Terça-feira, Dezembro 29, 2009

RISCO MÉDIO


O Carlos Santos chama a atenção para um artigo do Wall Street Journal sobre a zona euro. Não tarda, os patuscos do costume estão a dizer que é propaganda paga pelo PS. Clique na imagem para ver melhor.

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A mentira vital


Convém referir, em primeiro lugar, a magnífica estreia de uma nova editora, com sede no Porto, de sua graça Ahab Edições. O nome é o de uma personagem de Moby Dick, de Hermann Melville, de onde chega também uma frase que parece funcionar como pedra de toque da orientação da nova chancela: «There are some enterprises in which a careful disorderliness is the true method». O elogio não se deve apenas à ousadia de avançar em terreno tão movediço como o da edição de livros em Portugal, mas sobretudo pelo excelente grafismo que apresentam os três primeiros títulos e pelas criteriosas escolhas. Um dos exemplos é Pudor e Dignidade (Genanse or Verdighet, 1994), de Dag Solstad, que se estreia assim, com o seu título mais célebre, no nosso país. Graças a uma tradução muita cuidada no que respeita à reconstrução do texto em língua portuguesa (nada poderei dizer sobre a qualidade das equivalências do norueguês para a nossa língua), da responsabilidade de Liliete Martins, podemos ter acesso a um texto que respeita o ritmo e a musicalidade que é frequente associar­‑se a este romance. É natural, precisamente pelo que acabei de dizer, que Thomas Bernhard possa ser apontado como um autor no horizonte de referências de Solstad, mas não nos deixemos enganar, não se trata de qualquer tipo de epigonismo, porque o que o autor de Pudor e Dignidade faz é a construção de um universo muito pessoal, desde logo pelo facto de distinguir o narrador do protagonista, ainda que, através da técnica do monólogo interior, consiga, em algumas cenas, quase criar a ilusão de que ambos se fundem. A personagem principal é um professor do ensino secundário que experiencia uma situação limite, com origem em pequenos incidentes, quase anódinos, mas que desencadeiam, da sua parte, uma reacção radical. Ao mostrar­‑se incapaz de resistir à pressão que a sociedade exerce sobre si, especialmente visível nas atitudes dos alunos, o professor cede e tem um comportamento desajustado das regras que o condicionavam como «um homem adulto muito bem formado e educado, […] pago com os dinheiros públicos para se dedicar – pelo vigésimo quinto ano – a um certo número de obras literárias do […] património cultural, quer isso aborrecesse ou não os alunos» (p. 24). Ora, é só depois desse descalabro que somos informados do nome do protagonista, cujo percurso, no entanto, já acompanhávamos há quarenta e sete páginas. A analepse que aí se inicia talvez esclareça algo sobre a personalidade de Elias Rukla, talvez sirva para lhe conferir um efectivo rosto humano e retirá­‑lo da apresentação burocrática em que até então se tinha mantido, apenas como professor (um pouco como se o dilema que atravessa não fosse meramente seu, nem sequer norueguês, mas de quase todos os professores no contexto europeu actual, o que coloca a questão de imaginarmos que avaliação teria este homem no sistema totalitário de colegas que se vigiam uns aos outros recentemente importado para Portugal), mas não deixa de o apresentar como uma figura destituída de carácter trágico, porque parece mais o representante de uma época do que um ser efectivamente individual. Será decerto por isso que ele, quando aspira a tornar­‑se no herói do romance de um desses escritores cuja obra ele radica na década de 1920, mesmo que apenas ideologicamente e não cronologicamente (onde inclui nomes como os de Proust, Kafka, Musil, Broch ou Mann), é apenas ao autor de A Montanha Mágica que reconhece a possibilidade de o ter adoptado como modelo; compreende­‑se depressa que é como prolongamento de Hans Castorp que Elias Rukla se vê, um Castorp perdido numa guerra que se revela sobretudo como farsa, dado que há um desajuste moral profundo entre os valores do professor e os do tempo em que ainda lhe cabe viver. É a ética de Solstad, profundamente imbricada na sua estética, o que, por exemplo, se mostra neste excerto: «Nem sequer perante a morte se pára já para pensar. Há que pesar, mostrar um pouco de humildade, fazer algumas dessas perguntas elementares que todo o ser humano deve fazer, para que tudo, desde o princípio, não venha a ser a mesma merda, dizia Elias Rukla para si próprio, a sós com o seu sofrimento social nessa noite que já se aproximava do fim. Quando uma apresentadora de telejornal morre, é um assunto privado, a sua morte é a dor da sua família, uma dor que devem poder sofrer em paz e a sós, não tem nenhum interesse público, porque nenhum apresentador de noticiários deixa atrás de si um lastro de tão grande valor – por comparação com outras pessoas – que faça que o seu desaparecimento transcenda os parâmetros da esfera privada para se converter num assunto de interesse nacional. Mas os jornais converteram­‑no num assunto de interesse nacional. Tenho ganas de vomitar, pensava Elias Rukla» (pp. 108-109).

A dimensão moral do romance de Solstad é o sinal dessa pretensão em instituir uma crítica da época, de acordo, aliás, com os fundamentos marxistas do autor. O desencanto, porém, não o leva a esquecer que Pudor e Dignidade é uma obra de arte verbal; por isso, Ibsen é o escritor estudado pelo professor Rukla nas aulas dos finalistas; a obra analisada é O Pato Selvagem (a mesma que é representada em Derrubar Árvores, de Thomas Bernhard, que a Assírio & Alvim recentemente editou, na tradução habitual de José A. Palma Caetano), onde é possível encontrar esta frase, citada no romance, quase logo a abrir: «'Prive o homem comum da sua mentira vital e ter­‑lhe­‑á roubado a felicidade'» (p. 12).

OS OCUPAS DO RETORNO ABSOLUTO


Quem ontem assistiu à chinfrineira dos ocupas da Invicta no portão da filial do BPP, encenada para a abertura dos telejornais, ficou a reflectir na utilidade da PSP. Se a polícia é conivente (a mando de quem?) com a ocupação, como parece provar o facto de permitir a presença de uma dúzia de pessoas dentro das instalações do banco, porquê os empurrões em directo no prime-time? Se não é conivente, está à espera de quê, ou de quem, para pôr toda a gente na rua? Não faz sentido empurrar a mulher de casaco de peles e o indivíduo de gabardina Burberry enquanto se permite o acesso de alimentação e medicamentos aos de dentro.

Se mal pergunto: tendo a administração do BPP retirado os seus trabalhadores da filial do Porto (a qual se encontra formalmente encerrada desde as 12h de ontem), quem garante a integridade dos arquivos, vária documentação e sistema informático?

O maior erro do primeiro governo de Sócrates foi não ter deixado falir o banco de João Rendeiro. Devia tê-lo feito logo em 24 de Novembro de 2008, quando Vítor Constâncio anunciou que o Banco de Portugal rejeitava a garantia de 750 milhões de euros solicitada pelo BPP.

Com o banco falido, os depositantes teriam sido ressarcidos nos termos da lei, os especuladores (os clientes das aplicações de retorno absoluto e afins) teriam ido à vida ou recorrido aos tribunais, a administração teria sido investigada, os responsáveis eventualmente punidos e o assunto encerrado. Ao invés, com o banco intervencionado, o ónus recai no governo, os contribuintes são onerados, e o sr. Rendeiro continua a fazer ski em Mégève, não obstante os indícios de burla, gestão danosa, branqueamento de capitais, evasão fiscal, desvio de fundos para off-shores, desvio de dinheiro de clientes para contas de terceiros, enriquecimento indevido, irregularidades contabilísticas e falsificação de documentos, por parte da administração por si presidida até Novembro de 2008.

A proposta do ministro das Finanças, aprovada pela CMVM, de um Fundo Especial de Investimento, está dependente da adesão de dois terços dos clientes ou, em alternativa, de um número de clientes que represente 50% do capital envolvido. Sem essa base não avança. Se avançar, os especuladores do retorno absoluto poderão receber até um máximo de 50 mil euros. As verbas serão canalizadas pelo Sistema de Indemnização aos Investidores e pelo Fundo de Garantia de Depósitos.

Aqueles que andam sempre a bramar com «isto só neste país»... deviam informar-se do que aconteceu às centenas de milhares de clientes das dezenas de bancos que a partir do Verão de 2008 faliram nos Estados Unidos, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Islândia, Holanda, Austrália e outros países.

Por explicar continua o facto de só se ouvirem protestos dos pequenos investidores (na sua maioria do Porto), ou seja, dos clientes que fizeram aplicações médias de meio milhão de euros. Dos grandes, os do eixo Lisboa-Cascais, só se sabe que viram a cara a Rendeiro nos clubes elegantes que todos frequentam. Ainda nenhum protestou, e estão em causa dezenas de milhões. Por que será?


Adenda. As pessoas que ocupavam as instalações da filial do BPP no Porto, abandonaram o edifício cerca das 13h.

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O GUANTÁNAMO DE SÓCRATES


Poucas horas depois de tomar posse, Obama assinou a ordem de encerramento de Guantánamo e das prisões da CIA no estrangeiro. Desconheço o que se passou com as prisões da CIA. Mas Guantánamo está como sempre esteve: para lavar e durar. Voltará a ser tema de campanha em 2012.

