baroque (1984) aponta para uma noção de instabilidade associada à cultura, o que lhe permitirá definir a estética, não como «a ciência do belo, nem do sublime», pois «já não constitui um inquérito capaz de atingir valores concebidos em si mesmos, tal como quiseram Kant e, no fundo, Hegel», mas antes como «um espaço crítico que pensa visibilidades», ou seja, que se autoclassifica como «polissensorial» (pp. 72-73). Em abono da sua tese, Christine Buci­‑Glucksmann invoca o exemplo pertinente de artistas como Cindy Sherman e Orlan, para reconhecer, com palavras que decerto poderiam ter sido subscritas por Ballard ou por Cronemberg, que talvez seja a carne a última resistência ao trabalho estético sobre a forma corpórea», a «resistência de algo destinado ao efémero e, portanto, à morte» (p. 70).

Nas outras páginas da revista coordenada por João Urbano, há textos sobre o disparate, a nano­‑art, biopolítica e robótica, a arquitectura, a distinção entre realidade e ficção ou entre o humano e o não­‑humano, além de duas ficções, de Aécio de Amaral e do próprio João Urbano (com um narrador que, por momentos, faz lembrar os vagabundos beckettianos, ainda que, na página 139, insista desastradamente em utilizar o vocábulo «viajem» como nome). No seu conjunto, esta é uma proposta estimulante, cuja leitura pode ainda ser complementada com uma visita ao sítio da Nada, onde se encontram inéditos e informações que não existem na versão em papel.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

UMA STASI EM CADA ESQUINA


Irene Pimentel lembra aqui uma parte do que foi a máquina infernal da Stasi, a polícia política da antiga RDA, também conhecida por Alemanha de Leste. Sublinha a historiadora:


«Vinte anos após a queda do muro de Berlim, os arquivos da polícia política da ex-República Democrática Alemã [...] continuam a revelar segredos. Entre 1950 e 1989, essa polícia empregou um total de 274.000 pessoas. Quando foi extinta, tinha 91.015 funcionários, além de 173.081 “colaboradores não-oficiais” (inoffizielle Mitarbeiter), dos quais 1.553 informadores identificados actuavam na República Federal Alemã (RFA). Dada a destruição dos arquivos da Stasi em Berlim, é difícil saber ao certo quantos informadores tinha essa polícia, embora se pense que possam ter chegado ao meio milhão (1950-1989). Ou seja, informadores incluídos, a Stasi terá tido um espião por cada 66 cidadãos da RDA. Após a queda do muro, os homens da Stasi dedicaram-se a destruir documentação nas trituradoras de papel ou a rasgar à mão os documentos mais comprometedores, queimando-os de seguida. No entanto, em 15 de Janeiro de 1990, as instalações dessa polícia foram tomadas de assalto por centenas de cidadãos, que conseguiram recuperar mais de 16.000 sacos com pedaços de papel rasgados, correspondendo a cerca de 45 milhões de páginas. Depois da reunificação, houve um intenso debate sobre o que se deveria fazer com esses arquivos, acabando por ser o destino destes decidido no início dos anos 90. [...]»


Passou-se isto no seio de uma sociedade culta, depois dos horrores da II Grande Guerra. Surpreendente? Infelizmente, não. Basta ler ou ouvir certos comentadores, seguir alguns blogues ou avaliar o subtexto de tanta conversa de salão, para perceber como a ocasião faz o ladrão. É triste, mas é verdade.

[A imagem, de 1992, mostra um armazém com pilhas de sacos de documentos apreendidos na Stasi.]

