terça-feira, abril 21, 2015

A VER VAMOS


O documento que António Costa apresentou hoje, Uma Década para Portugal, tem 95 páginas e não estive de lápis na mão a sublinhar. Em todo o caso, retive:

1. A intenção de eliminar a sobretaxa do IRS.
2. A intenção de repor os salários da Função Pública até 2017.
3. A intenção de aumentar os abonos de família.
4. A intenção de aumentar os apoios às famílias monoparentais.
5. A intenção de abolir o quociente familiar.
6. A intenção de reduzir o IVA da restauração para 13%.
7. A intenção de reduzir a TSU dos trabalhadores para 9,5% em 2016 / para 8% em 2017 / e para 7% em 2018.
8. A intenção de aumentar a TSU dos trabalhadores a partir de 2019, à razão de 0,5% por ano, para trabalhadores com menos de 60 anos de idade, cuja taxa contributiva corresponda ao escalão máximo.
9. A intenção de, a partir de 2021, ajustar as pensões de reforma a novas regras, que serão aplicadas a partir de 2027. A medida exclui os actuais pensionistas.
10. A intenção de agilizar a execução dos fundos comunitários, reforçando os níveis de investimento entre 2016-19.
11. A intenção de limitar os contratos a prazo.

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A BULA DOS DOZE


É hoje que António Costa apresenta o programa económico de um futuro Governo liderado pelo PS. O documento é o resultado de seis meses de trabalho de um grupo constituído por Mário Centeno, economista, assessor especial da Administração do Banco de Portugal (o homem que, tendo ganho o concurso, foi vetado para economista-chefe do BdP por criticar publicamente a política económica do actual Governo); Elisa Ferreira, economista, eurodeputada, antiga ministra do Ambiente e do Planeamento; Fernando Rocha Andrade, professor de Finanças Públicas da Universidade de Coimbra; Francisca Guedes de Oliveira, professora de Economia Pública da Universidade Católica do Porto; João Galamba, economista, deputado, dirigente nacional do PS; João Leão, economista, antigo director-geral do Gabinete de Estratégia e Estudos do ministério da Economia; João Nuno Mendes, economista, quadro superior da Galp Energia; Manuel Caldeira Cabral, professor de Economia e Gestão da Universidade do Minho; Paulo Trigo Pereira, professor catedrático de Economia do ISEG; Sérgio de Ávila, economista, vice-presidente do Governo Regional dos Açores; Vieira da Silva, deputado, autor da reforma da Segurança Social de 2006, antigo ministro do Trabalho; e Vítor Escária, professor de Economia Aplicada e Métodos do ISEG. A ver vamos.

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segunda-feira, abril 20, 2015

APOCALIPSE


Não podemos continuar a fingir que não vemos. O naufrágio da madrugada de domingo, a 70 milhas da costa líbia, foi uma tragédia de proporções dantescas. Serem 700 os ocupantes da embarcação naufragada, como diz a generalidade da imprensa, ou 950 (número que inclui duzentas mulheres e cinquenta crianças), como garantem os 28 sobreviventes, pouco muda. Se tivesse caído um avião com uma dúzia de estudantes Erasmus, louros e de olho azul, a Europa entrava em transe. A Itália não pode arcar sozinha com um problema que é de todos nós.

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domingo, abril 19, 2015

TRANQUIBÉRNIA


Por 2,6 mil milhões de euros, a TAP encomendou doze novos aviões Airbus A350-900, os quais, se nada de extraordinário acontecer, começam a ser entregues em 2017. Segundo Fernando Pinto, presidente da TAP, a encomenda teria sido uma pechincha, declarando à SIC: «Os aviões novos estão adquiridos, esses aviões têm um valor muito mais alto no mercado do que foi pago, foram valorizados... muitas vezes, uma forma de fazer a sustentação da empresa é ir buscar essas mais-valias que já se conseguiram.» Nesta linha de raciocínio, se a privatização falhar, propõe-se vender os aparelhos. Propõe-se vender o que ainda não tem na sua posse. Adiante.

Enquanto isso, no Parlamento, reagindo à anunciada greve (mais uma) dos pilotos da TAP, o primeiro-ministro declarou não estar excluída a possibilidade de despedimento colectivo e venda da frota.

Comentários para quê?