A 5 de Outubro é o Guantánamo de Sócrates. Maria de Lourdes Rodrigues, que na história fazia o papel de Bush, foi substituída por Isabel Alçada, uma espécie de John Kerry das Novas Oportunidades.

Isabel Alçada apresentou ontem o projecto de um novo Estatuto da Carreira Docente e de um novo modelo de avaliação dos professores. As reacções não se fizerem esperar. Pela boca de Ana Drago, o BE frisou que «esta proposta ainda é pior que a anterior, pois acaba com o estatuto de titular, mas cria estrangulamentos na carreira». Dramática, Heloísa Apolónia, dos Verdes, falou de «verdadeira aberração». A classe só será dignificada, disse, quando todos chegarem ao topo. Diogo Feio, do CDS, declarou que o modelo deles é que era bom. O PCP vai vazar em letra de forma o parecer do sr. Nogueira. E o PSD? O PSD, que logo a seguir às eleições garantiu que 30 dias chegavam para apresentar um novo modelo de avaliação, coisa que ainda não fez, anda entretido com os arraiais da praxe. Portanto volta tudo à estaca zero.

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Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

O FIM DO TERROR?


O princípio do fim do fundamentalismo teocrático?
Seguir as notícias aqui.

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QUEM AMEAÇA QUEM


Pelos actuais parâmetros de susceptibilidade — quem descobriu a pólvora que descalce o sapato —, esta afirmação

«[...] Uma das mudanças que é necessária em Portugal é a de pôr as pessoas na posição que merecem. Têm de se definir os estatutos em que cada um tem espaço, se são programas de humor ou de debate político sério. E, já agora, a autoridade de cada um para falar do que fala. O que estudaram, o que fizeram, o que são nas suas vidas profissionais.»

de Pedro Santana Lopes configura, de facto, uma ameaça à liberdade de expressão.

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Domingo, Dezembro 27, 2009

FALÊNCIA, DIZEM ELES


A notícia tem três dias, mas os ágapes natalícios atrasaram as leituras. O endividamento do país tem sido glosado até à náusea, sendo apresentado pela oposição como coisa para amanhã. Sucede que o relatório da Global Sovereign Credit Risk Report agora divulgado coloca Portugal em 41.º lugar numa lista de 63 países. Entre os 40 países com maior probabilidade de falência do que o nosso, estão a Polónia, a Espanha, a Itália e o Reino Unido.

No âmbito da União Europeia, com risco mais elevado de falência, encontram-se a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Grécia, a Hungria, a Bulgária, a Irlanda e a Estónia. Lembrar que dois (Grécia e Irlanda) são países da zona euro.

No conjunto dos 63 países analisados, três atingiram o ponto crítico: Venezuela, Ucrânia e Argentina. Nos últimos três meses, o pior desempenho da economia verificou-se no Reino Unido, na Grécia, nos Estados Unidos, no Abu Dhabi e no Japão. Com excepção da Grécia, nenhum pertence à zona euro.

Os campeões da segurança são a Noruega, a Alemanha, a Finlândia, a França, a Holanda e a Dinamarca, todos com probabilidade de falência inferior a 2,6%. Com excepção da Noruega, pertencem à zona euro.

Talvez fosse bom o reviralho desistir da prestidigitação.

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Sábado, Dezembro 26, 2009

CASAMENTO NO LUX




Ricardo Mealha e David Rodrigues casaram no passado dia 21.
Veja o vídeo de parte da cerimónia no Lux.

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SCHIPHOL CONNECTION


Abdul Farouk Abdulmutallab, um nigeriano de 23 anos, alegado membro da Al Qaeda, tentou fazer explodir o vôo 253 da Northwest Airlines, que liga Amesterdão a Detroit. Para tanto, utilizou um engenho de tipo novo, considerado sofisticado pelo FBI. O avião levava 278 passageiros a bordo, tendo a engenhoca falhado a detonação 20 minutos antes da aterragem. Abdul ficou com as pernas queimadas. Disse depois às autoridades que recebera o engenho no Iémen. Judith Sluiter, porta-voz do departamento holandês de contra-terrorismo, alegou que Abdul fizera escala no aeroporto de Schiphol, vindo não se sabe de onde, com o desprendimento de quem comenta o estado do tempo. Estes holandeses são uns patuscos.

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Sexta-feira, Dezembro 25, 2009

BOLO DE NATAL DE MOÇAMBIQUE


A pedido de amigos e leitores, deixo aqui a receita do Bolo de Natal de Moçambique (clique na imagem), variante laurentina daquilo que em Portugal passa por bolo inglês.


INGREDIENTES

Ovos, 10
Farinha, 500gr
Manteiga, 300gr
Açúcar refinado, 150gr
Açúcar mascavado, 150gr
Mel de rosmaninho, 2 colheres de sopa
Corintos, 200gr
Sultanas douradas, 200gr
Abóbora coberta, 100gr
Cerejas cristalizadas, 100gr
Laranja cristalizada, 100gr
Cidrão, 100gr
Miolo de noz, 200gr
Pinhões, 100gr
Canela, 2 colheres de chá
Noz moscada, 1 colher de chá
Gengibre moído, 1 colher de chá
Erva doce, 1 colher de chá
Cravinho em pó, 1 colher de chá
Bicabornato de sódio, 1 colher de chá
Vinho do Porto, uma garrafa
Aguardente velha, meia garrafa


PREPARATIVO

Com dez dias de antecedência, coloque a marinar em vinho do Porto e aguardente velha a fruta cristalizada (cortada em cubinhos), os corintos, as sultanas, o miolo de noz e os pinhões. Utilize uma tigela de louça, larga e funda. De vez em quando revolva com uma colher de pau ou silicone.

CONFECÇÃO

1. Ponha o açúcar refinado a caramelizar e, quando estiver bem castanho, deite-lhe um pouco de água quente e duas colheres de sopa de mel, para não solidificar quando arrefecer.
2. Bata a manteiga com o açúcar mascavado. Quando estiver em creme, deite cinco ovos inteiros, um a um. Mexa bem.
3. De seguida, mais cinco gemas, uma a uma. Mexa bem. Guarde as claras.
4. Entretanto, junte o açúcar caramelizado, completamente frio, continuando a mexer.
5. De seguida, misture a farinha com a noz moscada, a canela, o gengibre, a erva doce, o cravinho em pó e o bicabornato. Misture muito bem.
6. Junte a farinha com o preparado anterior.
7. A fruta que esteve dez dias (mínimo) a marinar é enxugada num pano, e depois envolvida em chuva de farinha para secar. Use um passador para tirar o excesso de líquido.
8. Envolva a fruta na massa, mexendo suavemente.
9. Bata cinco claras em castelo e envolva com o preparado anterior.
10. Deite a massa numa forma grande, forrada com papel vegetal e untada com manteiga. Leve a cozer em forno a 180 graus, aproximadamente. Se o bolo começar a tomar demasiada cor, baixe levemente o lume e cubra-o com papel vegetal ou folha de alumínio, até ficar completamente cozido (cerca de uma hora).

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Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

ISABELA FIGUEIREDO


Hoje no Público:


A história da presença portuguesa em África está toda por contar. A história política, reduzida a sínteses enviesadas. A das pessoas comuns, por fazer. Nada sabemos das famílias fundadoras, dos pieds-noirs, dos imigrantes, dos colonos, dos militares que optaram por não regressar a Portugal, dos altos-funcionários em comissão de serviço. O mais aproximado que temos dessa realidade é um importante estudo de Cláudia Castelo, Passagens para África (2007), sobre o povoamento de Angola e Moçambique entre 1920 e 1974, centrado no quadro geral da emigração para as Colónias, a economia local, as barreiras raciais, o indigenato, as diferenças sociológicas entre Angola e Moçambique, as sensibilidades políticas, a influência da Maçonaria em Moçambique, a força da comunidade sul-africana em Lourenço Marques (em 1928 representava 27% da população da cidade), o estatuto das companhias majestáticas em Moçambique, a acção das juntas provinciais de povoamento, os colonatos-modelo, a angariação de mão-de-obra, o trabalho forçado, as culturas obrigatórias, a ocupação de terras, a dicotomia entre africanos e indianos, as dissensões do Pacto Colonial, os equívocos da acção psicossocial, os sobressaltos independentistas, os conflitos dos colonos com as forças armadas (sobretudo em Moçambique), etc. Até ver, continua sendo o contributo decisivo para a reconstrução das memórias coloniais.

Faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (n. 1963), sem poupar nos detalhes. O seu Caderno de Memórias Coloniais é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África. Isabela ainda não tinha 13 anos quando deixou Moçambique. Narrativa mnemónica, portanto. Isenta de nostalgia, vontade de dourar a pílula ou propósito de reescrever a História. Factos, em toda a sua crueza: «Os brancos iam às pretas. [...] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras.» Isabela vivia na Matola. A Matola, oficialmente designada Vila Salazar, era um arrabalde de Lourenço Marques (em 1980 foi integrada na cidade de Maputo). Quando Isabela ali viveu era um sítio de passagem a caminho da fronteira da África do Sul. Foi lá que os massacres de 7 de Setembro de 1974 se fizeram sentir com maior intensidade: «a negralhada perdeu o freio [...] chacinou, cega, tudo o que era branco: os machambeiros e família, os gatos, cães, galinhas, periquitos, vacas brancas, e deixaram-nos agonizando sobre a terra, empapando sangue; salvavam-se as galinhas cafreais de pescoço pelado. E os gatos pretos.» Por exemplo, um dos vizinhos, o marido da Conceição, foi todo desmembrado à catanada antes de ser espalhado no milheiral. Isabela tinha 11 anos, mas não esqueceu.

