sexta-feira, Abril 11, 2014

PÁSCOA TEUTÓNICA

 
Até já. Clique na imagem.

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terça-feira, Abril 08, 2014

OS BURGUESES

 
Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa acabam de publicar Os Burgueses. Quem são, como vivem, como mandam. Podemos seguir a passo os percursos dos 776 membros de todos os governos constitucionais, bem como «a sua cooptação pelas principais empresas financeiras...»; a vida social das mil pessoas que «mobilizam em seu redor uns trezentos mil empresários...»; o articulado sistema de alianças e casamentos; as grandes sociedades de advogados; modos de habitar e segregação social; território e tiques de classe; os colégios de elite; o poder face à justiça; o exercício da autoridade; a conivência dos media; as ligações angolanas, etc. Não faltam sequer «cenas da vida burguesa...» Em 533 páginas, os autores fazem a radiografia do país. Além de biografias dos principais visados, o volume inclui gráficos, extratextos, mapas, retratos e outro tipo de iconografia. Imprescindível.

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segunda-feira, Abril 07, 2014

EDUARDO LOURENÇO LÊ SÓCRATES


A nova edição de A Confiança no Mundo, de José Sócrates, inclui um posfácio inédito de Eduardo Lourenço e, na capa, Guantánamo 1, obra de Júlio Pomar. Clique na imagem. Pode ler o texto em baixo. Os sublinhados são de minha responsabilidade.

Epígrafe do posfácio  —  Acontece no entanto que em virtude do seu livre arbítrio as inteligências repudiam a luz inteligível, que o seu desejo amoroso do malas leva a fechar os olhos da inteligência a quem foi dado naturalmente o poder de receber a iluminação.
Pseudo-Dionísio Aeropagita, Século VI

«Esta insólita evocação de “um desejo amoroso do mal” como fonte de tudo aquilo que nomeamos e sofremos como denegação da nossa essência de seres com capacidade de separar o Bem do Mal, deve-se ao pai da mística ocidental, o neo-platónico Pseudo-Dionísio, tido por engano como contemporâneo de S. Paulo. Esta sua visão é a quinta essência da leitura grega do mundo. Não contradiz a versão poético-mítica do relato bíblico da Queda, toda em imagens e cenas vividas entre a escolha de Eva e o crime de Caim. Sob o exemplo de um Platão cristianizado, supõe um drama celeste entre “espíritos”, puras “inteligências”, que disputam entre elas o domínio da Criação. É um cenário fantástico que, desde Anatole France e a sua “revolta dos anjos” até à sua versão pós-moderna cultivada por Hollywood, nunca perdeu nem actualidade nem interesse. Essa leitura da realidade do Mal como obra do “pensamento” que misteriosamente se deixa seduzir por aquilo mesmo que nega a sua vocação luminosa e iluminante, parecerá delirante ou escandalosamente inadequada ou excessiva para abordar o escândalo nada teórico, nem metafísico, nem místico, que a prática humana “da tortura” que o antigo Presidente do Brasil Lula da Silva, prefaciador desta obra, evoca com pertinência como “velha chaga que acompanha a história da humanidade há séculos e séculos”. Com pertinência mas também com relutância, tão intolerável e até anacrónico lhe parece, e a justo título, que essa “velha chaga” continue supurando ainda neste nosso mundo herdeiro das Luzes e suas libertadoras utopias.

A questão da tortura no mundo actual é tratada pelo nosso antigo Primeiro-Ministro numa perspectiva assumidamente política, sociológica e cultural, não apenas como uma realidade e um escândalo ético de um passado imemorial em perpétua repetição, mas como escândalo e contradição ética intolerável na perspectiva de uma ordem propriamente democrática tal como orgulhosamente algumas das nações mais ilustres — e ilustradas — do nosso mundo contemporâneo quase miticamente a apresentam. Isto confere ao ensaio do Engenheiro José Sócrates não só um alcance político óbvio mas para além dele uma função problematizadora da própria mitologia democrática sob a qual, em princípio, assenta a ordem ideal da chamada Civilização Ocidental e não só.

Uma problematização tão radical do estatuto democrático se não da Humanidade, de uma parte dela, tão penosamente conquistado, parecerá — ou pareceria — excessivo se a sua exigência não fosse acompanhada, como é o caso, de apresentar, desejar e exigir como incompatível precisamente com ele aquela espécie de acto por excelência que nós condenamos — e é, sob que pretexto for, aquilo que designamos e, sobretudo, praticamos — como sendo a tortura. A tortura não é a única expressão do que, a todos os títulos, define o campo do Inumano. Mas é aquele acto por excelência que se assume como pura vontade do Mal, quer dizer, da negação do estatuto do Outro como outro. Talvez até mais do que tudo — tanto o Mal puro nos é inacessível — só aquele que é acompanhado pelo prazer do mesmo acto que anula o outro e em que nós nos anulamos suprimindo inocentemente a nossa essência humana.

