Quarta-feira, Maio 21, 2008

CITAÇÃO, 107


Rui Ramos, O último líder do PSD?, hoje no Público. Extractos:


«O actual concurso para a liderança do PSD não é fácil de seguir. É uma história de caciques de província e velhas disputas de família, que faz lembrar a política oligárquica do século XIX. Os candidatos, no entanto, fazem por cumprir o papel, tentando distinguir-se uns dos outros. [...]

Peguemos, para começar, em Santana e Ferreira Leite, que se tratam a si próprios como os pólos principais da disputa. É óbvio que se detestam mutuamente. Mas têm muito em comum. Ambos, por exemplo, descobriram vida para além do défice. Santana preocupa-se sobretudo com o “crescimento”, e Ferreira Leite com as “questões sociais”. Alguém lhes ensinou, como já tinha ensinado a Menezes, que Sócrates deve ser ultrapassado “pela esquerda”. Ninguém, por isso, os ouve falar demasiado de “reformas”, a começar pela da administração pública. [...] Com Sócrates, o PS arranjou um “Cavaco”; o PSD ameaça agora arranjar um “Guterres”.

Percebe-se que Santana e Ferreira Leite apostam quase tudo na revisão do crescimento económico para baixo e da inflação para cima. Mas, se a economia não arrancar, vai o país devolver o seu destino aos mesmos que, em três anos, entre 2002 e 2005, não conseguiram equilibrar o Orçamento, não fizeram as “reformas” e acabaram pateticamente à mercê de Sampaio? Os mesmos a quem já puniu nas eleições europeias de 2004 e nas legislativas de 2005?

De resto, os dois candidatos exibem o tradicional obscurantismo ideológico do PSD, expressando-se numa língua estranha, em que as palavras não têm os significados correntes e as coisas não têm os nomes habituais. Na SIC, Ferreira Leite definiu-se como
“social-democrata”. Ao Correio da Manhã, explicou: “Não sou com certeza liberal, também não sou populista.” Com certeza? É que, nessa mesma ocasião, eis como descreveu a linha geral do partido: “O PSD defende um Estado pequeno, mais reduzido, que apenas tem como função incentivar e especialmente criar as condições para que a iniciativa privada funcione, se desenvolva e se liberte, que dê espaço à sociedade civil para progredir, e que incida a sua acção para satisfazer necessidades dos menos favorecidos.” Onde é que, no mundo, se chama a isto “social democracia”? A classe dirigente do PSD não parece compreender que esta relutância para se definir claramente, nos termos do debate político de hoje, a faz parecer uma oligarquia bizantina, demasiado remota ou manhosa.

A primeira consequência de Santana Lopes e de Ferreira Leite foi a inesperada “obamização” de Passos Coelho. Sim, Passos vem do PSD, com os decorrentes caciques e limitações ideológicas (ainda não descobriu, aos quarenta e tal anos, se é de direita ou de esquerda). Mas fala de “reformas” e, pelo menos, chama “liberalismo” ao “liberalismo”. É provável que tenha ainda outras qualidades. Acima de todas, porém, tem neste momento esta: não é Santana nem Ferreira Leite. Ao contrário deles, não deixará Sócrates reduzir o debate às contas do passado. [...] Talvez Passos Coelho seja o único dos candidatos em condições de não ser o último líder do PSD. Ou talvez já ninguém possa evitar essa sorte.

O PSD importa ao país na medida em que for uma alternativa ao presente Governo. Que lhe acontecerá, se continuar incapaz para a função? Em 2009, por coincidências de calendário eleitoral, um PSD irrelevante arrisca-se a ser castigado não apenas na Assembleia da República, mas onde mais dói: nas autarquias. [...] Para onde irão, sem a pastagem de municípios e freguesias? E para onde irá o PSD, sem essas “bases”?»

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O PSD, AS QUOTAS E O PRAZO


É impressionante a quantidade de disparates que todos os dias lemos nos jornais acerca de prazos disto e daquilo. Por exemplo, as eleições para a liderança do PSD têm sido um manancial. Os jornalistas não têm forçosamente que ser licenciados em direito, mas podiam ao menos ter à mão o Código do Procedimento Administrativo, em vigor desde 16 de Maio de 1992. Ficavam a saber que os prazos se contam em dias úteis, excepto se forem superiores a seis meses (cf. art.º 72.º, n.ºs 1 e 2). A norma é clara: «O prazo [...] suspende-se nos sábados, domingos e feriados.» Não há nada que enganar. Claro que a trapalhada começa no próprio PSD, como se viu com a marcação do congresso, que teve de ser adiado.

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Terça-feira, Maio 20, 2008

OLIVEIRA & BARROSO


Alguém me explica o que foi fazer Durão Barroso a Cannes? Não me parece que o Festival tivesse a concurso qualquer obra sobre os trabalhos da União. Ainda bem que o actual ministro da Cultura resistiu à tentação e não saiu da Ajuda. Valha-nos isso.

Adenda. Luís Naves, jornalista do Diário de Notícias, alerta-me para o financiamento do cinema europeu através do programa MEDIA, facto que justificaria a presença de Barroso em Cannes. Não subscrevo, mas fica o esclarecimento.

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Segunda-feira, Maio 19, 2008

EM QUE FICAMOS?


Este naco de uma notícia da edição de hoje do Público sobre eventuais chapeladas (i.e., fraude) no PSD, dá que pensar:

«Num apartamento de tipo T1, por exemplo, estão registados 11 militantes, um dos quais é contratado pela junta. Na mesma rua, surgem outros dois endereços onde supostamente residem um total de 11 inscritos no partido (seis numa casa, cinco noutra, sem indicação de tipologia). Numa rua ao lado, há outro apartamento onde supostamente vivem mais 11 militantes, e uma cave de outra rua próxima, um T3, dá endereço para mais seis inscritos no partido, um dos quais é igualmente funcionário da junta de freguesia.»

Então as inscrições dos militantes do PSD referem a tipologia da residência? (E não haverá nenhum loft com 300 militantes ao molho?) Ou alguém foi indagar, violando a privacidade dos visados? Em que ficamos?

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Domingo, Maio 18, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Você conhece a brasileira Guiomar de Grammont? Não conhece. É pena. Guiomar de Grammont (n. 1963) pertence à geração de Bernardo Carvalho, Fernando Bonassi, André Sant’Anna e outros, a geração dos nineties, infelizmente pouco conhecida deste lado do Atlântico. Também eu descobri Guiomar há pouco tempo. Seu Sudário são dezanove contos bem escarolados, a prosa enxuta, não raro desabrida, tratando o sexo com desenvoltura. Ficam os dois primeiros parágrafos de Glória:


«A primeira vez que andei de trem foi com minha avó. Eu, moleque, gritava, os braços debruçados lá fora. O cabelo, chicote no vento. Minha avó, pára de pôr a mão pra fora, menino! As paisagens, um filme a desenrolar-se nos caixilhos das janelas. O poema de Bandeira. Para que escrever mais, se o trem inteirinho no poema, com vagões, apito, fumaça e tudo mais?