A Matola não tinha o glamour da Maxaquene, da Ponta Vermelha, da Polana e de Sommerschield. A Matola era um reduto lumpen na zona dos sapais. Foi ali que Isabela cresceu, intuindo o desconcerto do mundo. Depois da matança de Setembro, os pais mudaram-se para a cidade, indo viver para «a praceta projectada à avenida Latino Coelho», no Alto Maé, bairro do lado oeste onde a miscigenação nunca foi figura de retórica. Talvez por isso Isabela fale de Lourenço Marques como de «um largo campo de concentração com odor a caril.» É uma imagem forte, como quase todas as do livro, porventura injusta. Contra o proselitismo da África “dourada”, Isabela opõe o traço grosso do seu quotidiano: «Ao sábado trabalhava-se, e o meu pai pagava a semana ao final da tarde. Ao sábado havia milando. [...] A única hipótese de não haver milando, era meterem o dinheiro recebido no bolso das calças rasgadas e saírem, cabisbaixos. Se reclamavam, havia milando, e não eram poucas as vezes em que saíam da sala com um murro nos queixos, um encontrão dos bons. Havia milando bravo.» Isabela não disfarça nem tenta desculpar. Era assim, conta como era. Cumpre o desejo do pai: «É por ti que vão saber. Tens de contar. Conta a todos.» Isabela conta. O que o pai queria e também o que não queria: os «discursos de ódio», ouvidos a dois centímetros do rosto, sentindo o cuspo, «uma raiva tão grande dentro de si». Isabela não perde o pé, conta, com sobriedade, sem adjectivação escusada, esse mundo de pesadelo. O avesso da história da carochinha.

Em Portugal, na escola das Caldas, fazem-lhe ver que ali não há «pretinhos para [lhe] lavarem os pés e o rabinho». Nunca o esquecerá. Nessa altura, em Moçambique, o pai estava preso. Passou vários anos na prisão antes do regresso a Portugal. Isabela fez-se mulher. Não esqueceu nada: «Um desterrado como eu é também uma estátua de culpa.» A escrita redime-a. Há muito pouca gente a escrever como ela.


Uma estátua de culpa, in Ípsilon, 24-12-2009, pp. 33-34. Quatro estrelas.

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ÍPSILON. BEST OF 2009


Nove críticos do Ípsilon escolheram os 20 melhores livros do ano. Os responsáveis pela escolha foram Gustavo Rubim, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Maria da Conceição Caleiro, Pedro Mexia, Rui Lagartinho e eu próprio. A selecção final ficou como segue. Vão assinalados a azul os que integram a minha escolha pessoal:


2666, Roberto Bolaño, Quetzal. Aqui
Caderno Afegão, Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China
Obra Completa 1969-1985, Nuno Bragança, Dom Quixote. Aqui
Contos Completos I, John Cheever, Sextante. Aqui
Obra Poética Completa, Edgar Allan Poe, Tinta da China. Aqui
Ofício Cantante, Herberto Helder, Assírio & Alvim. Aqui
Veneza, Jan Morris, Tinta da China. Aqui
O Homem sem Qualidades III, Robert Musil, Dom Quixote
Os Desaparecidos, Daniel Mendelsohn, Dom Quixote
A Breve e Assombrosa História de Oscar Wao, Junot Díaz, Porto Editora. Aqui
O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX, Alex Ross, Casa das Letras
História de Portugal, VV.AA., Rui Ramos (org.), A Esfera dos Livros. Aqui
A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, José Afonso Furtado, Booktailors
Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo, Angelus Novus. Aqui
A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, Stieg Larsson, Oceanos
História de Israel, Martin Gilbert, Edições 70. Aqui
A Montanha Mágica, Thomas Mann, Dom Quixote
Entrevistas da Paris Review, VV.AA., Carlos Vaz Marques (org.), Tinta da China. Aqui
Luz Fraterna, António Osório, Assírio & Alvim. Aqui
A Ilha, Giani Stuparich, Ahab


Além dos azuis subsumidos na lista final, escolhi ainda:

O Século XX Esquecido, Tony Judt, Edições 70. Aqui
Ruído Branco, Don DeLillo, Sextante
Outras Cores, Orhan Pamuk, Presença
Beloved, Toni Morrison, Dom Quixote. Aqui
O Caminho dos Pisões, M. S. Lourenço, Assírio & Alvim. Aqui
O Mar em Casablanca, Francisco José Viegas, Porto Editora. Aqui
Poemas Portugueses, VV.AA., Jorge Reis-Sá e Rui Lage (org.), Porto Editora. Aqui
I Am Charlotte Simmons, Tom Wolfe, Dom Quixote. Aqui
A Biblioteca da Piscina, Alan Hollinghurst, Asa
Filho da Mãe, Bernardo Carvalho, Cotovia. Aqui
Gabriel García Márquez. Uma Vida, Gerald Martin, Dom Quixote. Aqui

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Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

DESPACHOS E ESCUTAS NULAS


Relativamente às escutas entre Armando Vara e o primeiro-ministro, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça considerou nulos os despachos do juiz de instrução de Aveiro. Nessa medida, «no uso de competência própria e exclusiva [...] não validou as gravações e transcrições e ordenou a destruição de todos os suportes a elas referentes». Em consequência, e porque «a divulgação dos despachos violaria as decisões do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça», o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, em comunicado divulgado esta manhã, pôs um ponto final no assunto: «não é possível facultar o acesso a tais certidões». O comunicado do PGR é claro: as escutas são nulas, não contendo «indícios probatórios que determinem a instauração de procedimento criminal contra o Primeiro-Ministro, designadamente pela prática do crime de atentado contra o Estado de Direito». Pinto Monteiro também indeferiu o requerimento em que o PSD pedia acesso às gravações.

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CITAÇÃO, 236


Filipe Nunes Vicente, Isso é que era bom.


«Se alguém me pedir ajuda para assumir a sua homossexualidade, eu ajudo; se alguém me pedir ajuda para esquecer a Rosa, ou o João, eu ajudo; se alguém me pedir ajuda para deixar de ser homossexual, eu ajudo.
Na psiquiatria não sei, mas ainda está para nascer a pré-Ordem de psicólogos, ou o jornalista, ou o
blogger, que me impeça de ajudar quem me procura

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Terça-feira, Dezembro 22, 2009

VIVA MÉXICO


Ontem, a Assembleia Legislativa da Cidade do México aprovou, com 39 votos a favor e 20 contra, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A lei inclui adopção. Em 2006, o México legalizou as uniões civis registadas para homossexuais, as quais garantem, entre outros, o direito à pensão de sobrevivência por morte de um dos cônjuges. Na América Latina, legislação do mesmo teor existe na Colômbia, no Uruguai e no município de Buenos Aires.

Agora que o Parlamento português agendou para o próximo 8 de Janeiro a discussão do diploma aprovado pelo governo no passado dia 17, lembrar que a Holanda, Bélgica, Espanha, Canadá, Reino Unido, África do Sul, Noruega, Suécia e cinco Estados americanos (Iowa, New Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Vermont) reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E que dois países, Israel e o Japão, também o reconhecem desde que efectuado em países terceiros.

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Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

BRINCAR COM O NOSSO DINHEIRO


Se, de facto, isto custou 99500 euros ao erário público, alguém anda a brincar com o nosso dinheiro. Estou-me nas tintas para o ajuste directo. Mesmo que fosse por concurso público internacional, isto tinha de custar vinte vezes menos.

Convinha, portanto, perguntar ao dr. Artur Santos Silva, presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, nomeado pelo actual Presidente da República (Decreto-Lei n.º 17/2008, de 29 de Janeiro), se tem conhecimento da espórtula. Naturalmente, o dr. Santos Silva não se ocupa de trocos. E os excelentíssimos honoráveis (Francisco Luís Sarsfield Pereira Cabral, João José de Sousa Bonifácio Serra, Maria Fernanda Fernandes Garcia Rollo, Maria Raquel Henriques da Silva) da Comissão a que preside também não. Mas há com certeza algures um chefe de divisão ou um director de serviços que autorizou o estipêndio. Era bom saber porquê. A menos que seja um presente do BPI a título de mecenato.

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A PATA NA POÇA


Aqui há tempos, a Sábado fez grande alarido com o investimento do governo em publicidade. Segundo a revista, os jornais anti-Sócrates eram discriminados. O agitprop levou a oposição ao êxtase. O BE esteve à beira de convocar um Concílio de Trento adaptado aos media. Para desconsolo do reviralho, a realidade é outra.