Há quase dois séculos Antero de Quental descreveu a História como uma Penélope sangrenta. Foi quase na aurora do triunfo da Democracia parlamentar e mesmo da ideia socialista. E ainda da época das Luzes de onde uma nova visão do destino colectivo emergia. A tortura, no sentido da prática “normal” para obter dos acusados, com razão ou sem ela, a confissão dos seus crimes efectivos ou opiniões contrárias à crença comum, tinha encontrado em Beccaria o discurso humanizante e humanizador que até então lhe faltara.

Na perspectiva da justiça o uso da tortura é ao mesmo tempo um instrumento para punir “o mal” e publicitar a exemplaridade do castigo. É já então um espectáculo e uma festa incomparável. Não era só nos países da Inquisição que a tortura era uma festa. Lembremo-nos da justiça no tempo de Sansão e dos Távoras.

Tudo isto é sabido e em princípio esquecido pelos tempos mais próximos de nós que “paradoxalmente” em termos de memória e prática eram, por assim dizer, tempos cruéis e de imemorial crueldade. Só com o triunfo das Luzes, na ordem justa e das ideias (abolição da pena de morte na Europa, mas não nos Estados Unidos), a antiga época da tortura como meio normal de indagar e punir a virtual ofensa ao código civil, pareceu relegada, como diz o autor deste ensaio, para a História. Impressão apenas. Na verdade, o buraco negro da era totalitária foi a autêntica “época de ouro”, se assim se pode dizer, da denegação de toda a ordem jurídica e do reino visível e invisível de uma tortura universal. Entre o que se passou nos campos de concentração nazis e nos da Sibéria ou de Pol Pot, todas as ficções torturadoras e torturantes da máquina sonhada por Kafka tiveram ocasião para se encarnar.

De novo, verdadeiramente, se nisto há novidade, são os fenómenos, melhor seria dizer a tragédia americana ou francesa, de um recurso à tortura para fazer face, não a um inimigo tradicional, como nas duas guerras mundiais, mas a um novo inimigo, ainda em acção, que de fora do sistema pôs em causa o Ocidente e ainda não desistiu de o fazer. Só o caso da Argélia é ainda clássico, na medida em que se integra no mais vasto fenómeno da descolonização ocidental. É então que o regressivo apelo à tortura, na Argélia, primeiro, e mais tarde no 11 de Setembro, marcará o ponto alto da nova era da tortura em “defesa”, ao menos na intenção, da Democracia.

É a esta epopeia negativa e lamentável, contrária às suas histórias, que a França, primeiro, e os Estados Unidos depois — e ainda agora — (sempre em nome de nobres razões) acrescentaram a contraditória e imperdoável aventura de franquear o Rubicão da cultura ocidental, que separava até hoje claramente a cultura democrática mítica de que se reclamam da mais clássica barbárie. Sem nenhuma justificação ética, nem metafísica, nem política, por mais sofisticada que se queira ou se apresente, capaz de justificar o injustificável.

Com actualizada argumentação histórica, jurídica, em função do código democrático que quase miticamente se confunde com as suas imagens de marca ideológica, nem a França, antiga matriz da Revolução, em nome dos famosos e sacralizados Direitos Humanos, nem os Estados Unidos, em nome de um estatuto de rebelião fundadora da sua independência nacional, o nosso antigo Primeiro-ministro faz o processo dessa paradoxal regressão no seio mesmo das nações-santuários da Democracia ocidental, a par da Inglaterra. É certo que nem em França, no episódio dramático da guerra na Argélia, nem nos Estados Unidos, quer antes, quer sobretudo depois do 11 de Setembro, pecaram ciente e colectivamente, como em tempos o fizera a Alemanha hitleriana ou a União Soviética. A “luz” nunca de todo se apagou nesta insuportável noite da razão (não apenas em perspectiva iluminis-ta, mas absoluta na ordem ética, para não falar da religiosa que durante milénios estruturou a nossa história de ocidentais).

Paradoxalmente é por isso mesmo que o escândalo, ético e quase metafísico, do recurso à eterna tentação de pactuar com o uso da tortura, é da ordem da abominação e da denegação prática e ideal da democracia, sem que precisemos do fazer dela uma utopia contrária à sua essência e aos seus fins.

Com razão o nosso autor inclui Montaigne entre os primeiros pensadores que numa ética meramente profana — sem se reivindicar ainda de uma perspectiva já iluminista como Kant — resumiu o traço humanístico (ou simplesmente humano) da nossa “condição” como o bem próprio não de qualquer estatuto privilegiado dessa mesma condição, mas pelo facto de ser a essência da nossa humanidade e da sua universalidade. “Cada homem é a condição humana na sua integridade.” Esta é a linha vermelha que separa todo o respeito que se deve a essa “identidade” universal e particular ao mesmo tempo, de todas as tentações de a converter em “objecto” sobre o qual qualquer ser humano creia ter direitos.