Eu buscava um trem em mim e ele já se instalara em meu peito. Um impedimento, uma dor, uma angústia. Eu não podia fazer nada. Não combinava comigo a poesia da locomotiva. Tinha que ser um outro trem. O tempo corria, corria sobre os trilhos, mas parecia que o trem jamais passaria através do meu corpo para materializar-se no papel.
»


Rita Ferro tem um blogue: Pronome Possessivo. Sejas bem-vinda à tribo!

Francisco José Viegas: «O pior de tudo: a declaração de José Sócrates, aceitando a punição e dando um passo em frente. Ninguém lhe tinha pedido para deixar de fumar. Mas, depois de um “mau exemplo” (do ponto de vista da moral), o “bom exemplo”, porque vai “deixar de fumar”. Mais uma vez, a moral. Não há paciência.»

João Pinto e Castro: «Por isso espero que o pedido de desculpas não proteja o Primeiro-Ministro de sofrer a penalização correspondente à infracção que cometeu, de nada lhe valendo alegar que desconhecia ter agido erradamente. Dito isto, eu gostaria que os media portugueses revelassem um poucochinho mais de sentido de responsabilidade na avaliação dos actos próprios. [...] Há coisas que se admitem no Correio da Manhã ou nos gratuitos, mas não na imprensa que faz gala em ser chamada ‘de referência’.»

Lutz Brückelmann: «Quem me lembrou foi a Sara Monteiro. Ela contou-me que o QeP está bloqueado na Biblioteca Municipal de Faro, por ter conteúdos impróprios para uma biblioteca pública. Não fiquei para aí além surpreendido.»

Mauro Castro: «Lembro que um dia ele [Caio Fernando Abreu, 1948-1996] pegou meu táxi para uma de tantas corridas para o Hospital. Informei-o que havia visto um outdoor com o anúncio de seu último livro. Curioso, ele me pediu que o levasse até lá para dar uma olhada. Lembro que parei na Avenida Silva Só em frente ao enorme painel. Ele ficou observando por algum tempo sem sair do carro. Acho que não gostou do que viu. Depois, sem comentários, pediu que o levasse para o hospital. Foi a última vez que o vi. Dias mais tarde, soube pela imprensa que havia morrido.»

Tomás Vasques: «A agitação mediática, à boa moda das revistas cor-de-rosa, desviou a atenção para o “acto anti-constitucional” de fumar a bordo do avião e para o espantalho dos “custos políticos” em abraçar Hugo Chávez. Talvez esta agitação à volta do acessório signifique que esta deslocação foi bem sucedida.»

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Sábado, Maio 17, 2008

ANA GAIAZ


Na Galeria São Mamede, em Lisboa, pode ver-se uma nova exposição de fotografia de Ana Gaiaz, Prática de 14 Figuras. Ana Gaiaz fotografa sobretudo máscaras, «mas também caras de bonecos tristes, bonecas sofisticadas, outras de expressão perturbada e histérica, tiaras aristocráticas, moldes de rostos adormecidos, calmos nos seus cabelos de arame, mascarilhas venezianas, ou de contornos esqueléticos da morte, monstros, animais fantásticos, plumas, chapéus elegantes e narizes grotescos, caras de espanto ou de indignação.» Como diz Bernardo Pinto de Almeida num dos textos do catálogo, as imagens «flutuam sem fim (e sem princípio) como se por ondas [e] o dispositivo que essa intensíssima circulação gera — também pela sua velocidade e pela sua sedução — é um dispositivo de que se ausenta tudo aquilo que, longamente, fez da fotografia uma antecâmara da arte, um espaço singular capaz de gerar a sua própria história.» Impressas a jacto de tinta sobre alumínio, estas fotografias de Ana Gaiaz dizem o desamparo da condição humana. Ao alto reproduz-se uma delas, Ruivo. Ontem ao fim da tarde, Ana Gaiaz recebeu os amigos com a afabilidade do costume, e foram muitos (entre outros, Isabel Allegro de Magalhães, Manuela e Nuno Júdice, Miguel Veiga, Leonardo Mathias, Eduardo Lourenço e o escultor José Aurélio, sobre cuja obra a autora tem intervindo) os que com ela e Vasco Graça Moura partilharam uma caipirinha de honra.

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Sexta-feira, Maio 16, 2008

DIETA ESCOLAR


Na sua edição de amanhã, o Expresso ocupa-se da dieta escolar em países como a França e o Reino Unido, que contrataram chefs famosos para reformular os menus das cantinas escolares. Entre todos, sirva de exemplo o azougado Jamie Oliver (na foto), que pôs o maralhal cockney a comer filetes de petinga com espuma de soja. Não, não se trata de moda, trata-se de combater a obesidade da população estudantil. Parece que em Portugal há cozinheiros profissionais dispostos a fazer o mesmo, tendo desafiado o ministério da Educação a encarar o problema de frente. OK. Abaixo o macarrão. Sai um confitado de sarrabulho com geleia de alperce.

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Fundo negro


Este é, indubitavelmente, um texto adequado ao percurso artístico do colectivo As Boas Raparigas. Convém esclarecer que não se trata de uma agradável peça de teatro, no sentido pejorativo que Zygmunt Bauman utiliza para se referir à lógica do entretenimento que visa despolitizar a sociedade contemporânea, mas de um espectáculo que interpela o espectador com o necessário grau de violência para o levar a compreender o apelo do direito à diferença que está contido em 4.48 Psicose. O texto de Sarah Kane, traduzido por Pedro Marques, é um doloroso libelo contra a razão como motor exclusivo da vida humana, é a afirmação da incompletude da verdade que a ciência e a ordem procuram estabelecer, porque há uma dimensão interior que escapa a essa tentativa de adestramento. Assim, mais do que com personagens, o espectador que, até domingo, se deslocar ao renovado Estúdio Zero, no Porto, irá confrontar­‑se com vozes, uma feminina, numa interpretação fulgurante de Maria do Céu Ribeiro, seguramente uma das mais notáveis actrizes portuguesas em actividade, e outra masculina, a cargo de Daniel Pinto, que é, na verdade, a conjugação de várias instâncias representativas da incompreensão, quer se trate do amante ou do psicanalista da mulher à beira do suicídio. Com uma cenografia escolhida através de um concurso lançado no blogue da companhia, da responsabilidade de Pedro Novo, o espectáculo encontrou uma encenação eficaz na direcção de Luís Mestre, que possibilita a expansão de sentidos graças às relações que os dois corpos estabelecem com a caixa no centro do palco. À volta, a escuridão parece obedecer a esse propósito beckettiano de fazer aparecer as figuras sobre um fundo negro, onde elas, afinal, se recortariam com mais nitidez. É uma possibilidade em evidente sintonia com as palavras do encenador no desdobrável do espectáculo, quando reconhece que, para si, no teatro, «o mais importante, mais do que o assunto da peça, é a forma», sendo «esse o elemento que mais enfurece aqueles que impõem a censura». A confirmá­‑lo, Luís Mestre lembra ainda que dramaturgos como Beckett, Barker, Pinter ou Bond, grupo a que Kane deve ser associada, «foram criticados, não tanto pelo conteúdo do seu trabalho, mas porque usavam formas não­‑naturalistas que frustram uma interpretação simplista».