Segundo um estudo da Marktest hoje divulgado, verifica-se que o investimento do governo, em publicidade nos jornais, entre Janeiro e Setembro de 2009, foi como segue:

Correio da Manhã — 4,4 milhões de euros
Jornal de Notícias — 2,4
Diário de Notícias — 1,0
Público — 876 mil euros
24 Horas — 54 mil

O mesmo estudo também revela o montante do investimento (em publicidade) de empresas privadas com participação do Estado.

No Correio da Manhã:

Caixa Geral de Depósitos — 394 mil euros
EDP — 208
PT — 157
Uzo — 139

No Jornal de Notícias:

TMN — 253 mil euros
EDP — 124
Uzo — 14

No Diário de Notícias:

TMN — 339 mil euros


Tudo visto, a COFINA [Correio da Manhã, Sábado, etc.] leva larga vantagem sobre a CONTROLINVESTE. [Diário de Notícias, Jornal de Notícias, 24 Horas, etc.] Afinal, quem levou a Sábado a meter a pata na poça?

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Domingo, Dezembro 20, 2009

QUAL LÍDER? QUAL GANG?


Chamada de 1.ª página do Público de hoje: Líder do PS esteve ligado a gang, diz Relação


Facto: Ricardo Rodrigues, deputado do PS, perdeu o recurso que interpôs no Tribunal da Relação contra o jornalista Estêvão Gago da Câmara, da SIC. O jornalista tinha publicado (em 2005) um artigo em que manifestava perplexidade por Ricardo Rodrigues ser cabeça-de-lista do PS nos Açores, apesar da sua qualidade de advogado de pessoas envolvidas no escândalo de pedofilia de São Miguel. Sentindo-se ofendido, Ricardo Rodrigues avançou com um processo judicial contra o jornalista, tendo perdido na primeira instância e na Relação. O acórdão da Relação é de Setembro.

Se mal pergunto: o que é que o líder do PS tem a ver com esta história? Estão a falar de que líder? E de qual PS?

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LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. António Osório (n. 1933) acaba de reunir em volume único a poesia que escreveu entre 1965 e 2009. Em 655 páginas, A Luz Fraterna colige os dez livros de poesia que o autor publicou entre 1972 e 2002 (não incluo antologias e selecções de obra completa), acrescentando-lhes uma sequência de inéditos e dispersos, O Dom da Vida. No prefácio, Eugénio Lisboa não poupa no encómio: «[...] é aqui que a poesia indubitavelmente moderna e inovadora do autor de O Lugar do Amor irrompe, munida dos seus singulares aparatos e seduções, doando-nos os seus versículos oficiantes, para fins de uso, quase me atreveria a dizê-lo, em festas e templos sagrados. Não houve nunca, em António Osório, a preocupação mórbida e um tanto parola de ser “de vanguarda”. [...]» Eu não diria melhor. Membro da Academia das Ciências de Lisboa, António Osório foi bastonário da Ordem dos Advogados (1984-87) e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente (1994-97). Sobre a sua poesia, não vou repetir o que escrevi numa dezena de textos publicados nos últimos quinze anos.


Francisco José Viegas: «Salvo erro, ainda não vi gente em pranto, rasgando-se, aos saltos, por causa da intervenção do sr. presidente do Supremo Tribunal de Justiça, num dos ataques mais frontais à liberdade de imprensa. Que um trauliteiro o faça, munido dos instrumentos habituais, estamos habituados; que um presidente do Supremo Tribunal de Justiça peça um tribunal de excepção — digamos, um Tribunal Plenário — que integre a “estrutura política do Estado” (políticos nomeados pelo governo?, pelo Parlamento, pela vizinhança?) para julgar a imprensa e os jornalistas, é não apenas grave como estapafúrdio.

Luis Januário: «Agora vou dizer o que acho sobre o casamento gay. Não acho nada. Não tenho nada de achar e tenho raiva a quem me pergunta. O que é que eu tenho a ver com a identidade sexual das outras pessoas e com as suas escolhas? [...] Mas já que estou com a mão na massa, acho mal que tenham separado o casamento gay da adopção por casais homossexuais. Percebo a táctica gradualista. Neste momento histórico há maioria para os direitos conubiais dos homossexuais mas ainda não dá para mais. Esta táctica paga-se caro. Acho que se deve enfrentar a realidade cientificamente. Se há pouca gente para dizer, eu digo: Já vi meninas a embalar metralhadoras e rapazes a disparar com a Barbie. Não conheço evidência séria de que a identidade sexual seja determinada pela família com quem uma criança cresce. E há crianças a mais nos novos Asilos.»

Rogério da Costa Pereira: «Essencialmente, o que Pacheco idealiza é uma esquerda semelhante à que lhe ensinou os truques, uma esquerda sem surpresas, eternamente desvairada, armada de goivas e enxós, saída directamente do tempo em que os comunas comiam criancinhas — saída de um sonho mau, de uma secção inventariada do arquivo da Marmeleira. O que Pacheco pretende é uma esquerda que ele possa instrumentalizar, que o ajude na querela cega [...] que mantém com Sócrates. Uma esquerda amestrada e catalogada, que ninguém leve a sério; uma esquerda que não cubra Pacheco da sombra de que ele se desabitua. [...]»

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LISBOA À PROVA


O concurso Lisboa à Prova, que se realizou este ano pela segunda vez, atribuiu a classificação máxima [Três Garfos] a seis restaurantes:

Casa da Comida
Eleven
Panorama
/ Hotel Sheraton
Tavares
Valle-Flôr
/ Hotel Pestana Palace
Varanda / Hotel Ritz

Foram avaliadas a qualidade da cozinha, do serviço e do ambiente. Concorreram 206 restaurantes (cerca de 10% dos restaurantes da cidade), avaliados em visitas anónimas. Estavam em jogo as categorias de cozinha tradicional portuguesa, cozinha do mundo, cozinha de autor, cozinha de fusão e novas tendências.

Em segundo lugar [Dois Garfos] ficaram estes catorze:

AdLib
Alma
A Travessa
Bocca
Espaço Açores
Faz Figura
Flores
/ Hotel Bairro Alto
Gemelli
Guarda Real
/ Hotel Real Palácio
Poleiro
100 Maneiras
Solar dos Presuntos
Suite
Tamarind


Em terceiro lugar [Um Garfo] ficaram 73. Não foram classificados os restantes 113. A 21 de Janeiro de 2010, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, realizam-se provas de quatro dos principais classificados.

O concurso é promovido pela Câmara de Lisboa, Turismo de Portugal e Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal. Visa exclusivamente o concelho de Lisboa.

Se me é permitida uma nota pessoal, a minha escolha é a seguinte: Casa da Comida, Cipriani [Lapa Palace], Gambrinus, Mezzaluna, Pap’Açorda, Valle-Flôr, Varanda, Versailles, Solar dos Presuntos, Spazio Buondi-Nobre. Levo em linha de conta os critérios do concurso e ainda o da relação entre qualidade e preço. Na imagem, uma das salas da Casa da Comida, um marco da cozinha de Lisboa desde 1976.

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CITAÇÃO, 235


Vasco Pulido Valente, Sem emenda, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:


«Lisboa e o Porto andam em guerra, através dos respectivos presidentes da câmara, por causa de uma corrida de aviões chamada Red Bull. Como se sabe, a corrida costumava ser no Porto e agora parece que vai ser em Lisboa. [...]

[...] O que hoje em dia passa pela cabeça da administração local chegou, para não ir mais longe, a uma extravagância atemorizadora. O senhor de Paredes que resolveu gastar um milhão de euros numa placa inútil e horrível com a bandeira da República é um caso único ou é, para nossa desgraça, um caso típico? A disputa sobre o Red Bull infelizmente indica, que é um caso típico. As Câmaras estão hoje misteriosamente persuadidas de que lhes compete espantar e divertir a populaça: com “acrobacia aérea” ou o Rock in Rio, com festas, com feiras, com o que for. Pior ainda: pensam que só por si a publicidade (qualquer publicidade) do seu canto do mundo o beneficia. A ignorância e a grosseria tomaram pouco a pouco conta do país. Não temos, de facto, emenda.»

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Sábado, Dezembro 19, 2009

A PERGUNTA


Ontem, o Expresso da Meia Noite da SIC Notícias foi dedicado ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Do lado dos contras, Isilda Pegado e um impedido de Paulo Portas. Do outro lado, Sérgio Vitorino, muito assertivo, e um jovem deputado [Duarte Cordeiro, secretário-geral da Juventude Socialista, informam-me dois amigos] do PS. No âmbito dos respectivos pontos de vista, todos disseram o óbvio. Mesmo o rapaz do CDS que parecia sofrer uma crise de hemorróidas de cada vez que falava de homossexuais. De novo, falou-se muito de adopção e pouco de casamento. Ricardo Costa tentou, sem sucesso, recentrar a discussão. O que foi deveras surpreendente foi a pergunta de Nicolau Santos: «Acha», perguntou ele a Sérgio Vitorino, «que uma criança com dois pais ou duas mães não fica com a sua sexualidade condicionada?». Sérgio Vitorino respondeu à letra, lembrando não ter ficado nada condicionado com a heterossexualidade dos pais. Estas coisas não seriam graves se ocorressem na Fonte da Rata (Espinho) ou no Vergão Fundeiro (Proença-a-Nova). Mas em Lisboa, no século XXI, sob o alto patrocínio do Expresso, com laço Hermés ao fundo, significam o quê?