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sexta-feira, abril 17, 2015

POR MINUTO


Vinte e sete mil euros por minuto foi quanto perdeu o Grupo Espírito Santo entre Abril e Junho de 2014. Por minuto. É uma das revelações do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito ao colapso do império de Ricardo Salgado. O documento, que tem 380 páginas, teve como relator Pedro Saraiva, deputado do PSD. Lembrar: no momento em que, a cada minuto, 27 mil euros iam pelo cano, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o governador do Banco de Portugal exortavam o bom povo a investir no BES. Pode ler aqui o relatório da Assembleia da República.

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quinta-feira, abril 16, 2015

JUDITH TEIXEIRA


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesia e Prosa, de Judith Teixeira (1880-1959). Relativamente à edição que Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar fizeram em 1996, para a &etc, este novo volume organizado por Cláudia Pazos Alonso, professora na Universidade de Oxford, e Fabio Mario da Silva, acrescenta «cerca de vinte poemas inéditos [e] uma conferência», não datada, na qual a autora reitera o seu desacerto com a moral burguesa, como fizera em 1926 ao proferir a conferência De Mim. Vítima, com António Botto e Raul Leal, do auto-de-fé promovido em 1923 pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, com caução de Pedro Teotónio Pereira e Marcello Caetano («uma desavergonhada»), Judith Teixeira, figura proeminente do Modernismo português, tornou-se o «bode expiatório para a desordem social» no momento em que ousou verbalizar o amor lésbico. Aceites hoje como parte do cânone literário, livros como Decadência, Castelo de Sombras, ambos de 1923, Nua. Poemas de Bizâncio (1926) ou as novelas de Satânia (1927), continuam largamente desconhecidos. Daí a importância de os reeditar. A fechar: é lamentável que 1888 seja indicado como ano de nascimento da autora. A data correcta é 1880.

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quarta-feira, abril 15, 2015

PERCY SLEDGE 1940-2015


Percy Sledge morreu ontem, com 74 anos. Pensar que When a Man Loves a Woman fez parte do património da minha adolescência laurentina.

[Imagem: foto de Mark Peterson. Clique.] 

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segunda-feira, abril 13, 2015

GÜNTER GRASS 1927-2015


Morreu hoje Günter Grass, escritor e artista plástico alemão, Nobel da Literatura em 1999. No Verão de 2006, a publicação da sua autobiografia, Descascando a Cebola, provocou enorme celeuma: o autor revelava a sua colaboração, durante a Segunda Guerra Mundial, com as Waffen-SS, a tropa de elite nazi. Tinha 17 anos quando tal aconteceu, e teria sido alistado contra-vontade, mas grande parte da opinião pública considerou a revelação tardia, tanto mais que Grass nunca se coibiu de questionar o comportamento de terceiros durante o III Reich. Por que motivo levou tanto tempo a contar a sua história? Evidentemente, nada disto retira grandeza à obra literária. Die Blechtrommel / O Tambor (1959), primeiro volume da Trilogia de Danzig, provavelmente o seu romance mais conhecido, ganhou dimensão planetária a partir do filme que Volker Schlöndorff fez em 1979.

No Algarve, onde tinha uma casa e passava largas temporadas, escreveu parte do diário Em Viagem, relato dos seus pontos de vista sobre a reunificação alemã. Além de romances, escreveu poesia (uma dezena de colectâneas), ensaio e peças de teatro. Tinha 87 anos quando a morte o surpreendeu em Lübeck.

[Imagem: foto de Bernardo Pérez. Clique.]

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HILLARY 2016


Acabou o tabu  —  «Everyday Americans need a champion. And I want to be that champion. So I’m hitting the road to earn your vote — because it’s your time. And I hope you’ll join me on this journey

[Imagem: foto de Mike Segar. Clique.]

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domingo, abril 12, 2015

DOM QUIXOTE


Os muito novos não sabem, alguns dos menos novos não se lembram, mas a Dom Quixote foi fundada na Primavera de 1965 por Snu Abecassis, a dinamarquesa que desafiou a Pide ao trazer a Portugal o poeta russo Yevgeny Yevtushenko. Muita coisa aconteceu entretanto. Agora que completa 50 anos, a editora reeditou Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, mantendo a tradução de Miguel Serras Pereira. Sobre o Quixote... passo a citar Harold Bloom: «obra de tamanha originalidade que, quatro séculos após ter sido escrita, continua sendo o trabalho de ficção em prosa mais avançado que existe. Tal asserção, porém, é reducionista; o livro é, também, o mais fluente e, em última instância, o mais complexo dos relatos romanescos.» Quem nunca leu, pode agora ver se está de acordo.