ACORDO APROVADO


O Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico foi hoje aprovado na Assembleia da República. Este Protocolo permite que o Acordo entre em vigor desde que ratificado por três dos sete países de língua portuguesa. Portugal junta-se assim ao Brasil, a Cabo Verde e a São Tomé e Príncipe, países que já haviam aprovado o Protocolo em 2004, 2005 e 2006, respectivamente. Votaram a favor o PS, o PSD, o Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS-PP. O PCP e os Verdes abstiveram-se. Paulo Portas e mais dois deputados do CDS-PP também se abstiveram. O deputado Pedro Quartin Graça, do Movimento Partido da Terra (eleito nas listas do PSD), ausentou-se do hemiciclo antes da votação, tal como outros três deputados do PSD: Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra. Votaram contra: Manuel Alegre, do PS; Nuno Melo e António Carlos Monteiro, ambos do CDS-PP; e Luísa Mesquita, deputada expulsa do PCP. Uma vez promulgado pelo Presidente da República, e publicado na folha oficial, tem início o prazo de seis anos para que o seu cumprimento seja obrigatório. Fora do Parlamento, a petição contra o Acordo ultrapassou as 30 mil assinaturas. Os escritores António Lobo Antunes, Gastão Cruz, Luísa Costa Gomes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Miguel Sousa Tavares, Pedro Tamen, Teolinda Gersão e Vasco Graça Moura, bem como os ensaístas Eduardo Lourenço, José Gil, Laura Bulger, Maria Alzira Seixo e Vítor Manuel Aguiar e Silva, estão entre os signatários.

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DORIS LESSING


Hoje no Público:


Independentemente do que possamos pensar a respeito das suas idiossincrasias, o facto é que Doris Lessing (n. 1919) construiu uma obra a que não podemos ficar indiferentes. Livros como Um Casamento Apropriado (1954), The Golden Notebook (1962), The Memoirs of a Survivor (1975) ou o primeiro volume da autobiografia, Under My Skin (1994), no qual descreve os anos em que viveu na Rodésia do Sul (o actual Zimbabue), a saída de África e a dissidência do comunismo, justificam plenamente a aura de que goza. O Nobel mais não fez do que consagrar a persistência desta mulher de 88 anos, que escreveu 70 livros, muitos deles premiados, sem nunca se ter acomodado à sombra do establishment. Logo no primeiro, A Erva Canta (1949), publicado assim que chegou a Inglaterra, dava conta da relação amorosa entre a mulher de um fazendeiro branco e um criado negro, o tipo de história que não ia com o ar do tempo. A partir de então não deixou de surpreender.

Falando dela, é praticamente impossível separar obra e biografia. Os romances contam as peripécias, a autobiografia confirma, os ensaios explicam a deriva ideológica e religiosa. Na vida como nos livros, o desenraizamento é de regra. Nascida no curdistão iraniano, onde o pai estava colocado, foi em criança para a Rodésia do Sul. Naquela antiga colónia britânica viveu durante 25 anos, casou duas vezes, teve três filhos, tornou-se comunista. Só depois de deixar África, abandonando o segundo marido e os dois filhos do primeiro, se fez escritora e feminista. Em 1954 rompeu com o comunismo, e nos anos 1970 aderiu ao sufismo, talvez por influência do filósofo afegão Idries Shah, passando a escrever livros de ficção científica. A saga em cinco volumes Canopus em Argos (1979-1984) é justamente considerada um clássico do género.

A Fenda é uma parábola sobre o poder das mulheres. Não admira que a Academia Sueca tenha realçado o «carácter épico da experiência feminina» na obra de Lessing. O livro abre com um texto onde lemos: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.» A história apoia-se nessa premissa, centrando a intriga numa comunidade de mulheres, as Fendas. Sabemos da sua existência a partir do relato de um patrício romano do tempo de Nero que guarda em sua casa material «acumulado ao longo do tempo, com origem na histórial oral [...] todo ele propondo-se abordar os nossos mais primevos registos...». Não deixa de ser curioso que Lessing dê um ponto de vista masculino a uma história feminista. De acordo com os documentos em poder do narrador, as Fendas geriam por partogénese (ou partenogénese, isto é, a reprodução sem fecundação), e sempre crianças do sexo feminino, até ao dia em que uma delas, contrariando a regra, deu à luz um rapaz, ou seja, um futuro Monstro. Aqui, os homens são Monstros, também conhecidos por Esguichos.

A inclinação de Lessing pelo politicamente incorrecto fica demonstrada no hábito que atribui às Fendas de se desfazerem das crianças com mal-formações: «Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.» O tom mantém-se quase sempre neste registo. A forma como o romance ilustra as relações entre mulheres e homens é idêntica à que se verifica na série de televisão Perdidos entre os sobreviventes do avião e os Outros, sendo certo que Lessing usa esse tipo de polarização para nos convencer da bondade do feminismo.

Estamos longe da força de obras anteriores, como por exemplo os famosos Diários de Jane Somers (1984), recusado em 1983 por todos os editores, incluindo o seu, porque Lessing enviara o original sob pseudónimo... Mas quando finalmente foi publicado, vendeu um milhão de exemplares no mês do lançamento. Reunindo as qualidades e defeitos do estilo incisivo que distingue a escrita de Lessing, A Fenda não é com certeza o livro que recomendaria a um neófito.


A Guerra dos Sexos, in Ípsilon, 16-5-2008, pp. 48-49. Três estrelas e meia.

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Quinta-feira, Maio 15, 2008

CITAÇÃO, 106


Pedro Vieira, eu cá gosto do sobe e desce. Discordâncias ao largo (o Pedro gosta do sobe e desce, eu não), e uma menor exactidão sobre o silêncio dos autores, um grande texto:


«já farta tanta verborreia a propósito da feira do livro, associações de discurso imobilista de um lado, pantagruéis forrados de dinheiro do outro, estes agora também admitidos à mesa das negociações canibalizando assim a associação que os representa, o que não vale um bom chumaço de euros enfiado nas calças, isso que trazes aí é o poder negocial da leya ou estás só contente por me veres, e vão-se sucedendo reuniões, prazos, comunicados, se deles dependesse a imprensa escrita então pobre amazónia, já estava transformada num eucaliptal que suportasse tanto press release, e o povo lisboeta a ver a banda passar, ou melhor, desafinar, lançados à sorte de uns termómetros das nossas vontades que resolveram dizer que não gostamos das barracas, nem do sobe e desce, do ar livre, do parque como ele é, pois eu cá gosto dele, de visitá-lo dias a fio só com o pretexto de procurar uns saldos ou um livro do dia que me console, de beber uma imperialucha sentado numa cadeira de plástico no topo do parque, de ver os últimos jacarandás em flor que ainda valem a pena um vislumbre, e há mais gente que gosta disto, a minha mulher, por exemplo, a sara figueiredo, o zé mário silva, seremos mais aposto, que preferem não deixar o parque entregue ao putedo e ao restaurante eleven, descubram-se as diferenças, diz que um serve melhores perdizes em cama de massa folhada do que o outro, adivinhem vocês qual, dizia, gosto da errância do parque, do ar livre, e dispenso tendas de circo e animo-promos com colunas a bombar em volume indecente, give ears a chance, e por favor não me venham com o graal do espaço fechado e suypostamente digno, sempre prefiro o cheiro a farturas do que o cheiro a alcatifas, tudo muito higienizado e lavadinho, sem planos inclinados que o povo tem medo de torcer o pezinho. já estou a imaginar, um grande pavilhão com ar condicionado, hospedeiras de portugal a massajarem os livros do dia, e tudo cheio de barracas garridas e som centralizado, as odes de píndaro ao som de celine dion, o livro do desassossego embalado pelo bryan adams, um sonho, painéis tácteis, plasmas e eu com saudades da erva e do calor, tenham paciência, de vez em quando lateja-me a veia freak-com-rasta-guizos-e-cães, gosto de lisboa em espaço público, com imperfeições, pois claro, e já agora com uma câmara municipal que não ande com os nervos em frangalhos graças a uma tesouraria arruinada, disposta a alinhar com o clima de guerra civil e dirigida por um presidente que a esta hora já deve estar arrependido de ter saltado do governo, afinal por lá fuma-se onde (não) se pode e a oposição atura-se melhor que estes pseudo-organizadores de “eventos”, a feira do livro não é só um “evento”, caralho, para mim ainda é mais do que isso, tem o tal de interesse público inerente, aquele que a cml quer esquecer dada a ausência dos consagrados quando seria talvez mais importante garantir que o juan rulfo, o bruce holland rogers ou o joão tordo sejam lidos por mais gente, e por falar em autores, onde andam as vozes de quem escreve? dos autores nem um pio, nem sequer desses que constituem o “interesse público”, o que para mim é deveras estranho, botam faladura a propósito da palestina e de israel, da guerra colonial, da história à portuguesa, de distopias e do regime cubano, da amizade com A grande e mitificado, do livro que se escreve a si próprio e de outras falsas modéstias e quanto à feira nem uma palavra, nem um chilreio, em entrevistas adopta-se a postura agarrem-me que me vou embora se não me tratam nas palminhas mas pelos vistos há mais quem concorde com o maravilhoso mundo das alcatifas e das tendas de circo, trapézios onde se possa balançar o ego e rir dos idiotas como eu que lambem os beiços com churros e promoções. dizia o outro que quando quiserem compará-lo com outros arranjem alguém da altura dele. pelos vistos não é preciso subir muito alto.»

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AO LADO


A batalha campal prossegue. Guilherme Valente, da Gradiva, abandonou a UEP e propõe um abaixo-assinado. Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, solidariza-se e reafirma: «Também nós consideramos inaceitável que a CML depois de ter dado a organização da Feira do Livro à APEL, conceda directamente 720 m2 de espaço a um grupo empresarial que nem sequer se inscreveu para participar como todos os outros. Se tal acontecer, a CML estará a avalizar a prepotência, a arrogância e a falta de respeito por todos os editores.» No ínterim, Isaías Gomes Teixeira disse aos media que o grupo Leya vai estar no Parque Eduardo VII porque a Câmara autorizou a sua presença. Ou seja, diz quem acompanha o milando, pode acontecer que a Leya não venha a estar dentro dos exactos limites concessionados à APEL, mas estará seguramente ao lado. Naturalmente, 720 metros quadrados não passam despercebidos.

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Da necessária reinvenção do romance


Não poderia estar mais de acordo com o que a Ana Cristina Leonardo escreveu no final da recensão crítica dedicada a Alfredo ou a Quimera, de Vasco Graça Moura, publicada no Actual do passado fim­‑de­‑semana, quando afirmou que o romance, enquanto género literário, precisa de se reinventar para não morrer. A proliferação de obras que se abrigam sob essa designação, embora depressa se deixem ver como totalmente afastadas de qualquer diálogo com a tradição literária, quer sob a forma de continuidade, quer segundo uma lógica de descontinuidade, é um indício claro da propalada crise do romance, aliás fomentada por uma lógica editorial mais apostada em encarar o livro como mero produto comercial do que como um adequado e feliz suporte da arte literária. Ora, a verdade é que a reinvenção foi uma permanente estratégia, ainda que nem sempre propositada, daqueles títulos que, desde que apareceram pela primeira vez, se impuseram à necessidade de leituras e releituras contínuas. Não é apenas uma questão de se perceber se a dimensão efabulatória deve ser privilegiada ou não, visto que há muitas maneiras de contar uma história, e até de o fazer sem que isso seja muito perceptível, mas é sobretudo um problema de formas que se gastam e cuja renovação equivale a um novo olhar sobre o mundo. É, decerto, por isso que, entre os meus autores preferidos de romances, se contam nomes como os de Giovanni Boccaccio, Rabelais, Bernardim Ribeiro, Cervantes, Sterne, Flaubert, Machado de Assis, Robert Walser, Musil, Kafka, Proust, Joyce, Gombrowicz, Nabokov, Beckett, Cortázar, Claude Simon, Vergílio Ferreira, Thomas Bernhard, Maria Velho da Costa, Danilo Kiš, Péter Esterházy, Sebald, Rubens Figueiredo ou Roberto Bolaño, para só citar alguns. São, sem dúvida, responsáveis por obras bem distintas, mas todas elas aparecem marcadas por uma vontade de reinventar a forma do romance, de colocar em questão um modelo que nunca é dado como adquirido e que, até no interior da produção de um autor, é submetido a transformações de uma ousadia que não pode deixar de seduzir quem considera que a literatura só vale a pena quando está associada ao risco, mesmo que este seja o de soçobrar por completo.

LUGARES SELECTOS


O actual imbróglio entre a Câmara de Lisboa, as associações de editores [APEL e UEP] e o grupo Leya, devia servir para repensar o modelo da Feira do Livro de Lisboa. Repito o que escrevi noutras ocasiões: não faz sentido uma feira ao sol e à chuva, muitas vezes sob nuvens de poeira, sem instações sanitárias, com os livros amontoados em stands decrépitos, roídos pela ferrugem, os autores sentados em plano inclinado, etc. Um evento desta natureza devia realizar-se em recinto coberto, como no Porto, com entradas pagas, sendo o seu valor descontado no pagamento dos livros adquiridos. A FIL, no Parque das Nações, seria uma boa opção. Isto dito, a conflito à volta do barracão que a Leya pretende instalar — parece que com 720 metros quadrados —, para abrigar a dúzia de editoras que comprou, não tem razão de ser. Primeiro, porque em anos anteriores o barracão colectivo dos editores independentes sempre coexistiu com os stands individuais. E nunca vi nenhuma associação queixar-se do barracão dos pobrezinhos. Agora que os ricos querem ter um, cai o Carmo e a Trindade. OK. Entretanto, lembrar aos distraídos que não é por haver (ou não) hiper-barracões que a Feira se isenta de lugares selectos: o modelo actual reserva a melhor localização aos editores mais influentes. Ou é mera coincidência?