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PARA QUE CONSTE

Roubado à Isabel Moreira

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VOLTA, ESTÁS PERDOADO


Pedro Santana Lopes propôs um congresso antes das directas do PSD. Para? Discutir o partido, «pôr tudo e todos em causa!». Manuela Ferreira Leite acha lindamente. Óbvio que Santana quer regressar à liderança. E, para travar o passo a Passos Coelho, a actual direcção está disposta a tudo. Até à entronização de Santana.

É bem feito. Se a Marcelo e Rui Rio o partido não apetece, se Aguiar-Branco teria sérias dificuldades em impor as maneiras da Foz Velha ao circuito da carne assada, se Rangel se afeiçoou às brumas da Grand Place, nada mais natural que o perdão ao menino guerreiro. Há, nisto tudo, uma espécie de justiça divina.

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Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

BACELAR & PEGADO


Parece que a Plataforma Cidadania e Casamento, de Bacelar & Pegado, conseguiu 72347 assinaturas das 75 mil necessárias para desencadear a “petição popular” de um referendo à legislação que, alterando quatro artigos do Código Civil, torna possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Engraçado. Os candidatos independentes dos partidos vêem-se gregos para arranjar assinaturas de cada vez que querem formalizar uma candidatura. Mesmo Helena Roseta, que é uma figura nacional, quando, em 2007, quis inscrever na corrida à Câmara de Lisboa o grupo Cidadãos por Lisboa, contou com o apoio logístico do BE, sem o qual, provavelmente, não juntava as 4 mil assinaturas exigidas por lei (no fim, entregou 5546). Porque não estamos a falar de resmas de papel com nomes alinhados. Assim era fácil. Vamos aguardar para ver o que Bacelar & Pegado conseguem.

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EVELYN WAUGH


Hoje no Público:


Sobre o escritor inglês Evelyn Waugh (1903-1966) tem sido dito tudo e o seu contrário. Em Portugal nem por isso, talvez porque o seu nome esteja associado à tradução desastrosa de Brideshead Revisited (1945), romance que chegou às livrarias portuguesas no início dos anos 1980, a reboque da adaptação que Charles Sturridge e Michael Lindsay-Hogg fizeram para a ITV. Com excepção de um pequeno grupo de iniciados, a obra de Waugh (como, pelas mesmas razões, a de P. G. Wodehouse) choca com o atavismo indígena. A snobbery deste conservador heterodoxo que fixou como nenhum outro as idiossincrasias da upper class, continua a suscitar preconceito numa sociedade como a nossa, ainda hoje avessa à ilustração das clivagens sociais.

Com acção centrada nos anos entre as duas Grandes Guerras, Corpos Vis (1930) foi escrito depois de Waugh ver anulado o primeiro casamento. A intriga gira em torno do denominado Bright Young People, grupo de jovens aristocratas de que faziam parte, entre outros, além do próprio Waugh, a romancista Nancy Mitford, o fotógrafo Cecil Beaton e o historiador Patrick Balfour. A fluidez da narrativa é idêntica à de um guião pronto a ser filmado. E reúne todos os ingredientes que singularizam Waugh: quotidiano das classes altas britânicas, sarcasmo, mordacidade, humor, gossip e ambiguidade sexual. O título remete para a Carta aos Filipenses (Paulo: 3.21, «corpo miserável»), o que não é de admirar, dada a sua conversão ao catolicismo.

Logo no primeiro capítulo, a descrição da travessia do Canal é um prodígio de modernidade. Sirva de exemplo e lição a quem julga estar a descobrir coisas descobertas há muito. O modo como trata os mais novos é um reflexo do seu desprezo pelas crianças (a quem chamava “adultos defeituosos”, embora isso não tenha impedido que tivesse sete filhos da segunda mulher). Do mesmo passo, atribui nomes paródicos a personagens secundários: Perseverança Criadora, Walter Vexame, Mrs Blackwater, Fanny Throbbing e outros. Cinquenta anos mais tarde, o expediente seria utilizado por Dinis Machado, que o adaptou ao imaginário lisboeta em O Que Diz Molero. Voltando a Waugh, não percebo o motivo que levou Miguel Serras Pereira, o tradutor, a manter alguns desses nomes no original. Exemplos: Blackwater, Throbbing, etc. Cronista por excelência do decadentismo dos thirties, Waugh faz o retrato a traço grosso da Londres pós-vitoriana. Em grande parte, o sucesso deve-se ao ritmo cinematográfico da escrita, então uma novidade.

Adam Fenwick-Symes, o protagonista, é um jovem escritor a quem os funcionários da alfândega de Dover queimam o manuscrito que transporta consigo: «Pode levar estes livros de arquitectura e o dicionário [...] quanto a esta autobiografia, é francamente obscena, e vamos queimá-la, percebe? [...] a minha subsistência depende de impedir que livros como este entrem no país. E agora ponha-se a mexer depressa, se não quer ir a um tribunal de polícia.» À época, o grupo fascista de Oswald Mosley tinha considerável eco na opinião pública inglesa. É de supor que o tom soft esteja relacionado com os «critérios moralmente aceitáveis do dia». Lá onde os neo-realistas italianos arrancavam as vestes, Waugh, conservador por natureza, ironiza de perfil.

Evelyn Waugh quis, mas não conseguiu, ser professor numa public school. Em 1917, o irmão mais velho, Alec Waugh, publicara The Loom of Youth, romance que põe a nu as práticas homossexuais dos alunos de Sherborne, um dos colégios ingleses mais exlusivos. A boa sociedade não esqueceu. Ele desforrou-se da hipocrisia com a língua de prata e o alto conseguimento da obra literária.


A leveza dos thirties, in Ípsilon, 18-12-2009, p. 41. Quatro estrelas.

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ESCOLHAS DE VASCO PULIDO VALENTE


Hoje, na sua crónica do Público, 2009: os livros do ano, Vasco Pulido Valente escolhe três títulos. Cito as passagens referentes a cada um deles:


«[...] A minha primeira escolha é o prémio Booker de 2009 Wolf Hall, de Hilary Mantel [na imagem] Mantel já escreveu um romance histórico incomparável sobre a revolução francesa, A Place of Greater Safety. Agora voltou ao género. Wolf Hall, um título já equívoco e ameaçador (por razões longas de explicar aqui) é à superfície sobre a vida e ascensão de Thomas Cromwell, filho de ferreiro, mercenário e advogado, que chegou a chanceler de Henrique VIII e foi o grande executante da Reforma inglesa. Como já alguém explicou noutro sítio, esta extraordinária meditação sobre o poder e a fé pesa sobretudo pelo que não é dito. Numa voz baixa, triste, neutra e aterrorizante (e sem um erro de facto ou teologia), Mantel conta o fim de um mundo. Uma lição aflitiva e apropriada.»

«A minha segunda escolha é A History of Christianity: The first three thousand years, de Darmaid MacCulloch. [...] Na altura em que o Papa Bento XVI reafirma a tradição da Igreja Católica, talvez seja bom conhecer essa tradição e o que ela deve ao acaso e às circunstâncias. Mais do que isso, o que ela deve à necessidade política e, frequentemente, ao puro arbítrio. MacCulloch insiste, de resto, na contínua diversidade do cristianismo, desde a sua confusa e complicada origem até à crise contemporânea. Apesar das notórias vantagens da ignorância, ninguém que se julgue crente pode perder este livro. A BBC fez dele uma série. Suponho que a RTP não a passará.»

«A minha terceira escolha é Alone in Berlin, de Hans Fallada [...] Fallada — um escritor célebre durante a República de Weimar, que o nazismo perseguiu — publicou Alone in Berlin em 1947, antes de morrer. Não conheço nenhum romance que reconstitua tão bem o dia-a-dia no universo alucinante do Reich hitleriano, principalmente a impotência e a solidão do homem comum, de que nós por cá tivemos com Salazar um vaga amostra. [...]»

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

CASAMENTO APROVADO


O 17 de Dezembro de 2009 vai ficar na História como o dia em que o governo português aprovou um decreto-lei que altera quatro artigos do Código Civil de modo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As promessas eleitorais são para cumprir. Esta foi! Os marialvas, de esquerda e de direita, escusam de fazer boquinhas. Há 40 anos (ou seja, em 1969), em Lisboa, uma senhora não ia, de noite, sozinha ao cinema. Em contrapartida, hoje, mesmo na classe média, as adolescentes discutem fellatios à mesa. Em matéria de transgressão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo está ao nível da Mary Poppins.

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LIBERAIS À MODA DO PORTO


Não entendo os nossos liberais. Passam a vida a bramar com a livre iniciativa e as leis da oferta e da procura, e agora que uma empresa privada, a Red Bull Air Race, decidiu transferir para Lisboa a performance anual que era feita no Porto, aqui d’El Rei! que a macrocefalia da capital engole tudo.

António Costa deixou claro que a Câmara de Lisboa não mexeu um dedo para ficar com o show, o qual vai custar em Lisboa o que custava na Invicta: 3,5 milhões de euros. Foi a Red Bull Air Race que veio à CML dizer que seria no Tejo ou não seria em lado nenhum. Costa aceitou, dispondo-se a mediar no sentido de Lisboa alternar com o Porto.

