Agora que o n.º 113, relativo a Maio, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Vive la France!, publicada no n.º 112 na minha coluna Heterodoxias:
Michel Hazanavicius, realizador francês de origem lituana, resgatou a honra perdida do cinema francês? Tenho dúvidas. Verdade que O Artista acaba de ser considerado melhor filme do ano pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas convém deixar a poeira assentar. Houve um tempo, entre o fim dos anos 1940 e a primeira metade dos anos 1990, em que autores como René Clement, Jacques Tati, Serge Bourguignon, Claude Lelouch, Régis Wargnier e François Truffaut recebiam óscares em Hollywood. Depois, durante quase vinte anos, Hollywood esqueceu a França. Até que surgiu Michel Hazanavicius.
Hazanavicius é famoso em França por ter feito em registo paródico dois filmes da saga OSS 117, de Jean Bruce. Bruce é o Ian Fleming do outro lado do Canal. Bruce e Fleming morreram com um ano de intervalo: o primeiro em 1963, com 42 anos; o segundo em 1964, com 56. Ambos fizeram da guerra fria uma profissão. Enquanto Fleming criava James Bond, agente secreto 007 de Sua Majestade, herói de catorze livros e vinte e sete filmes, Bruce, o gaulês, criou Hubert Bonisseur de La Bath, agente secreto OSS, herói de mais de cem livros e treze filmes. Dois foram realizados por Hazanavicius, com Jean Dujardin no papel de Hubert Bonisseur de La Bath: OSS 117. Le Caire, nid d’espions (2006) e OSS 117. Rio ne répond plus (2009). Comédias de détournement, como lhes chama Hazanavicius. Na realidade, pretendia homenagear Sean Connery. Foram estas improváveis personagens que em Fevereiro trouxeram a glória da França ao palco do Kodak Theatre.
O que é que mudou na relação da França com a cultura planetária? O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) é um indicador?
Saudades do tempo em que Simone Signoret era tão conhecida como Marilyn Monroe ou Elizabeth Taylor. Quem diz a Signoret diz Jeanne Moreau. Ambas foram consagradas pela Academia. A Signoret em 1959, óscar para melhor actriz principal por Um Lugar na Alta-Roda; a Moreau em 1998, óscar honorífico pelo conjunto dos filmes. Onde isso vai. Em 2012, quais os actores franceses a quem podemos atribuir o estatuto de “monstro sagrado”? Catherine Deneuve? Gérard Depardieu? Juliette Binoche? Em Nova Iorque ou Mumbai (não esquecer o peso da indústria do cinema na economia indiana), quem cita de cor um nome, um só, dos laureados do Théâtre du Chatelet?
Os portugueses da minha idade cresceram com doses maciças de filmes franceses. Em Moçambique menos, porque o cinema de Hollywood, mas também o inglês (nos anos 1950-70), os “filmes de Pinewood”, como então se dizia, dominavam as salas. Isso não impediu Renoir, Rohmer, Bresson, Resnais, Pialat, Rivette, Godard, Truffaut, etc., de serem acompanhados por um público mais reduzido, mas fiel. (Por alguma razão a Pide não gostava do Cineclube de Lourenço Marques.) Noutro plano, Claude Chabrol e Roger Vadim eram indiscutíveis sucessos de bilheteira, o primeiro com a ajuda de Stéphane Audran, o segundo à boleia de Brigitte Bardot e Jane Fonda. E, claro, havia Jean Gabin, Jean-Paul Belmondo e Alain Delon. Isto para dizer que durante muito tempo a França se bateu taco a taco com Hollywood.
Quando Sylvia Kristel chegou pela mão de Just Jaeckin, o mundo tinha começado a mudar muito depressa. Na minha memória, talvez enviesada, o ocaso do cinema francês coincide com a retirada americana de Saigão e o êxodo dos brancos das antigas colónias africanas. Por isso mesmo, em 1992, quando Régis Wargnier fez Indochina — duplo requiem com argumento de Érik Orsenna —, era tudo menos o cinema francês que estava em pauta.
Aqui chegados, quer-me parecer que a Firma Hazanavicius/Dujardin encaixa mal na história. Os Mercados decerto explicam.
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