Adenda: Pessoa amiga, conhecedora do processo, esclarece-me que o grupo Leya não pretende instalar um barracão para abrigar as suas marcas: Asa, Caminho, Dom Quixote e mais oito ou nove. Na verdade, o grupo Leya pretende agrupar os seus stands (um por cada marca, presumo) num espaço comum, o qual dará origem a uma praça, com imagem própria, bem vincada, uma vez que esses stands foram desenhados por um conhecido arquitecto. Fica feita a rectificação.

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CITAÇÃO, 105


Constança Cunha e Sá, Impunidades, hoje no Público. Breves extractos:


«Três anos depois de o Governo ter tomado posse, o Público “descobriu” que o primeiro-ministro fumava nos aviões fretados para as suas viagens oficiais. Numa feliz coincidência, o Público “descobriu” também, no mesmo dia, que, nesta sensível matéria, nem o Presidente da República estava isento de responsabilidades: embora não seja um miserável viciado, incapaz de resistir às garras da dependência, o prof. Cavaco Silva parece não se importar com o cigarro alheio, permitindo que este circule impunemente à sua volta, durante os voos oficiais em que participa. [...]

Confesso que, num primeiro momento, me escapa a oportunidade desta última e decisiva “descoberta”. Se os jornalistas do Público, contactados pelo Público, tinham conhecimento do que se passava — e, pelos vistos, tinham —, não se percebe por que é que só agora resolveram denunciar os factos que, desde há dois anos, poluem as viagens presidenciais. Seria de esperar que, dada a sua importância, estes tivessem sido revelados, na altura própria, com o devido destaque — e não que aparecessem, esta semana, em diferido, a reboque dos cigarros do eng. Sócrates e da fatídica cortina atrás da qual ele supostamente se escondeu.

[...] A “descoberta” do Público não deixa de pôr em xeque os próprios jornalistas, nomeadamente aqueles que costumam acompanhar as visitas oficiais do primeiro-ministro. Há muito tempo que é sabido, nas redacções, que o eng. Sócrates costuma fumar durante os voos oficiais: quase sempre na parte de trás do avião, junto dos jornalistas que, em muitos casos, partilham o mesmo vício. Para que não haja qualquer equívoco, devo dizer que eu, embora nunca tenha viajado com o primeiro-ministro, sempre tive conhecimento deste hábito. Devia tê-lo denunciado? Admito que sim. Se calhar deixei-me “enlaçar” por essa “relassa fraqueza” que “nos enche de culpada indulgência uns para os outros”. Mas confesso que tenho algumas dúvidas. Em qualquer caso e já que a história ganhou dimensão pública, penso que todos temos obrigação de nos confrontar com as nossas próprias responsabilidades.»

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Quarta-feira, Maio 14, 2008

INTERESSE PÚBLICO


O imbróglio da Feira do Livro de Lisboa atingiu o paroxismo. Primeiro, a gente lê este comunicado e fica com azia. Ninguém explica aos burocratas da Câmara de Lisboa que um comunicado com mais de dez linhas perde eficácia? Depois, vem a cereja em cima do bolo: «[...] Mostrando-se intransigente em relação aos pavilhões da Leya, que representa autores como Lobo Antunes, Lídia Jorge e Saramago, a APEL corre o risco de perder o subsídio camarário: a autarquia pode vir a invocar a perda de interesse público do evento, por via da possível ausência destes autores.» Muito curiosa esta noção de interesse público.

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CITAÇÃO, 104


Rui Ramos, A redução de Obama, hoje no Público. Extractos:


«Barack Obama parece finalmente às portas da nomeação. Mas o homem que está a chegar à meta não é o mesmo que vimos à partida. Devia ter ganho com entusiasmo — e vai ganhar matematicamente. Não devia haver a mínima dúvida acerca da sua vitória sobre um crente da guerra no Iraque — e há. Nada o impede de ascender muito alto. Mas já percebemos que quanto mais subir, mais pequeno há-de parecer.

A receita de Obama é velha. Lembra, aliás, a de Ségolène Royal o ano passado. Obama aproveitou o facto de não ser a primeira escolha da
“elite” para se fazer passar como a preferência das “bases”. Apostou na “dinâmica”, no “élan”, mais do que em propostas. Esperou que o circo mediático à sua volta arrastasse gente desejosa de “participar”. Conseguiu assim contornar debates, sem que no fundo ninguém soubesse bem o que significava. Bastou-lhe ser simpático e eloquente. [...] O candidato supostamente “pós-racial” aconselhou-se, durante 20 anos, com um pastor racista. O candidato “pós-partidário” tem, no Senado, um cadastro de votos que faz dele o mais esquerdista de todos os senadores. É esta, então, a verdade de Obama, segundo reclamam os conservadores: um possesso com cara simpática? [...]

[...] E a verdade é que Obama não conseguiu ultrapassar Clinton nos estados em que um candidato democrata precisa vencer para ser eleito presidente. Subitamente, Obama fez sentir aos democratas que a derrota é possível.

Mas Obama pode ganhar. E por isso, o pior, para o obamismo, talvez venha a seguir. O grande terror dos democratas é ver Bush a jogar o jogo de Lyndon Johnson no tempo do Vietname: assegurar que a guerra do Iraque não será oficialmente perdida por ele. No Senado, no princípio de Abril, o comandante (Petraeus) e o embaixador (Crocker) no Iraque desaconselharam retiradas de tropas depois do Verão. Mais grave: o general e o embaixador, como lamentou um exasperado senador Obama, escusaram-se a definir quais as condições em que aceitariam extrair mais soldados. Na prática, isto significa que uma eventual retracção militar americana será da inteira responsabilidade do novo presidente, que nem sequer poderá justificar a sua decisão invocando critérios estabelecidos anteriormente.

Obama deve saber o que o espera: qualquer saída que a Al-Jazira possa encenar como uma fuga humilhante habilitará os republicanos a marcá-lo com a frouxidão de Jimmy Carter.
[...] O pior, para aqueles que acreditaram no obamismo como uma “coisa nova”, não é se ele perde: é se ele ganha, porque se a vitória em Novembro vier a ser dele, a derrota pode vir a ser deles.»

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A MATÉRIA DO POEMA


Há doze anos, escrevendo sobre O Movimento do Mundo (1996), citei T. S. Eliot: «A palavra tem, e continuará a ter, vários significados em vários contextos». Faço-o de novo, agora que Nuno Júdice (n. 1949) publica A matéria do poema, por me parecer que o juízo de Eliot, na sua aparente redundância, define com clareza o sentido de uma obra que desde A Noção de Poema (1972) não parou de nos surpreender, sem, contudo, se afastar do propósito original. Neste mais recente livro, o grão da voz sobreleva (mas não rasura) a música dos versos. Fica um exemplo:


Gramática: O Verbo

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir
.

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Terça-feira, Maio 13, 2008

RAUSCHENBERG 1925-2008


Com a morte, ontem, de Robert Rauschenberg, a pop art não voltará a ser a mesma.

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OBVIAMENTE?