Tudo isto me parece bastante bizarro, mas nada suplanta a choradeira dos liberais à moda do Porto. Além de bizarro, o negócio entornou o caldo. Pacheco Pereira e António Costa perderam a tramontana na Quadratura do Círculo que vai para o ar hoje à noite na SIC Notícias. Vale a pena ver.

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A TRANSFERÊNCIA


Não sei se é a transferência da temporada, mas é com certeza um acontecimento: Maria do Rosário Pedreira assume funções no grupo LeYa no próximo dia 1 de Janeiro, deixando a QuidNovi, que praticamente criou como editora de literatura, juntamente com Ana Maria Pereirinha.

Resta-me desejar à Maria do Rosário todo o sucesso que merece. Além de grande profissional e boa amiga, foi editora de livros meus, na Temas & Debates e na QuidNovi. Lembrar aos mais distraídos que foi ela que inventou três novíssimos autores: José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo.

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Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

TRUQUE, DIZ ELA


Não ouvia rádio há muito tempo. Hoje ouvi, bem cedo, e durante mais de meia hora seguida, porque tive um pequeno-almoço de trabalho no Restelo e a chuva transformou a viagem numa epopeia. Uma voz feminina que não identifiquei insistia no perigo [sic] da adopção de crianças por casais de homossexuais. A família para aqui, a família para ali. Foi pena o repórter não ter lembrado um dado estatístico: grande parte das crianças molestadas é vítima de heterossexuais. Em regra, de heterossexuais casados. E muito machos, por supuesto! Mas são pais, amantes de pais e mães, irmãos, padrastos, primos, padrinhos, etc. O núcleo da família. Isso não incomoda ninguém. As famílias disfuncionais não deixam de ser famílias.

Vinha a discussão radiofónica a propósito do diploma que o governo prevê aprovar amanhã, tornando possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porém interditando a adopção. Bluff, dizia ela, explicando: Assim que o primeiro casal gay reivindicar a adopção, e ela lhe for negada, “eles” recorrem para o Tribunal Constitucional, que obrigará o governo a expurgar a lei de inconstitucionalidade. Está tudo previsto. Tortuoso? Nem por isso. Estas cabecinhas tontas cospem tanto para o ar que um dia rebenta-lhes a bicha em casa.

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Terça-feira, Dezembro 15, 2009

JONATHAN LETHEM


Pode ler aqui a minha crónica Lá fora. Excertos:


Na edição do passado dia 6, o New York Times publicou a lista dos 10 melhores livros de 2009. [...] Salvo melhor informação, nenhum dos dez está previsto nas “novidades” para 2010. Com certeza que não temos de andar a reboque das preferências do NYT, do El País ou do Libération. Mas custa ver tanto lixo traduzido e ter de esperar meia dúzia de anos (ou mais) por aquilo que nos interessa hoje. [...] Outro exemplo: Jonathan Lethem. [na imagem] Quanto sei, Lethem tem um único livro traduzido entre nós, Motherless Brooklyn (1999), vencedor do National Book Critics Circle Award. Um Rapaz de Brooklyn foi o sétimo livro (e o quinto romance) que publicou. Com Chronic City, roman à clef frenético cujo plot tem epicentro no Upper East Side, Lethem volta a agitar o meio literário de Manhattan. Para quem não saiba, Lethem, agora com 45 anos (e dezasseis livros publicados, dos quais nove são romances), faz a síntese “impossível” de Saul Bellow com Philip K. Dick. A ficção científica, território de excelência, não impede a aura de autor “maldito”, com a obra associada aos conceitos de genre-bender e gentrification, factores de caução da deriva autobiográfica. [...]


Adenda. Acabo de ser informado da tradução de outro livro de Lethem em Portugal: You Don't Love Me Yet / Tu Ainda Não Gostas de Mim (2007), publicado pela Alêtheia em Março de 2009.

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A ANTOLOGIA EM 2009


É hoje lançada, a partir das 19:00h, na Fundação Medeiros e Almeida, rua Rosa Araújo, 41 (ao pé da Cinemateca Portuguesa), em Lisboa, a antologia Poemas Portugueses, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage. Vasco Graça Moura apresenta.

Vem a talhe de foice esclarecer que os autores dos verbetes biobibliográficos (eu próprio e mais trinta ensaístas) não são responsáveis pela selecção dos poemas dos autores que introduzem. O sublinhado pode parecer despropositado, mas como fui interpelado nesse sentido — Escolheu muito mal os poemas do António Gancho / Por que razão pôs tão poucos poemas do Ary? —, fica a ressalva. Todo o trabalho de selecção é dos organizadores, Reis-Sá e Lage, não tendo os autores dos verbetes biobibliográficos sido tidos ou achados na escolha. Nem tal lhes competia.

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Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

SILÊNCIO ENSURDECEDOR


Tem toda a razão o Pedro Lomba: a corrupção não tem ideologia. Nem eu nunca disse o contrário. Continua a ter razão quanto ao meu silêncio em matéria de renegociação da «concessão do terminal de contentores de Alcântara à Liscont». Com efeito, nunca comentei essa trapalhada. Sirva o desabafo como comentário póstumo. Aqui chegados, fará a justiça de reconhecer que os mesmos media que andaram semanas a fazer manchetes e a abrir telejornais com um presuntivo envelope de 10 mil euros — omisso da acusação formal —, deixem no silêncio a banhada (cf. Marinho Pinto) dos CTT, lesiva do Estado em 13,6 milhões de euros, dos quais 1,6 milhões a título de luvas. Fora estas minudências, continuará a convir que invectivar o Preto não é a mesma coisa que invectivar o ex-presidente dos CTT, antigo secretário-geral do PSD (no tempo de Marcelo) e membro da direcção de Marques Mendes. Contra Vara, não há blogger ou comentador que não faça trocadilhos. Em contrapartida, à volta de Carlos Horta e Costa o silêncio é, como diria Montherlant, ensurdecedor. Foi o Pedro que pediu reciprocidade?

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A VOZ HUMANA



O meu primo nasceu em Lourenço Marques,
por Isabela Figueiredo

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Hoje, no restaurante do Corte Inglês, às 18:30h, Júlio Pedrosa e José Barata Moura apresentam A Importância de ser Electrão, de José Lopes da Silva e Palmira Ferreira da Silva. Só a Palmira, boa amiga, é que me punha a publicitar átomos e moléculas. Extra-amiguismo: os entendidos sabem que vale a pena.

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CITAÇÃO, 234


Francisco José Viegas, Alerta Amarelo. Excerto, sublinhados meus:


«[...] Ontem, uma senhora à porta da padaria queixava-se amargamente do frio, vestida com uma blusinha e um pulôver. Eram cerca das nove da manhã e eu estava de anoraque. A mesma coisa no edifício onde trabalho, onde se faz um intervalo periódico para fumar no exterior, num jardinzinho, onde ouço queixas sobre o frio que faz (senhoras vestidas com uma blusinha e um pulôver). Tento, em vão, recomendar-lhes agasalhos. Parece que está fora de causa. Encaram o alerta amarelo da Protecção Civil com o carácter de um partisan resistindo nas montanhas de onde se vêem as águias brancas sobre a Sérvia. As senhoras vestidas com uma blusinha e um pulôver são um fenómeno lusitano recente, criadas em clima subtropical ligeiramente húmido, habituadas a Verões inclementes e que desconhecem (ou fingem desconhecer) as bravas camisolas de lã tricotadas pelas mães, tias e avós. Os sobretudos estão fora de moda e há cavalheiros que espirram alegremente pela rua fora, nos seus fatinhos de lã fria (boa para meia-estação), com percentagem maioritária de acrílico, muito apertadinhos nos seus três botões — que me fazem frio a mim. Adolescentes de t-shirt e blusãozinho, de cabelo molhado e cieiro, também acontecem em Dezembro, protestando contra o país dos seus maiores, que esfriou de repente, como se o Inverno fosse uma metáfora para renas do círculo polar. Por isso, as autoridades alertam amarelo. Os portugueses foram educados no princípio de que o seu país se deve caracterizar como de clima temperado, quando a verdade é que nos calhou um clima desordenado, de Invernos frios e Verões calorosos, como convém. Mas não se habituam. As senhoras vestidas com uma blusinha e um pulôver andam pela rua fora, como Beyoncés domésticas, de ombros encolhidos e deformando a marreca, queixando-se do frio e murmurando contra a pátria e as temperaturas anticonstitucionais. Em pleno dia de chuva, ventania e descida de temperatura, há jovens senhoras que marcham, vestidas com uma blusinha e um pulôver (aquela coisa levezinha), destinadas ao cadafalso meteorológico, irritadas e de mau-humor. Estão de alerta amarelo. [...]»

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Domingo, Dezembro 13, 2009

CITAÇÃO, 233


Pedro Marques Lopes, Mártires da opinião, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhado meu:


«Não há colunista que se preze que não tenha feito seriíssimos apelos à responsabilidade. E muito bem. Não há nada pior do que a sensação de viver num país onde a impunidade impera. [...]