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sábado, abril 11, 2015

QUEM MUDOU O VOTO?


A história é conhecida. Em Junho de 2007, Sampaio da Nóvoa presidiu ao júri que chumbou José Luís Saldanha Sanches [1944-2010] na prova para professor agregado da Faculdade de Direito de Lisboa. Além do presidente, o júri era constituído por dez catedráticos, mas um deles, Paulo Pitta e Cunha, faltou. Estiveram presentes António Menezes Cordeiro, Diogo Leite Campos, Eduardo Paz Ferreira, Fausto de Quadros, Jorge Braga de Macedo, Jorge Miranda, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Teixeira de Sousa, que era então o director da FDL, e Paulo Otero. Quanto se sabe, deste grupo apenas três terão dado nota positiva: Jorge Miranda, Miguel Teixeira de Sousa e Paulo Otero. Sampaio da Nóvoa lavou as mãos como Pilatos. Entretanto, Marcelo já veio a público dizer que não chumbou. Em artigo publicado anteontem no DN, João Taborda da Gama lembrou que Sampaio da Nóvoa não teve «espinha dorsal» para impedir o escândalo. O pior soube-se hoje. Revela o Diário de Notícias que houve duas votações no mesmo dia, tendo um catedrático mudado o seu sentido de voto. Quem foi?

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sexta-feira, abril 10, 2015

CITAÇÃO, 523


Vasco Pulido Valente, O homem que não existe, hoje no Público. Sublinhados meus:

«Marcelo Rebelo de Sousa, que vive desde bebé na intriga política portuguesa, deu a única explicação compreensível da presuntiva candidatura de um cavalheiro desconhecido, António Sampaio da Nóvoa, à Presidência da República. Segundo Marcelo, o sr. Sampaio da Nóvoa é bem-visto pelo PC (porque participou numa homenagem a Cunhal), é bem-visto pelo Bloco (a quem várias vezes passou a mão pelo pêlo) e é bem-visto pelo PS (sobretudo da facção radical, que Soares continua a influenciar, agora com a ajuda de Manuel Alegre). Estas privilegiadas cabeças da política indígena acham que o sr. Sampaio da Nóvoa ajudaria Costa na campanha para as legislativas trazendo ao aprisco do PS algum voto da franja da esquerda lunática; e que a seguir conseguiria ser eleito por uma nova espécie de “frente popular”.

Há um pequeno problema nisto: a maioria dos portugueses não sabe quem seja o sr. Sampaio da Nóvoa. Uma dúzia de patetas mais fervorosos até pensam que esse pequeno facto seria favorável ao regime periclitante que nos pastoreia. Vindo do nada, o sr. Sampaio da Nóvoa nada deve aos partidos e, por isso mesmo, representaria a pureza do povo contra a imunda partidocracia que roubou Portugal aos seus legítimos proprietários. Claro que ninguém ainda observou que para se alçar a Belém qualquer candidato precisa do apoio dos partidos e, portanto, de se comprometer com eles de corpo e alma. O sonho de independência total, além da sua intrínseca má-fé, costuma anunciar uma ditadura populista ou nacionalista e não a boa cozinha democrática. O dr. Salazar, outro exemplar do género, chegou de Coimbra numa manhã de nevoeiro e ficou quase meio século.

De resto, o sr. Sampaio da Nóvoa, à sua maneira, anuncia o fim da ordem democrática que nasceu em 25 de Novembro de 1975. Nunca antes uma personagem do regime (e muito menos uma dúzia de “senadores”) nos tinha sugerido que votássemos numa criatura que não existe. O sr. Sampaio da Nóvoa, aos 60 anos, não pode apresentar um único acto político de consequência. Teoricamente, é igual votar nele ou votar num boneco fabricado pelos partidos, excepto que o boneco talvez fosse mais modesto e mais consciente do seu embaraçoso estatuto. Só um país sem espécie de vergonha levaria esta fantochada a sério

[Imagem: H. Armstrong Roberts, 1968. Clique.]

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PORQUE SIM


A funcionária em questão, subdirectora-geral (em regime de substituição) de um gabinete do ministério do Emprego e Segurança Social, e sócia de uma empresa de turismo rural, teve nota negativa em sete dos doze parâmetros que a CRESAP analisa. Mas vai gerir os fundos comunitários. A imagem é do Público. Clique.