Fustigada por uma avalanche de críticas, dentro e fora do partido, Manuela Fereira Leite declarou à Lusa: «O doutor Santana Lopes deve ser a única pessoa do país que tem dúvidas se eu algum dia não votei no PSD. Toda a minha vida votei no PSD.» Ora se isto é assim tão lapalisseano, e se Manuela Ferreira Leite queria vincar distância face a Santana, talvez devesse ter dito, quando perguntada pelo Jornal de Notícias se tinha votado nele em 2005, “Eu voto PSD”. Ou seja, valorizando o voto a benefício do PSD, a despeito do líder. Aquele «obviamente não lhe respondo» não fica nada bem a quem promete falar sempre a verdade e só a verdade. Nos anos 1970, quando muita gente ainda interiorizava recalques antigos, é que alguns invocavam o secretismo do voto para não terem de dizer (no café ou emprego) se o tinham feito à esquerda ou à direita. Mas Manuela Fereira Leite não pode usar esse tipo de argumento. No limite, teria sido preferível um desassombrado “Dadas as circunstâncias, votei em branco”. A emenda foi pior que o soneto.

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Segunda-feira, Maio 12, 2008

LE MAGNOLIA


Por falar em capas, é bem sugestiva esta da edição francesa — acabada de publicar por La Différence, em tradução de Cécile Lombard — de Por Detrás da Magnólia, o romance de Vasco Graça Moura que em 2004 recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Dos sete romances que o autor publicou, este é o meu preferido.

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BLOGA


O Jorge Reis-Sá tem um novo blogue, Rua da Castela, que vai dar particular atenção aos assuntos do mundo editorial. Para já, enfoque no imbróglio Leya vs Feiras do Livro de Lisboa e Porto, contrapondo-o à postura de Paulo Teixeira Pinto enquanto editor. A seguir com atenção.

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VERGÍLIO REEDITADO


Não quero ser espírito de contradição, e menos o seria com um amigo, mas, concordando embora que as capas antigas tinham um bonito layout, discordo das reservas do João Paulo (ver post anterior) às capas escolhidas para a reedição da obra de Vergílio Ferreira. Como se pode ver ao alto, o grafismo actual parece-me bastante conseguido, até porque o autor é dos que sai bem em fotografia.

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Domingo, Maio 11, 2008

Capas


Não será ainda o desastre total, mas a capa que a Bertrand ofereceu à reedição dos Contos, de Vergílio Ferreira, que chegou por estes dias às livrarias, é bem feia e desnecessária. Eles não o entenderão assim, ou não teriam abandonado aquele modelo constituído apenas pelo nome do autor, pelo título do livro e pelo logótipo da editora, um modelo que remonta a 1974, à primeira edição de Rápida, a Sombra, que a extinta Arcádia, então dirigida por Nelson de Matos, lançou. Quando Vergílio passou para a Bertrand, aquele tipo de capas seguiu­‑o, por muitos e bons anos, mantendo­‑se mesmo quando a editora procedeu a diversas transformações no grafismo dos outros livros que ia lançando. Agora, parece que chegou o fim desse modelo, sem ganhos visíveis, mas talvez o pior ainda esteja para vir.

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Quando se fala de Pessoa, é raro referir o único livro em língua portuguesa que o poeta publicou em vida — Mensagem (1934). Com ele concorreu ao Prémio Antero de Quental, patrocinado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, classificando-se na “segunda categoria” (o vencedor é um ilustre desconhecido). Sobre outras que conheço, a presente edição tem a vantagem do aparato crítico, da responsabilidade de António Apolinário Lourenço, professor de literatura espanhola da Universidade de Coimbra. Acerca da estrutura formal e simbólica da obra, Lourenço sublinha, na esteira de outros estudiosos, o seu carácter tripartido: [i] fundação da nacionalidade, [ii] dinastia de Avis, [iii] decadência da Pátria. As quarenta páginas da introdução ajudam a contextualizar a génese deste poema profético e utópico — esteve para chamar-se Portugal — que faz a síntese das teses de Oliveira Martins com a corrente messiânico-sebástica do pensamento português. Uma das vantagens do domínio público (como acontece com as obras de Pessoa desde 2005) é justamente permitir a diferentes editores uma abordagem particularizada da obra. Esta de António Apolinário Lourenço, para a Angelus Novus — inserida na colecção Biblioteca Lusitana, onde encontramos também uma criteriosa edição de Menina e Moça ou Saudades, de Bernardim Ribeiro, da responsabilidade de Juan M. Carrasco González —, merece todos os encómios.


O Mar Salgado completou cinco anos no passado dia 8. Parabéns à equipa, em particular a Filipe Nunes Vicente e Nuno Mota Pinto.

Filipe Nunes Vicente: «Agora que Israel já não está no Líbano, não há imagens de ambulâncias atacadas, de meninos trucidados, de famílias sob escombros. Meteram férias, os repórteres humanistas»

Henrique Fialho: «Eis senão quando a rubrica do Vasco começa. No canto superior direito do ecrã, uma caricatura do próprio. A apresentadora Manuela (ou alguém parecido com ela) lia os textos, intercalados com imagens das personagens visadas. Do Vasco, ah! Valente, nem miragem. Resta uma hipótese, não sei se já aflorada, mas plausível. Quem apresentou o Jornal da Noite não foi a Manuela Moura Guedes, foi o próprio Vasco travestido de Manuela.»

José Pacheco Pereira: «Na verdade, o país fecha com o telejornal da noite para tudo o que não sejam irrelevâncias e, a partir daí, pouco mais do que repetições [...] uma gala, ou um jogo de futebol.»

Luís Mourão: «O pensamento (em filosofia, mas não só) vale verdadeiramente a pena a partir deste caminho de solidão. Porque mais do que concordância ou discordância, o que o pensamento nos pede é esta solidão do próprio, o que cada um tem condições de dizer por si próprio.»

Pedro Vieira: «parece que o bob geldof não curte do mantorras.»

Rogério da Costa Pereira: «Ou seja, o Vasco não aparece na rubrica do Vasco. Escreve os comentários e manda-os para a Manela. Antes de cada comentário passa o tal sketch alusivo, e eis-nos, então, perante a imagem da Manela a declamar Vasco. Coloca a voz, entoa a ironia, se calha, e eis-nos o Vasco lido pela Manela. Nunca vi nada assim.»

Tiago Barbosa Ribeiro: «Afinal, 1h30 depois do começo do telejornal, Vasco Pulido Valente não apareceu. O “comentário da semana” é na realidade a teatralização performativa de Manuela Moura Guedes sobre textos escritos por Pulido Valente. Uma “instalação”, como diriam os pós-modernos que ainda restam. Que coisa confrangedora.»