Corre, no entanto, uma interessante teoria que defende o princípio da inimputabilidade para quem escreve textos de opinião. Ou seja, designa-se um texto ou um comentário numa qualquer estação de rádio ou televisão como opinião, e está automaticamente passada uma espécie de autorização para se dizer tudo o que vem à cabeça. Não há qualquer tipo de limites.

Neste espaço, eu posso chamar ladrão a quem me apetecer, posso acusar qualquer cidadão dos mais terríveis e sórdidos crimes, posso pôr em causa a honra ou a probidade de alguém, posso inventar factos ou mentir descaradamente sem que tenha de me preocupar com as consequências das minhas afirmações.

É assim como uma espécie de inversão do ónus da prova só ao dispor dos opinadores. Curiosamente, ou talvez não, são estes os primeiros a exigir que todos os que são alvo da mais díspar acusação venham esclarecer o que quer que seja e também os que mais apelam a todo e qualquer tipo de responsabilidade. Dos outros, bem entendido.

Mas vamos imaginar que um ignorante, desconhecedor deste estatuto quase divino, resolve não gostar que lhe chamem corrupto, intrujão, ladrão ou pior e tenta, pelos meios à sua disposição, defender o seu bom-nome — escusado será dizer que as leis protectoras do bom-nome e da honra devem ser consideradas letra morta.

Bom, além de ser corrupto ou ladrão, o cidadão estará a exercer uma pressão ilegítima sobre o colunista, será um lenhador das raízes do pensamento, um energúmeno que não sabe conviver com a liberdade de expressão.

De um momento para o outro, o opinador passou para o panteão dos mártires da liberdade.

[...] Nós que escrevemos opinião somos o sal da terra, os puros, os bons, os honestos e ninguém nos pode pôr em causa.»

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SINAIS DE FOGO


Como prometido, a Guimarães começou a publicação das obras completas de Jorge de Sena (1919-1978) reeditando Sinais de Fogo, porventura o romance português mais importante do século XX. Relativamente à 1.ª edição, de Abril de 1979 (Edições 70), a actual perde dois textos fundamentais: a introdução de Arnaldo Saraiva a essa 1.ª edição, História de um Romance (Im)Perfeito; e o Prólogo em que o próprio Sena explica as razões, não de ter contado a história, mas do modo como a contou. Talvez se perceba a omissão do texto de Saraiva, mas a supressão do Prólogo é incompreensível. Nenhuma nota editorial dá conta do critério. Em contrapartida, uma longa introdução de Mécia de Sena, datada de 1983 e sucessivamente revista até 2002, expõe o contexto de factura da obra, sublinhando: «Mas não nos precipitemos em conclusões de ordem biográfica. Jorge de Sena, que a tudo (ou quase tudo) antecipadamente respondeu ou informou, não deixa este caso em aberto.» Recupera mesmo palavras do marido: «[...] e claro que, no plano da insinuação torpe, ou virtuosa (os extremos tocam-se), será possível adivinhar, de olho guloso, muita coisa nestas páginas. Isso me agrada muito, porque os amadores de escândalo poderão ocupar-se de mim [...] sem que eu precise de ocupar-me deles.» A nota biográfica de badana omite a trasladação dos restos mortais de Sena para Portugal. A edição foi revista por Dóris Graça Dias.

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O OGE DA OPOSIÇÃO


Tendo em vista o OGE para 2010, José Pedro Aguiar-Branco, líder parlamentar do PSD, aconselhou ontem o governo a fazer «uma análise do interesse nacional que seja coincidente com os resultados eleitorais». Então seria assim:

Para contentar o BE, o PCP e os Verdes, doze medidas:

— O período de vigência do subsídio de desemprego passaria para 60 meses.
— O valor do subsídio de desemprego corresponderia a 90% do último salário.
— O valor do salário mínimo seria actualizado para 500 euros em 1 de Março de 2010.
— O Estado seria obrigado a contratar (sem termo) 100 mil desempregados licenciados.
— As empresas com participação do Estado seriam obrigadas a contratar (sem termo) 20 mil desempregados licenciados.
— Todos os salários de valor igual ou superior a 5 mil euros seriam reduzidos em 10%.
— As pensões da Segurança Social e da CGA teriam um tecto de 3 mil euros.
— Os salários dos gestores públicos teriam um tecto de 10 mil euros.
— Os salários dos gestores privados de valor superior a 10 mil euros seriam onerados em 60% de IRS.
— A Banca veria a sua carga fiscal onerada em 100%.
— OS CTT, a PT, a GALP e a EDP seriam nacionalizadas.
— Ao atingirem 6 anos de antiguidade (seguidos ou interpolados), os professores ascenderiam ao topo da carreira.


Para contentar o PSD e o CDS-PP, doze medidas:

— Os vencimentos da Função Pública seriam congelados durante toda a legislatura.
— As progressões na Função Pública seriam congeladas durante toda a legislatura.
— A carga horária da Função Pública passaria para 40 horas semanais.
— Para garantir “Menos Estado, Melhor Estado”, seriam aposentados compulsivamente 40% dos efectivos da Função Pública.
— Nas empresas públicas ou com participação do Estado, seria imposto um tecto de 90 mil euros nos salários dos gestores.
— O valor actual do salário mínimo ficaria congelado durante toda a legislatura.
— Os grandes investimentos públicos (modernização do parque escolar, TGV, nova ponte do Tejo, aeroporto de Lisboa, autoestradas, etc.) seriam adiados sine die.
— Seria instituído o cheque-educação, de utilização interdita em seis colégios da área da Grande Lisboa, dois da área do Grande Porto, e Universidade Católica.
— Seria estabelecido um prazo de nove meses para privatizar o Serviço Nacional de Saúde.
— Seriam injectados 10 mil milhões de euros no BPP, antes de o devolver à anterior administração. [Sem Rendeiro, indicado para substituir Constâncio no BdP.]
— O BPN seria vendido, por ajuste directo, a Miguel Cadilhe, por meio milhão de euros.
— O programa e-escola seria suspenso ad aeternum.

Consta que Teixeira dos Santos vai nomear Luís Fazenda e Miguel Frasquilho como altos-comissários da Comissão de Acompanhamento do OGE.

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Sábado, Dezembro 12, 2009

NÃO NOS MASSACREM, DIZ ELE


A exemplo do que fizeram os governos inglês e francês, o governo português prepara-se para onerar os bónus atribuídos aos gestores da Banca. Para tanto, o OGE de 2010 irá prever tributação agravada. As pessoas comuns têm dificuldade em perceber que profissionais bem pagos (nunca menos de meio milhão de euros por ano; há quem receba o dobro), e com generosos benefits, ainda recebam, a título de bónus, retribuições extraordinárias de vários milhões. Fernando Ulrich, presidente do BPI, não concorda: «Não é preciso nada disto na Banca portuguesa. Estamos a falar de um problema inglês [em Portugal] temos mecanismos internos para controlar as remunerações. Estou farto de ser responsabilizado por esta bagunça toda. Esta crise é uma crise anglo-saxónica. Não nos massacrem. Deixem os bancos em paz. Deixem-nos trabalhar.» O BPI é um banco modelo? Ainda bem.

Eu não sei se isto é um problema anglo-saxónico. Sei que o BPN teve de ser nacionalizado para evitar a falência e o despedimento de cinco mil trabalhadores. E também sei que o BPP não pára de sugar os nossos impostos enquanto os Rendeiros da vida continuam a jogar golfe no Estoril e a fazer ski em Megève. Tão pouco esqueci a tranquibérnia do Millennium BCP no Verão de 2007. Por causa dela, vários banqueiros estão indiciados da prática de crimes. E o Banco de Portugal viu-se obrigado a nomear uma administração da sua confiança. Consultando as contas de 2006 do Millennium BCP, verificamos que os nove membros da sua administração auferiram um total de 26,8 milhões de euros, o que deu 2,97 milhões a cada um. Nesse mesmo ano, o CEO da Caixa Geral de Depósitos, Carlos Santos Ferreira, auferiu 349 mil euros. Quando Santos Ferreira assumiu a presidência do Millennium BCP, os salários da administração foram reduzidos a um terço. A isto, a direita chama controlo do PS sobre a livre iniciativa. OK.

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CITAÇÃO, 232


Vasco Pulido Valente, Obama e a paz, hoje no Público. O último parágrafo, sublinhado meu:


«[...] Por que consentiu Obama, apesar da oposição do vice-presidente, dos chefes do Estado-Maior Conjunto e de quase toda a Europa, em entrar num caminho que o levará necessariamente a reforçar os reforços, sem esperança, nem propósito? Porque o belicismo e o mito da invencibilidade da América não lhe permitem abandonar uma “causa”, proclamada patriótica e, mais do que isso, como ele repetiu em Oslo, exemplar, humanitária e justa. Um Presidente, mesmo que se chame Obama, não nega a ideologia do império. Até quando o império se desagrega e ele põe em perigo a reforma doméstica e um segundo mandato. Para não falar da paz no mundo.»

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Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

GENTE FINA É OUTRA COISA


No âmbito do Caso CTT, o Ministério Público acusou 16 pessoas de gestão danosa, branqueamento, participação económica em negócio e outros crimes. Em português: acusou-os de corrupção. Em causa, a venda de dois edifícios, um em Lisboa, outro em Coimbra. Prejuízo: 13,5 milhões de euros.