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quinta-feira, abril 09, 2015

ALMEIDA FARIA


Hoje na Sábado escrevo sobre Cavaleiro Andante, romance com que Almeida Faria (n. 1943) deu por concluída a Tetralogia Lusitana, saga de uma família alentejana que assiste contrafeita à transformação da sua propriedade de Cantares em Unidade Colectiva de Produção. Aos primitivos sessenta capítulos deste quarto volume foram agora acrescentados dois pós-escritos: uma carta publicada na imprensa em Abril de 1985, e um email de Marta, confessando-se «condenada ao passado que não acaba de acabar», escrito no primeiro dia de 2015. O registo diarístico-epistolar contribui para potenciar a catarse. Lá onde leitores desatentos tendem a perder-se no intricado monólogo interior que o formato das cartas dilui, seguimos a par e passo um tempo histórico concreto: «o congresso de escritores decorreu [...] um prosador de péssima qualidade ameaçou de fuzilamento uma poetisa socialista infinitamente melhor que ele mas menos dogmática.» A correspondência, em especial a que João Carlos mantém com Marta, a namorada que ficou em Veneza, faz o retrato dos meses de brasa que antecederam a Novembrada, ou seja, o contragolpe militar de 25 de Novembro de 1975: «Nesta terra de choramingas, quando os comandos dominaram os páras, alguns destes desataram a chorar, o que já sucedera no também confuso onze de março do ano passado.» Ter presente o que representou a publicação do livro no Portugal de 1983. Sem surpresa, Almeida Faria levou anos a pagar o ónus da heterodoxia. A linguagem nem sempre é amável. Sirva de exemplo o capítulo dezassete. João Carlos deambula na rua e ouve: «até tenho nódoas negras dos colhões do vizinho, aquele é machão a sério [...] e se te armas em esperto com ameaças chamo o Copcão, a tropa do Otelo que te limpa o unto do bestunto...» Certo de que «a imaginação sempre se deixa ultrapassar pela realidade», Almeida Faria manipula o telling com domínio perfeito da narrativa. Razão acrescida para, em próxima edição, ser considerada a inserção de notas ao texto. Não seria o primeiro romance onde tal acontece, e os leitores agradeciam.

Escrevo ainda sobre Cidades Invisíveis, de Italo Calvino (1923-1985), autor que se pode dar ao luxo de, sem cair no maneirismo historicista, escrever um romance situado no século XIII que tem como personagens centrais Marco Polo, mercador e diplomata, e Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan. Cidades Invisíveis, publicado pela primeira vez em 1972, sucessivamente reeditado, é um modelo de virtuose narrativa que José Colaço Barreiros acrescenta à língua de chegada. Verdadeira revisitação das Mil e Uma Noites por antecipação da pós-modernidade, a sucessão de relatos arranca Kublai ao torpor da doença. Porém, desconfiado, pergunta: «Porque mentes ao imperador dos tártaros, estrangeiro?» Seria pleonástico sublinhar quanto a prosa de Calvino fixa a noção de Literatura. Com maiúscula.

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terça-feira, abril 07, 2015

O ESTADO DA SAÚDE


A quantidade de hospitais privados não me incomoda. O que me incomoda é o desaparecimento de 3700 camas do SNS. E também não me incomoda que, em 2013 (os números de 2014 ainda não são públicos), os hospitais privados tenham assegurado 29% do total de consultas externas. O que sobretudo me incomoda é saber que, entre 2004 e 2013, os Centros de Saúde com serviço de urgências tenham passado de 276 para 94. Os dados são do INE. A imagem é do Diário de Notícias.

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segunda-feira, abril 06, 2015

GUERRA SÍRIA


Com o ISIS às portas de Damasco, tem sido gritante o descaso (e a futilidade) com que a generalidade da imprensa portuguesa trata a Guerra Síria, palco privilegiado do jihadismo internacional. Quatro anos de um conflito que deu origem a «oito milhões de deslocados, quatro milhões de refugiados, mais de 220 mil mortos...», cidades que desapareceram do mapa, 60% de redução do PIB, o território minado por terroristas de todo o mundo, células no Iraque, na Líbia, no Egipto, no Líbano, a maior calamidade desde a Segunda Guerra Mundial, provocam um bocejo na troupe Charlie. Convinha por isso ler A Síria em Pedaços, de Bernardo Pires de Lima. Numa linguagem clara, isenta de proselitismo e derrames retóricos, bem informado, o autor expõe a situação em grande angular. Um glossário de siglas, organizações, e dramatis personae, ajuda a situar o leitor menos apetrechado. 