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Sábado, Maio 10, 2008

MMG VS VPV


Dizem-me que Manuela Moura Guedes voltou a apresentar o Jornal Nacional (TVI) e que passou o tempo a prometer comentários de Vasco Pulido Valente sobre temas da semana. A própria estação teria emitido spots publicitários com a imagem do historiador em sua casa. E que ao fim de 90 minutos Manuela Moura Guedes se despediu. A Vasco Pulido Valente ninguém o viu (a não ser nos tais spots) ou ouviu. Parece que os últimos cinco minutos de teleponto eram de sua (dele) autoria. Mas, são ecos que me chegam, lidos como foram até podiam ser do Vilhena. Se as coisas se passaram assim (não vi), deve haver algures um provedor do telespectador a quem recorrer. De qualquer modo, insisto, se as coisas se passaram assim, da próxima vez que MMG anunciar um comentador, seja ele qual for, as pessoas já sabem com o que contam.

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Sexta-feira, Maio 09, 2008

ÍPSILON SOIXANTE-HUITARD


No Maio dos 40 anos tinha de ser. O Ípsilon ocupa-se hoje da literatura jubilatória de 68. Grande parte da bibliografia mais recente é passada a pente fino. Três títulos já traduzidos: O Maio de 68 explicado a Nicolas Sarkozy, de André e Raphael Glucksmann, o pai e o filho que vemos ao alto (ed. Guerra & Paz, trad. Rui Santana Brito), recenseado por Miguel Gaspar; O Poder e os Idealistas, de Paul Berman (ed. Alêtheia, trad. Raquel Vaz Pinto) e Guy Debord, de Anselm Jappe (ed. Antígona, trad. Iraci D. Poleti e Carla da Silva Pereira), recenseados ambos por Paulo Moura. Originais franceses são quatro: Forget 68, de Daniel Cohn-Bendit (ed. L’Aube), Mai 68: une histoire du movement, de Laurent Joffrin (ed. Seuil) e Mai 68: l’héritage impossible, de Jean-Pierre Le Goff (ed. La Découverte), recenseados os três por Miguel Gaspar, e ainda o indispensável Dictionnaire de Mai 68, organizado por Jacques Capdevielle e Henri Rey (ed. Larousse), recenseado por Clara Viana. Não será por falta de sugestões que a geração soixante-huitard fica aos papéis.

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O LEÃO ACORDOU


Na sua edição de amanhã, o Expresso faz um tour d’horizon sobre a expansão da economia chinesa. Afinal de contas, a China ocupa o segundo lugar na lista dos maiores exportadores do mundo, é o terceiro importador (só da União Europeia, importou em 2007 artigos no valor de 48 mil milhões de euros), e aproveita a baixa do dólar para comprar ainda mais empresas americanas. Tudo isto à margem do respeito pelos direitos humanos, item em que está muito bem acompanhada: países do Médio Oriente, monarquias do Golfo, Coreia do Norte, Rússia, Cuba, Zimbabué, etc. O que a distingue é mesmo a força da economia. Até num país periférico como o nosso: vinte mil chineses legalizados, cinco mil estabelecimentos comerciais (com horário alargado, sete dias por semana), quatrocentos restaurantes. Caso para perguntar: ao ponto a que as coisas chegaram, podemos sobreviver sem produtos chineses? Talvez possamos, mas não queremos.

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Quinta-feira, Maio 08, 2008

MUSEU DO ORIENTE


É inaugurado daqui a pouco o Museu do Oriente, sob direcção de Natália Correia Guedes. Instalado no antigo armazém frigorífico da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, dispõe de um acervo de 13 mil peças, das quais estão para já expostas 970. O edifício original, da autoria de João Simões, remonta aos anos 1930, tendo sido agora renovado por Carrilho da Graça. Nesta reencarnação, que custou cerca de 30 milhões de euros (só a adaptação a museu), em vez de bacalhau, o antigo armazém vai abrigar colecções de arte oriental. Uma das peças mais interessantes é o pagode em osso e marfim que o Real Senado de Macau ofereceu a D. Maria I quando a família real portuguesa foi para o Brasil. A colecção Kwok On, doada à Fundação Oriente pelo sinólogo francês Jacques Pimpaneau, constitui outro dos atractivos, a par dos dois Budas que Joe Berardo emprestou. Podem ainda ver-se os famosos frascos de rapé de fabrico chinês do escritor Manuel Teixeira-Gomes, bem como a colecção do poeta Camilo Pessanha, que vieram do Museu Machado de Castro, de Coimbra. Outros museus e entidades que emprestaram peças são o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu da Ciência, o Museu do Traje, o Palácio Nacional de Sintra e a Fundação Casa de Bragança. Ciclos de música e cinema vão ter lugar no auditório do museu (com 360 lugares), já a partir de amanhã. O pianista Mário Laginha é o primeiro artista convidado.

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ERRO DE CASTING


Se dúvidas houvesse de que a escolha de Ana Jorge para ministra da Saúde foi um erro, essas dúvidas ficaram ontem desfeitas na audição parlamentar pedida pelo Partido Comunista. A reticências de Ana Jorge aos acordos da ADSE — subsistema tutelado pelo ministério das Finanças — com unidades privadas, representam todo um programa. Em vez de sugerir aos deputados audições a Teixeira dos Santos, a senhora ministra devia ter-lhes dito que os beneficiários da ADSE, para beneficiar dela, pagam. Enquanto a generalidade dos trabalhadores desconta para ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde, os funcionários públicos fazem esse desconto e ainda outro para a ADSE. Os aposentados até descontam 14 vezes por ano, uma vez que (no seu caso) o desconto incide igualmente nos subsídios de férias e de Natal. Num país com 700 mil funcionários públicos, acaso passou pela cabeça da ministra o que seria toda essa gente a entupir os hospitais públicos? Estamos a falar de um universo superior a um milhão de pessoas, porquanto aos 700 mil funcionários públicos há que acrescentar os descendentes menores e os que, não sendo menores, mas estando matriculados no ensino superior ou politécnico, mantêm o usufruto da ADSE até completar 25 anos. No dia em que a ADSE deixar de ter acordos com unidades privadas, terão de cessar os respectivos descontos. Em que ficamos?

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Apresentação


Será apresentado amanhã, sexta­‑feira, 9 de Maio, pelas 21:00h, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, de Matosinhos, o volume colectivo Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas, editado pela Deriva. O livro é o resultado do ciclo de palestras que decorreu no mesmo lugar, no dia 11 de Outubro do ano transacto, em que tive o prazer de participar (com um ensaio sobre o poema em prosa na obra de Luís Quintais), a par de Marinela Freitas, Mariana Leite, Catarina Nunes de Almeida, Miguel Ramalhete Gomes, Raquel Ribeiro, Margarida Gil dos Reis, Helena Lopes, Joana Matos Frias, José Ricardo Nunes, Andréia Azevedo Soares e Daniel Jonas. Coordenado por Pedro Eiras, também responsável pela concepção do encontro, o volume reúne os textos que então foram dados a conhecer, agora eventualmente revistos a partir dos debates que nesse dia se geraram. Configura­‑se, assim, um desenho multifacetado da nossa mais aguda contemporaneidade poética, cuja apresentação estará a cargo da ensaísta e professora universitária Rosa Maria Martelo.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

CRIMINOSOS, DIZ ELE


«As casas mais ricas do mundo estão [a ser construídas] na baía de Luanda, são mais caras do que em Chelsea e Park Lane», afirmou Bob Geldof, ontem à tarde, perante os 250 convidados (académicos, banqueiros, diplomatas, políticos, jornalistas, etc.) de uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, realizada no Hotel Pestana Palace, com o patrocínio do Banco Espírito Santo e do Expresso. A parte do imobiliário não comoveu a selecta assistência. O pior foi quando disse, preto no branco, que Angola é hoje um país governado por criminosos — o embaixador de Angola estava presente, e já protestou formalmente —, e que a intolerância dos europeus nas relações comerciais com os países de África, longe de contribuir para um desenvolvimento sustentado, reflecte estupidez. É o que se chama um balde de água fria. Da próxima vez que quiser impressionar os metecos, o BES deve convidar a Catarina Furtado.