Um desses 16 arguidos chama-se Carlos Horta e Costa. Foi secretário-geral do PSD durante a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Foi nomeado presidente dos CTT em 2002, por decisão de Durão Barroso. Mas como, ao contrário de Armando Vara, Carlos Horta e Costa não nasceu em Vilar de Ossos, nem foi caixa de banco, nem almoça (I Presume!) com sucateiros, os media tratam-no como deviam tratar toda a gente: com respeito. Nada contra.

Lembrar a quem não se lembra: os edifícios em pauta foram vendidos sem concurso público, por decisão de Manuela Ferreira Leite, então ministra das Finanças. O de Lisboa estava avaliado em 20 milhões de euros, mas foi vendido por 12,5 milhões (o governo de Barroso queria receitas extraordinárias); o de Coimbra, que se vê na imagem, estava avaliado em 28,4 milhões de euros quando foi vendido duas vezes no mesmo dia: de manhã por 14,8 milhões, à tarde por 20 milhões. Quem denunciou a banhada foi o advogado António Marinho Pinto.

Aguardar as reacções indignadas (e os trocadilhos) dos bloggers da direita e dos articulistas anti-corrupção.

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O VENCEDOR FOI


Prémio Pessoa 2009: D. Manuel Clemente, bispo do Porto.

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O PRÉ-CHUMBO


Decorre neste momento na Assembleia da República a discussão do Orçamento Rectificativo. Sem tergiversar, Teixeira dos Santos acaba de assumir o erro (de previsão) do governo, respondendo aos deputados da oposição com meridiana clareza. Em princípio, o diploma será viabilizado pela abstenção concertada do PSD, CDS-PP e PCP.

Em Bona, no Congresso do Partido Popular Europeu, Manuela Ferreira Leite esclareceu que o PSD pode chumbar o OGE para 2010. Nenhuma surpresa. Para evitar mudança de direcção, o PSD precisa de adiar as directas para depois de uma hipotética reconfiguração parlamentar. Há, portanto, que provocar eleições antecipadas. Instrumento óbvio: o chumbo do OGE. A ver vamos quem ri por último.

Nota importante: o ministro das Finanças confirmou o propósito de divulgar hoje a decisão do governo relativamente ao destino do BPP. No fim do debate se saberá o que vai acontecer ao banco.

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OS DABNEY


Hoje no Público:


Quem foram os Dabney? Que importância teve esta família americana na vida açoriana do século XVIII? Tudo começou quando o Congresso americano nomeou John Bass Dabney (1766-1826) como vice-cônsul no Faial. Desde 1804 que a história dos Dabney se confunde com a da ilha, numa época que não podia ser mais caótica: invasões napoleónicas, transferência da corte portuguesa para o Brasil, guerra anglo-americana, revolução liberal.

Os Anais da Família Dabney no Faial estão compilados em três volumes, tendo sido impressos em 1899 por iniciativa de Roxana Lewis Dabney (1827-1913), que os intercalou com «comentários que procuravam explicar às novas gerações as personagens e as histórias passadas no então longínquo arquipélago.» Há três anos, o Instituto Açoriano de Cultura (IAC) mandou traduzir e publicou os Anais. O presente volume corresponde a uma breve antologia. A partir das 1797 páginas do original, Paulo Silveira e Sousa, responsável pela selecção, organização e notas, coligiu 540, mantendo a tradução do IAC. Maria Filomena Mónica prefaciou.

John Bass Dabney, remoto descendente dos d’Aubigné, não era um diplomata de carreira. Conseguiu o lugar de vice-cônsul porque a família tinha acesso fácil ao presidente Jefferson. Na realidade, foi um aventureiro bem sucedido, a quem o “exílio” acrescentou singularidade. Nenhum preconceito no juízo. Um huguenote que atravessa o Atlântico, em 1794, em plena revolução francesa, trocando a Virgínia pela França, com o propósito de comerciar, conseguindo, ao fim de pouco tempo, ser co-proprietário de doze navios que ligavam a Europa às Caraíbas e aos Estados Unidos, não era exactamente o protótipo do cavalheiro. Não obstante, no prefácio, Maria Filomena Mónica fala dele como de um “brâmane” de Boston. A guerra tem razões que o comércio nem sempre domina, e John Bass foi obrigado a mudar-se de Bordéus para os Açores. A neutralidade portuguesa na guerra anglo-americana foi um factor decisivo. No Inverno de 1804 estava na Horta. A mulher e os filhos chegaram em 1807.

Sessenta anos mais tarde, ainda Mark Twain descrevia a ilha e os indígenas deste modo: «Esta comunidade é fundamentalmente composta por portugueses, quer dizer, é vagarosa, pobre, parada, adormecida e preguiçosa. [...] Qualquer português que se preze benze-se e reza a Deus para que o livre de qualquer desejo blasfemo para saber mais do que o seu pai.» O futuro autor de Adventures of Huckleberry Finn (1884) fez escala no Faial a caminho da Palestina.

Verdade que os Dabney adoptaram a ilha como território seu até praticamente ao fim do século. O consulado americano manteve-se na família durante três gerações: o avô (John Bass), o filho (Charles William) e o neto (Samuel Willis). Por sua iniciativa, vários americanos ilustres visitaram o Faial. Nos primeiros anos, a adaptação foi difícil. Em privado, os Dabney ridicularizavam os morgados das ilhas. A dieta local era execrada: «Põem vinagre ou limão nos guisados, e até nas sopas. O pão, a coisa mais execrável que alguma vez foi provada...» Aparentemente, a justiça funcionava bem. Isso mesmo decorre da correspondência de John Bass. O Faial ficou a dever aos Dabney a introdução de regras modernas de comportamento, espécies botânicas, maquinaria e o hábito do desporto e da vida ao ar livre. Os últimos Dabney a abandonar a ilha só o fizeram em 1892.

Paulo Silveira e Sousa, responsável pela edição, explica a razão de ser da antologia: «fazer chegar ao grande público uma obra que, devido à sua extensão, ficaria relativamente ignorada.» Para tanto, manteve a cronologia, eliminou repetições e deu particular atenção às relações da família com a sociedade açoriana, as comunidades estrangeiras e a rede de negócios: navegação, pesca da baleia, exportação de vinho e laranja, importação de quase tudo, etc. Não é, faz notar, uma edição crítica.

No essencial, a obra de Roxana Lewis Dabney é uma compilação de correspondência entre membros da família Dabney, conhecidos e autoridades, cobrindo um período que excede o dos Anais (1806-1871), pois tem início em 1785. O pretexto foi um esboço de biografia de seu avô Charles William, o filho de John Bass, o “pioneiro”. As notas de Silveira e Sousa são preciosas para o estabecimento de nexos e melhor compreensão das personagens em análise. Além de índice remissivo e genealogia dos Dabney, um portfolio fotográfico completa o volume.


Os Pioneiros, in Ípsilon, 11-12-2009, p. 51. Três estrelas e meia.

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CITAÇÃO, 231


Ana Vidigal, Ao lado de um palhaço pobre... / há sempre um palhaço rico

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QUEM SERÁ?


Faltam menos de 12 horas para ser conhecido o vencedor do Prémio Pessoa 2009. Enquanto não se sabe quem é (os onze membros do júri estão fechados em Seteais), fica a lista dos vencedores precedentes:


1987 — José Mattoso, historiador
1988 — António Ramos Rosa, poeta
1989 — Maria João Pires, pianista
1990 — Menez, pintora
1991 — Cláudio Torres, arqueólogo
1992 — António Damásio e Hanna Damásio, investigadores na área da cartografia cerebral, ex aequo
1993 — Fernando Gil, filósofo
1994 — Herberto Helder, poeta (não aceitou o cheque)
1995 — Vasco Graça Moura, poeta e tradutor
1996 — João Lobo Antunes, neurocirurgião
1997 — José Cardoso Pires, romancista
1998 — Eduardo Souto Moura, arquitecto
1999 — Manuel Alegre, poeta, e José Manuel Rodrigues, fotógrafo, ex aequo
2000 — Emmanuel Nunes, compositor
2001 — João Bénard da Costa, director da Cinemateca Portuguesa
2002 — Manuel Sobrinho Simões, investigador na área da oncologia
2003 — José Gomes Canotilho, constitucionalista
2004 — Mário Cláudio, escritor
2005 — Luís Miguel Cintra, actor e encenador
2006 — António Câmara, investigador na área das tecnologias de informação
2007 — Irene Flunser Pimentel, historiadora
2008 — Carrilho da Graça, arquitecto

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Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

O MEDINA DELES


Para combater o défice público de 11,7% — o qual, em 2014, não poderá ultrapassar 2,9% —, Brian Cowen, primeiro-ministro da Irlanda, reduziu em 10% os salários dos professores, enfermeiros e polícias. Também reduziu as prestações da segurança social, o subsídio de desemprego e os abonos de família. O seu próprio salário é reduzido em 20%, e os dos ministros em 15%. Os impostos vão subir. Como se sabe, a Irlanda tem a maior recessão da zona euro, um decréscimo de 8% no PIB, e o sistema bancário à beira do colapso. Pensar que há três anos ainda era o país-modelo da UE.

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