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domingo, abril 05, 2015

CITAÇÃO, 522


Sérgio Sousa Pinto, deputado e membro do Secretariado Nacional do PS, acerca de Sampaio da Nóvoa, presuntivo candidato à Presidência da República. Ontem no Facebook, transcrito pelo Diário de Notícias, hoje:

«Não lhe basta a sublime virgindade de, em 60 anos, nunca se ter metido com partidos, de que fugiu como do tifo. Também parece que agradece a Deus a graça de ser pobre. Antes do partido dos mujiques que do movimento do Mujica. Assistimos com horror à demagogia venezuelana do PODEMOS e o fenómeno político latino-americano apareceu-nos pela porta traseira. Esta não é a minha esquerda.»

[Imagem: DN. Clique.]

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sexta-feira, abril 03, 2015

A VER VAMOS


Pode ser que me engane, mas a Esquerda prepara-se com afinco para perder as Presidenciais de 2016. Não está em causa o currículo académico de Sampaio da Nóvoa. Mas uma eleição não se ganha com currículos académicos. Nem com oratórias no 10 de Junho (a convite de Cavaco) e na Aula Magna. Nem com entrevistas heterodoxas a Anabela Mota Ribeiro. Uma eleição presidencial ganha-se se houver empatia entre o eleitorado e o candidato. Para já, isso não acontece. Trezentos intelectuais ou para-intelectuais não chegam para derrotar os demagogos que estão na fila. O país profundo não faz a mínima ideia de quem é Sampaio da Nóvoa, 61 anos, doutor em Ciências da Educação, doutor em História, professor catedrático, duas vezes reitor da Universidade de Lisboa: 2006-08 e 2009-13. Sampaio da Nóvoa viveu grande parte da sua vida no estrangeiro (Genebra, Paris, Nova Iorque, São Paulo) antes de regressar a Portugal em 1986. Qualidades não lhe devem faltar, é com certeza melhor que os outros, e estou a incluir Marcelo nos outros, mas não chega. Oxalá me engane. A imagem é do Expresso de hoje. Clique.

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quinta-feira, abril 02, 2015

MANOEL DE OLIVEIRA 1908-2015


A morte de Manoel de Oliveira, ocorrida hoje, vítima de paragem cardíaca aos 106 anos de idade, interrompe uma obra iniciada em 1931 com o documentário Douro, Faina Fluvial. A primeira longa-metragem, Aniki-Bobó (1942), tornou-se um clássico. Poucos se lembram hoje que começou como actor, ao lado de Beatriz Costa, no filme mudo Fátima Milagrosa (1928), de Rino Lupo. Salvo a controvérsia de 1979, por causa de Amor de Perdição, que passou na RTP em seis episódios a preto-e-branco, antes de estrear (a cores) nas salas, o unanimismo foi de regra.

Cito o que a seu respeiro escrevi no meu livro de memórias:

[...] Oliveira estava na primeira página do Monde. Dizia-se à boca cheia que tal repercussão era obra do longo braço da Gulbenkian. A intelligentsia entrou em roda livre. [...] Francisca (1981) selou as hostilidades, mas seria preciso esperar por Non ou A Vã Glória de Mandar (1990) para que público e crítica o reverenciassem como o Eisenstein do Douro. Então, a lenda fez o seu caminho. Por causa dele, dizia-se, Catherine  Deneuve passou a comer tripas e arroz de couve-penca. Inspirado em Camilo, Amor de Perdição dura mais de quatro horas. E entre os seus detractores não havia só camilianos ortodoxos. Vinha longe o tempo em que Oliveira faria o pleno. Em Fevereiro de 1972, na antestreia de O Passado e o Presente, os próceres do Estado Novo e a intelectualidade de esquerda juntaram-se na Gulbenkian para o aplaudir. Mas as opiniões dividiram-se. Para o bem e para o mal, Oliveira tornou-se o cineasta do regime. [...]