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JÁ FUI FELIZ AQUI


Esta imagem da ilha de Moçambique, obtida por satélite, foi roubada ao ma-schamba. Clique para ampliar. O traço do canto inferior esquerdo é a ponte que liga a ilha ao continente. Vivi aqui durante 32 meses, entre Março de 1971 e Novembro de 1973, com quatro escapadas a casa (em Lourenço Marques). Apesar da guerra, fui feliz. Omito detalhes para não ferir espíritos sensíveis. Luís Filipe Rocha, quem diria!, era Procurador da República. Em 1972, Rui Knopfli, Mécia e Jorge de Sena passaram por lá. O Rui voltou em 73. Escrevi lá o primeiro livro. Em Janeiro de 1975, dois meses depois de publicado, fui à ilha com o Jorge. Foi a primeira visita dele e a última minha. É capaz de ser do tempo, mas hoje acordei assim.

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Segunda-feira, Outubro 26, 2009

LAPA OUT


Pedro Lapa exerce o cargo de director do Museu do Chiado desde 1998. Pertencia ao quadro, concorreu à direcção, ficou em primeiro lugar, tomou posse. Salvo casos localizados, a sua gestão não sofreu contestação nos últimos onze anos. Lapa comissariou a representação portuguesa na 49.ª Bienal de Veneza, em 2000, e organizou retrospectivas importantes: Man Ray, Columbano Bordalo Pinheiro, Franz Ackermann, Jimmie Durham, Tobias Rehberger, Julião Sarmento e outros. Também foi ele o responsável por levar ao Museu Puchkin de Moscovo a obra de Amadeo de Souza-Cardoso. Agora, um novo concurso colocou a arquitecta Helena Barranha em primeiro lugar. Vai portanto substituir Pedro Lapa. A isto, os costumes chamam transparência.

O Meio discorda. E pôs a circular um manifesto “contra o afastamento de Pedro Lapa”, assinado por, entre outros, Helena Almeida, Lurdes Castro, Julião Sarmento, Nikias Skapinakis, Ângela Ferreira, Cristina Guerra, José Mário Brandão, Pedro Oliveira, Delfim Sardo, Miguel Wandschneider, Miguel von Haffe Perez e Manuel Castro Caldas. Artistas, galeristas, curadores, todos contra a saída de Lapa.

Em que ficamos? Se as nomeações são políticas, Aqui D’El Rei! Se obedecem às regras dos concursos públicos, idem. Gabriela Canavilhas vai ter muito com que se entreter.

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Domingo, Outubro 25, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Escrevi várias vezes sobre M. S. Lourenço, poeta e filósofo. Infelizmente, parece ter sido necessário que morresse para que a obra poética fosse reeditada. O Caminho dos Pisões aí está, numa “edição” de João Dionísio para a Assírio & Alvim. (Em parte alguma o leitor percebe em que consistiu essa “edição”.) Nas 687 páginas do volume cabem os dez livros que Lourenço publicou entre 1960 e 2002. Como não podia deixar de ser, Pássaro Paradípsico (1979) vem acompanhado dos desenhos que Cesariny fez para o livro. Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, Manuel dos Santos Lourenço passou longas temporadas fora de Portugal — foi professor em universidades inglesas, americanas e austríacas —, o que talvez explique o descaso com que a sua poesia foi recebida no Meio. Assim O Caminho dos Pisões contribua para fixar a indiscutível importância da obra. Lamentar, em todo o caso, que uma edição desta magnitude não venha acompanhada de uma introdução ou posfácio que situem a poesia do autor no contexto do tempo. Ah! Também se esqueceram de dizer que o autor viveu entre 1936 e 2009.


Ana Matos Pires: «Não gosto do homem, não gosto da escrita do homem, mas essa coisa de se usar o “não ter estudos” e assim para o desancar parece-me poucochinho, que quereis!?»

Filipe Nunes Vicente: «Santos Silva ministro. Continuo a apreciar imenso o político e é um prazer vê-lo em debates: duro, bem preparado, retoricamente impecável. / Isto independentemente de concordar com ele ou não, obviamente.»