Adenda. Como se pode ler aqui, a LUSA corrigiu a notícia. Afinal, o embaixador de Angola não assistiu à conferência.

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Terça-feira, Maio 06, 2008

O SENHOR QUE SE SEGUE


Ontem, Alípio Ribeiro deu uma entrevista ao Diário Económico que deixou as polícias em transe. Hoje bateu com a porta. A esta hora já se sabe que vai ser substituído por Almeida Ribeiro, antigo n.º 2 de Santos Cabral, que vem outra vez de Coimbra. O que fez afinal o ainda Director Nacional da Polícia Judiciária? Deu duas entrevistas inconvenientes. A primeira, aqui há tempos, reconhecendo com desassombro ter havido precipitação no tratamento dado ao caso Maddie McCann. Na de ontem, sugerindo mudança de tutela da Polícia Judiciária, da Justiça para a Administração Interna, uma ideia sensata, com a qual imensa gente está de acordo, mas que provocou ondas de choque inesperadas. O argumento da excessiva mediatização do cargo é que me parece escusado.

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O refugo da modernidade


Publicado pela Relógio d'Água no final de 2007, Modernidade e Ambivalência (Modernity and Ambivalence, 1991), de Zygmunt Bauman, em tradução de Marcus Penchel revista para português europeu por Joana Espírito Santo, é um dos títulos mais importantes no domínio do ensaísmo que apareceram entre nós no ano transacto. Embora resultante, em grande medida, de material proveniente de artigos e críticas que surgiram em diversas publicações, não se perde a unidade do conjunto nem a sequência lógica das ideias. A questão central é colocada logo nas primeiras páginas, na introdução, e pode ser sintetizada na afirmação de que a ambivalência é inerente à linguagem enquanto acto classificatório. O autor de Confiança e Medo na Cidade recorda essa pretensão da nomeação que é a distribuição de posições, a atribuição de uma estrutura, para, logo de seguida, evidenciar a impossibilidade humana de manter essa organização como uma entidade fixa, imutável, à qual nada escaparia e que, por isso mesmo, teria uma ambição totalizadora. Ao nomear algo, o sujeito procede automaticamente a uma divisão entre aquilo que cabe dentro da classe instituída e tudo o que fica no exterior; ora, é o acto de resistência que consiste em não se deixar enquadrar nas classes definidas que faz nascer a ambivalência, a qual, por seu turno, obriga a um novo esforço de classificação. Nas palavras do ensaísta, «a ambivalência só pode ser combatida por uma nomeação ainda mais exacta e classes definidas de modo mais preciso ainda; isto é, com operações tais que farão reclamações ainda mais exigentes (contrafactuais) à descontinuidade e transparência do mundo e dando assim mais lugar à ambiguidade» (p. 15).
Transferir a questão para o período histórico a que se convencionou atribuir a designação de modernidade é acertadíssimo, por ser esse um tempo especialmente marcado pela vontade de organizar, de impor uma ordem, como é fácil de confirmar em vários domínios (o que leva Bauman a considerar a grelha como o seu tropo predominante e Mondrian como o seu artista visual mais representativo). Esclarecendo problemas metodológicos sobre o que possa ser a modernidade, para evitar os equívocos que são, afinal, um dos seus objectos de análise, Bauman invoca o célebre Faces of Modernity (posteriormente aumentado para Five Faces of Modernity, de que há uma edição portuguesa, lançada pela Vega em 1999), de Matei Calinescu, onde é defendida a existência de duas modernidades distintas, a saber, a burguesa, apresentada como uma fase da história da civilização ocidental, e a estética, que reage contra o entusiasmo positivista da primeira e se empenha em expor a negatividade do mundo. Esta será, em comparação com a primeira, equivalente à ambivalência na sua relação disfórica com a linguagem, uma vez que se esforça por demonstrar a impossibilidade humana de encontrar a ordem perfeita a que aquela aspira. Assim, a «prática tipicamente moderna, a substância da política moderna, do intelecto moderno, da vida moderna, é o esforço para exterminar a ambivalência: um esforço para definir com precisão – e suprimir ou eliminar tudo o que não pudesse ser ou não fosse precisamente definido» (p. 19).
A partir daqui, é fácil compreender como a fragmentação do mundo pode ser uma vitória da modernidade, visto que é precisamente essa sua característica que reduz a dificuldade em controlá­‑lo. Quanto maior for a autonomia das partes, maior será também a possibilidade de circunscrever os problemas e, em consequência, de os afrontar, isto é, de os submeter a uma determinada ordem. A ambivalência, porém, trabalha no silêncio, e, como afirma o autor, a «maioria dos problemas que hoje enfrentam os administradores das ordens locais é produto da actividade para resolução de problemas» (p. 25).
Se esta é uma ideia fundamental para se compreender o nosso tempo, não menos importante é o raciocínio que Bauman desenvolve ao longo do livro, que serve para demonstrar, com recurso a situações muito distintas, como a modernidade sempre se caracterizou pela busca incessante de uma ordem exclusiva (por definição) e como essa tarefa de classificação nunca deixou de constituir um absoluto inalcançável. Nessa óptica, o ensaísta pode apresentar o nazismo e o Holocausto, não como o reverso da modernidade ou a erupção de forças arcaicas, mas como o estado extremo de uma civilização que tudo pretende catalogar e ordenar. Ao ler a parte dedicada à identificação do Estado moderno como um Estado jardineiro, empenhado em eliminar as ervas daninhas e impor canteiros de contornos precisos, onde nenhuma surpresa seja possível, tive a impressão de revisitar algumas páginas do meu romance Os Enganos da Alma, onde há precisamente uma personagem que se ocupa de um jardim e está obcecada pela vontade de o estruturar de forma geométrica, para impedir, pela inibição, as visitas de estranhos, chegando mesmo a propor uma «solução final» para a organização estética daquele espaço verde.
Para Zygmunt Bauman, o judeu torna­‑se, assim, a expressão mais notória da ambivalência com que a modernidade teve de se confrontar. Entre as situações colectivas dos judeus alemães e as individuais de autores como Freud, Kafka ou Georg Simmel, o ensaísta demonstra como a tentativa de assimilação resulta sempre num fracasso e num desenraizamento mais intenso do que poderia existir à partida; aquele que tenta abandonar uma comunidade para ser assimilado por outra nunca consegue apagar a marca da origem e, por isso, permanece para sempre numa espécie de limbo, numa ponte, sem pertencer