CITAÇÃO, 107

«O actual concurso para a liderança do PSD não é fácil de seguir. É uma história de caciques de província e velhas disputas de família, que faz lembrar a política oligárquica do século XIX. Os candidatos, no entanto, fazem por cumprir o papel, tentando distinguir-se uns dos outros. [...]
Peguemos, para começar, em Santana e Ferreira Leite, que se tratam a si próprios como os pólos principais da disputa. É óbvio que se detestam mutuamente. Mas têm muito em comum. Ambos, por exemplo, descobriram vida para além do défice. Santana preocupa-se sobretudo com o “crescimento”, e Ferreira Leite com as “questões sociais”. Alguém lhes ensinou, como já tinha ensinado a Menezes, que Sócrates deve ser ultrapassado “pela esquerda”. Ninguém, por isso, os ouve falar demasiado de “reformas”, a começar pela da administração pública. [...] Com Sócrates, o PS arranjou um “Cavaco”; o PSD ameaça agora arranjar um “Guterres”.
Percebe-se que Santana e Ferreira Leite apostam quase tudo na revisão do crescimento económico para baixo e da inflação para cima. Mas, se a economia não arrancar, vai o país devolver o seu destino aos mesmos que, em três anos, entre 2002 e 2005, não conseguiram equilibrar o Orçamento, não fizeram as “reformas” e acabaram pateticamente à mercê de Sampaio? Os mesmos a quem já puniu nas eleições europeias de 2004 e nas legislativas de 2005?
De resto, os dois candidatos exibem o tradicional obscurantismo ideológico do PSD, expressando-se numa língua estranha, em que as palavras não têm os significados correntes e as coisas não têm os nomes habituais. Na SIC, Ferreira Leite definiu-se como “social-democrata”. Ao Correio da Manhã, explicou: “Não sou com certeza liberal, também não sou populista.” Com certeza? É que, nessa mesma ocasião, eis como descreveu a linha geral do partido: “O PSD defende um Estado pequeno, mais reduzido, que apenas tem como função incentivar e especialmente criar as condições para que a iniciativa privada funcione, se desenvolva e se liberte, que dê espaço à sociedade civil para progredir, e que incida a sua acção para satisfazer necessidades dos menos favorecidos.” Onde é que, no mundo, se chama a isto “social democracia”? A classe dirigente do PSD não parece compreender que esta relutância para se definir claramente, nos termos do debate político de hoje, a faz parecer uma oligarquia bizantina, demasiado remota ou manhosa.
A primeira consequência de Santana Lopes e de Ferreira Leite foi a inesperada “obamização” de Passos Coelho. Sim, Passos vem do PSD, com os decorrentes caciques e limitações ideológicas (ainda não descobriu, aos quarenta e tal anos, se é de direita ou de esquerda). Mas fala de “reformas” e, pelo menos, chama “liberalismo” ao “liberalismo”. É provável que tenha ainda outras qualidades. Acima de todas, porém, tem neste momento esta: não é Santana nem Ferreira Leite. Ao contrário deles, não deixará Sócrates reduzir o debate às contas do passado. [...] Talvez Passos Coelho seja o único dos candidatos em condições de não ser o último líder do PSD. Ou talvez já ninguém possa evitar essa sorte.
O PSD importa ao país na medida em que for uma alternativa ao presente Governo. Que lhe acontecerá, se continuar incapaz para a função? Em 2009, por coincidências de calendário eleitoral, um PSD irrelevante arrisca-se a ser castigado não apenas na Assembleia da República, mas onde mais dói: nas autarquias. [...] Para onde irão, sem a pastagem de municípios e freguesias? E para onde irá o PSD, sem essas “bases”?»
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