A sua morte representa o fim de uma certa ideia de cinema. Filmes como Le Soulier de Satin (1985), Os Canibais (1988), Vale Abraão (1993), Party (1996), O Princípio da Incerteza (2002) ou mesmo Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), marcos de uma filmografia com cerca de sessenta títulos, dão prova da existência do cinema português.

A Cinemateca Portuguesa é depositária de um filme inédito, Visita ou Memórias e Confissões, realizado em 1982, com indicação explícita do autor para que fosse apresentado depois da sua morte, o que acontecerá em data a anunciar.

[Imagem: Oliveira e a mulher no festival de Cannes, em 2010. Foto do Guardian. Clique.]

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quarta-feira, abril 01, 2015

MEDINA À FRENTE DE LISBOA


Fernando Medina, 42 anos, economista, antigo deputado do PS, antigo secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional (no XVII Governo) e da Indústria e Desenvolvimento (no XVIII Governo), substitui António Costa, tornando-se o novo Presidente da Câmara de Lisboa. A passagem de testemunho foi hoje de manhã.

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RESPIRE FUNDO


O relatório da Comissão Nacional de Protecção de Dados tem 42 páginas e confirma o que parecia óbvio: a LISTA VIP é ilegal. É ilegal com quatro nomes (Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Paulo Núncio) e continuaria ilegal com quarenta mil.

Mas diz mais e pior: um total de 11.600 pessoas, onze mil e seiscentas, têm acesso aos dados de TODOS os contribuintes. Nesse grupo de 11.600 pessoas, existem funcionários, agentes e estagiários da Administração Tributária (9.298), mas também pessoas e empresas estranhas à AT «com os mesmos níveis de permissão». Entre as empresas privadas com acesso aos nossos dados fiscais, encontram-se a Accenture, a Novabase e a Opensoft.

O relatório seguiu para o Ministério Público e pode ser lido na íntegra na página online da CNPD.

[Imagem: sala do museu da Stasi, a polícia secreta da antiga RDA. Foto de Walter Bibikow. Clique.]

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TRUMAN CAPOTE


Por ser semana de Páscoa, a Sábado saiu um dia mais cedo. Na edição de hoje escrevo sobre três livros. Resumos críticos:

Música para Camaleões, de Truman Capote (1924-1984), último livro publicado em vida do autor. Vários contos aqui reunidos não constam dos Contos Completos (na realidade uma antologia) que a Sextante publicou em 2008. O actual volume inclui o famoso prefácio de 1979, no qual Capote discorre sobre «a escrita excelente e a arte genuína». A sua língua de prata transforma essas nove páginas num curso incisivo e heterodoxo sobre o acto de escrever. Percebemos como os seus contos, mais do que os romances, se tornaram um pilar sólido da literatura americana. Passando em revista os quarenta anos de vida literária, expõe os equívocos que rodearam a publicação, em 1975 e 1976, na revista Esquire, de quatro capítulos do romance Súplicas Atendidas, publicado depois da sua morte na versão inacabada. As pré-publicações foram fatais. Atingida no seu núcleo duro, a alta sociedade de Nova Iorque fechou-lhe as portas. Capote reagiu: «De que é que estavam à espera? Sou escritor. Utilizo tudo. Será que essa gente julgava que eu estava lá só para os divertir?» Entre muitos outros, “essa gente” inclui, citados pelos nomes, os Kennedy, os Vanderbilt, Sumner Welles (confidente de Roosevelt e homem forte da política externa de Washington), o rei Paulo da Grécia, o Xá da Pérsia, os duques de Windsor, artistas e escritores de renome, bem como colunáveis de vária espécie. Capote esteve mais de uma década sem escrever até concluir Música para Camaleões, onde fez questão de inserir Mojave, o primeiro capítulo do roman à clef.  Diz Capote que repetiu neste livro a fórmula de A Sangue Frio, relato factual que presume a ausência do autor. Verdade que são contos de não-ficção, mas Capote himself surge em todos os interstícios, e não apenas em Retratos Dialogados. Não é por acaso que um retrato de Marilyn a dançar com ele tem sido capa das edições de língua inglesa de Música para Camaleões.