Luís Januário: «Eu até ontem lia um jornal chato. Agora leio o i. [...] O mundo do i é levezinho, curto, como uma brincadeira de crianças em que morremos e nos levantamos em seguida, ninguém se magoa e a Laurinda Alves faz pendant

Luis M. Jorge: «Diga-se de passagem que a qualidade da escrita é coisa pouco importante. Se o texto necessitar de metáforas fulgentes, devemos proporcioná-las ao leitor. Mas Defoe redigiu clássicos com uma prosa canalha e atamancada. Flaubert andou à caça de palavras repetidas para nos fazer bocejar a meio dos Trois Contes. E no limite do ataviado, que encontramos nós? Não Proust, nem James, mas o ilegível Finnegans Wake

Tomás Vasques: «Parece que o “senhor Nuno Cabral de Montalegre” comprou o Correio da Manhã, o qual, a partir de agora, só escreve sobre “folclore transmontano”. É o que me ocorre ao ler uma notícia sobre Manuela Moura Guedes, a heroína da luta contra a “repressão” e a “asfixia” democrática — uma espécie de Santa da Ladeira da comunicação social para alguns “asfixiados”. O Correio da Manhã quer “destruir a imagem” da nossa “libertadora”: Manuela Moura Guedes encontra-se de baixa médica, segunda palavras da própria, e estava às duas e meia da madrugada no BBC, como cabeça de cartaz no lançamento de um produto energético, a conselho da sua médica. E aí exerceu o seu direito à “asfixia democrática”, tentando impedir um fotógrafo de a fotografar e ameaçando com tribunais e outras sanções o exercício de liberdade de imprensa. Estou-me borrifando para o que Manuela Moura Guedes faz ou deixa de fazer na sua vida privada, mas aos “heróis” exige-se decoro e comportamentos coerentes. Não me atirem areia para os olhos.»

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Sábado, Outubro 24, 2009

VISTO DE ESPANHA


Estava a jantar no Atrio (a convite de amigos) de Toño Perez quando um telefonema de Lisboa me pôs ao corrente da constituição do novo governo. Na manhã de quinta-feira, assim que se soube que Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes do governo cessante, não participaria nos trabalhos da Agenda Feminista, juntamente com Joana Amaral Dias, Montserrat Boix, Manuela Tavares, Amelia Valcárcel, Pedro Pinto Matoso, Adriana Bebiano, Pilar Lucio, São José Almeida, Alicia Miyares, Maria Helena Santos, etc., a especulação disparou. Ocupado com uma leitura no Palacio de la Isla, no âmbito da Aula José María Valverde, só perto das 23h locais tive conhecimento dos nomes certos. Durante todo o dia, no Palacio da Diputación de Cáceres como no lounge do hotel, a rotação de pastas fora alucinante. Afinal, Sócrates mantinha os ministros óbvios, confirmava Isabel Alçada na Educação (um terço do jantar foi ocupado a falar de Maria de Lourdes Rodrigues) e desorientava o Meio com o convite a Gabriela Canavilhas. Tudo está bem quando começa bem?

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A REDE CHINESA


Buscas em escritórios e residências levaram a PJ a apreender software ilegal e milhares de documentos confidenciais que estavam na posse dos responsáveis da Trusted Technologies, empresa de Lisboa acusada de, através do GhostNet, piratear as redes de vários ministérios, em particular os da Justiça e dos Negócios Estrangeiros. Os responsáveis da Trusted Technologies foram constituídos arguidos.

Nunca se sabe se os famosos problemas do Citius, o programa informático do ministério da Justiça (obrigatório nos processos cíveis) que tanta celeuma tem causado junto dos agentes judiciários, unindo procuradores e juízes contra a tutela, não ficam agora aliviados com a aparente intersecção da rede “chinesa”. A ver vamos.