Jorge de Sena: uma ideia de teatro, de Eugénia Vasques. Nunca será de mais estudar Jorge de Sena (1919-1978), o autor mais importante da literatura portuguesa do século XX. A obra inclui poesia, ficção, ensaio, teatro, história da literatura inglesa, diários, tradução e correspondência, por vezes com subdivisões, como sucede no ensaio, onde estão os estudos especializados que dedicou a Camões, Pessoa, teoria e crítica literária, bem como os verbetes de dicionários. De tudo isto, a faceta menos conhecida é a do teatro. Daí a importância da obra de Eugénia Vasques. Numa linguagem clara, apoiando o texto em notas imprescindíveis que abrem a narrativa ao contexto literário, sociológico, repressivo e político da época, em especial ao período a que reporta a análise da dramaturgia seniana, Eugénia Vasques faz um tour d’horizon de leitura aliciante, sem ignorar «dados biográficos concretos» do autor de O Indesejado (António, Rei), tragédia em verso que esperou mais de trinta anos para subir ao palco. A situação do teatro português em contexto de censura prévia é um dos pontos fortes da exegese. Uma detalhada cronologia do teatro português entre 1938 e 1971 (e correlativo contexto histórico) ocupa quinze páginas do volume.

A Nossa Casa é Onde Está o Coração, de Toni Morrison (n. 1931), mulher, negra, feminista e Prémio Nobel da Literatura em 1993. O livro confirma uma das vozes mais portentosas da literatura contemporânea. Não estamos no patamar da Trilogia da Condição Negra (1987-99), que abre com essa obra-prima que é Beloved, mas Morrison nunca desilude. Autora de romances, contos, peças de teatro, ensaios, libretos de ópera e literatura para a infância, a voz é inconfundível. Para alguém que escreveu como ela fez sobre a Guerra da Secessão, esta novela breve, a história de um homem que regressa da Guerra da Coreia sem ter tido tempo de lamber as feridas, é uma elegia contida, verdadeira peça de música de câmara sobre conflitos interiores: «Como podia ele mudar tão depressa? A rir num segundo e aterrorizado no seguinte? Haveria nele uma violência capaz de ser dirigida contra ela?» Desta vez, o tom visionário, tão presente na ficção de Morrison, dá lugar a uma melopeia que não abdica de inscrição política. Veja-se a alusão ao Green Book, o guia de viagem para negros (sítios a evitar, etc.) que Frank Money consulta antes de partir de regresso ao passado.

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terça-feira, março 31, 2015

LÍDER DA OPOSIÇÃO A TEMPO INTEIRO


António Costa anunciou esta tarde na Assembleia Municipal de Lisboa que amanhã de manhã renuncia ao cargo de Presidente da Câmara. Está marcado para o meio-dia um encontro com os media. Fernando Medina será o novo Presidente.

[Imagem: foto de Julien Warnand. Clique.]

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segunda-feira, março 30, 2015

REGIONAIS DA MADEIRA


O PS pagou o preço (e foi bem feito) de ter feito uma coligação, dita MUDANÇA, com o PTP, o MPT e o PAN. Más companhias nunca dão bom resultado. Miguel Albuquerque, o novo senhor da ilha, é um homem culto, tem charme, sabe vestir e é dono do maior jardim privado de rosas da Europa. A infografia é do Público. Clique.

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quinta-feira, março 26, 2015

ANA CÁSSIA REBELO


Contra a corrente da guerrilha partidária, Ana Cássia Rebelo (n. 1972) impôs à blogosfera uma persona desprovida de cautelas, Ana de Amsterdam. O blogue ressurge em forma de livro, prefaciado por João Pedro George, responsável pela selecção dos textos. Fica exarado: «uma grande escritora, uma radiação nova na literatura portuguesa.» Parece exagero, mas não é. Fala ainda de autoflagelação, sublinhando a ausência de literatice. Toda a escatologia será castigada. Ana Cássia Rebelo tem contra ela o atavismo do País e o conservadorismo do Meio. Estamos a falar de um diário avesso ao decoro, e de alguém que, à revelia do guisado normativo, põe em pauta a vagina: «Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo!». Gente sensível vai com certeza torcer o nariz: violência doméstica, disfunção sexual feminina, depressão, homens de pila mole, quotidiano em queda livre pelo travão engasgado do Escitalopram, suicídio abortado. Meia dúzia de escritores: Adília Lopes, aliás Maria José, entra na categoria dos afectos; Isabela Figueiredo no desencontro das memórias moçambicanas. O romance da empregada do minimercado é um tropo? Em suma, Ana Cássia Rebelo dinamita o código não escrito dos limites à emancipação de género. Não é pequeno mérito.

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