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Sexta-feira, Outubro 23, 2009

JOSÉ SARAMAGO


Hoje no Público:


Existe um “caso” Saramago? Existe. Oriundo do proletariado, José Saramago (n. 1922) conseguiu impor a obra à revelia da tutela universitária. Antes de chegar à literatura exerceu diversas profissões, entre elas as de serralheiro mecânico e jornalista. O primeiro livro foi o romance Terra do Pecado (1947), a que se seguiram Os Poemas Possíveis (1966), uma nova colectânea de poemas, volumes de crónicas e contos, Manual de Pintura e Caligrafia — o segundo romance, que em 1977 pôs a crítica de sobreaviso —, uma peça de teatro e, em 1980, a obra que o consagrou: Levantado do Chão. Não era ainda o unanimismo crítico e de público, que veio só com Memorial de Convento (1982), mas foi a partir dali que Saramago passou a contar. O resto é história: conhece Pilar Del Rio, separa-se de Isabel da Nóbrega, sucedem-se livros, traduções, prémios, teses e doutoramentos honoris causa; torna-se best-seller em vários países; Harold Bloom considera O Evangelho segundo Jesus Cristo (1992) equivalente ao melhor de Joyce, Proust e Kafka; estabelece residência na ilha espanhola de Lanzarote; recebe o Prémio Nobel da Literatura em 1998; uma Fundação com o seu nome ocupa a Casa dos Bicos em Lisboa, etc. Caim é o 19.º romance.

A problematização histórica tem sido o Leitmotiv da obra: conquista de Lisboa, tribunais da Inquisição, reinado de D. João V, construção do Convento de Mafra, Fernando Pessoa e a geração do Orpheu, repressão do Estado Novo, guerra civil espanhola, etc., temas aos quais dedicou algumas das suas melhores páginas.

Agora o patamar mudou. Considerando Deus como autor moral do assassinato de Abel, Saramago responsabiliza-O pelo crime de Caim. (Utilizo maiúsculas por convenção literária; no livro está tudo em minúsculas.) À laia de síntese, a frase promete. Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna. Num país sem tradição teológica, com a literatura alheada da questão religiosa — Camilo e Eça ficaram pela anedota, Guerra Junqueiro foi um panfletário —, não admira que Caim claudique: «Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela... etc.» Como desatar o nó da narrativa? Foi a declinação barroca que fez a fama de Saramago. A declinação barroca e o recurso a parábolas e alegorias. Nesse particular, não o podemos acusar de defraudar expectativas.

Saramago opõe a laicidade à cesura entre sagrado e profano. Nada contra. O óbice releva de inadequação discursiva: «As duas irmãs ficaram grávidas, mas caim, grande especialista em erecções e ejaculações como gostosamente o confirmaria lilith, sua primeira e até agora única amante [...] a coisa simplesmente não se lhe levanta, e se não se lhe levanta a coisa, então não poderá dar-se a penetração...» Não estamos em 1885, quando A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, provocou tumultos de rua. Hoje, as peculiares idiossincrasias de Saramago não incomodam ninguém. Sobretudo porque o efeito “máquina do tempo” (Caim protagoniza episódios em épocas diferentes) anula o efeito de provocação.

Formatada para um público transnacional, a sua visão do mundo reflecte-se em obsessivas circunvoluções semânticas, pontuadas, aqui e ali, por termos e expressões estranhas ao contexto: «gatinhando entre a cozinha e o salão», «arame farpado», «porta-aviões», «colegas», «pessoal de limpeza» e outros. Das muitas vezes em que Deus — um indivíduo «rancoroso» que não hesita em deixar matar inocentes — é suposto dizer ‘faça-se’ ou, se preferirem, ‘assim seja’, Saramago escreve «fiat».

Lido Caim, ficamos com a sensação de que Saramago pretende confundir futuros exegetas da obra, a exemplo do Apóstolo Paulo (citado na contracapa) na carta dirigida aos Hebreus. Agora como então, o discurso baralha a genologia. Romance ou sermão?


Sermão aos incrédulos, in Ípsilon, 23-10-2009, pp. 38-39. Duas estrelas.

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