Dessas tentações — em democracia ou fora dela — mas a democracia com um suplemento de incoerência mortal — a do uso da tortura é a mais inumana. Denunciar abstractamente o seu uso não é pequeno mérito. Não isentar dele os actores mesmos que ocasionalmente violaram ou violam ainda o pacto democrático que por excelência a exclui e a si mesmo se nega, é mais arriscado. E por isso mesmo mais meritório. Não é um combate contra um inimigo imaginário. A Humanidade nunca esteve nem está para além do Bem e do Mal. Essa divisão é o enjeu da pulsão definidora do que nós somos como seres livres responsáveis pelo que nos perde ou misteriosamente nos salva. A História — se este fantasma existe como auto-retrato da nossa alma, pessoal ou colectiva — é um eterno e nunca gasto combate para separar em nós e no mundo o que nos humaniza do que nos remete para a condição impensável mas nunca extinta do inumano. A barbárie — e entre ela a que a “tortura” exemplifica — é só a prova do que nos custa estar à altura da nossa vocação de superar a inumanidade de que somos parte e nos tornar os “meros seres humanos” que nos propomos ser

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quinta-feira, Abril 03, 2014

MARIA MANUEL VIANA

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana (n. 1955), autora que chegou tarde à edição, coisa diferente de chegar tarde à literatura, mas cinco livros em doze anos dão notícia de alguém que soube recuperar o tempo perdido. Teoria dos Limites mantém a tensão narrativa em bom ritmo e, por vezes, deixa o leitor sem fôlego. Não se julgue que é um romance de tese. O plot tem momentos deveras mordazes: o Pigmalião doméstico e suas Lolitas, cada uma mais burra e mais lenta que a precedente; o trocadilho concretista com o néon da exposição de Gilda; mulheres que se masturbam a meio de uma conversa; o urso de pelúcia de A. A. Milne na boca de um poeta português; regras do mandarinato, o princípio da razão suficiente e as “entidades mentais” a que o bibliotecário do duque de Brunswick chamou mónadas, mais a Glasnot soviética. Verdade que Olga, Hervé, Martin e Carole não estão aqui, mas lembrei-me dos Samurais da Kristeva e das razões do determinismo. Em pano de fundo, primas, tias, gente anónima, críticos e jornalistas afoitos querendo que a posteridade os veja no enterro do Escritor que se isolou do mundo antes de concluir «a escrita do livro em que trabalhava nos últimos tempos...» O romance vai buscar o título a essas oito páginas e divide-se em três partes: O que não pode ser dito / O que talvez seja dito / O que irá ser dito. E dois epílogos. No primeiro, a dúvida: Blanchot e Barthes, qual dos dois «quis escrever o romance definitivo»? Surgem aí as páginas fac-similadas (é maneira de dizer) do original do Escritor. Decerto Leibniz, filósofo e matemático, aprovaria as equações. No segundo, família e tribo mediática em marcha fúnebre. Romance monádico? A imagem da capa é de João Vilhena, a partir de uma obra do pré-rafaelita John Everett Millais.

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O REGRESSO A CASA


Hoje temos Pinter no Teatro Nacional D. Maria II  —  O Regresso a Casa. Sexo poder e luta na escrita exacta de Pinter. Uma produção dos Artistas Unidos em parceria com os teatros nacionais de Lisboa e Porto. No palco, João Perry, Rúben Gomes, Maria João Pinho, Elmano Sancho, João Pedro Mamede (imagino que no papel de Joey) e Jorge Silva Melo. Cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves. Pedro Marques traduziu. Encenação de Jorge Silva Melo. A estreia é logo à noite.

Harold Pinter (1930-2008), dramaturgo e poeta, Nobel da Literatura em 2005, também foi encenador e actor, tendo nos anos 1950 actuado com o pseudónimo de David Baron. The Homecoming foi escrito em 1964 e representado pela primeira vez em 1965. O texto está editado pela Relógio d’Água.

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terça-feira, Abril 01, 2014

JACQUES LE GOFF 1924-2014


Morreu hoje o medievalista francês Jacques Le Goff, o historiador que “reabilitou a imagem da Idade Média europeia”. Deixa uma obra muito vasta (cerca de cinquenta títulos), iniciada em 1957 com Les Intellectuels au Moyen Âge. Em 2011, com À la recherche du temps sacré, Jacques de Voragine et la Légende dorée, cessa a bibliografia publicada. Dirigiu os Annales a partir de 1969 e a École des Hautes Études en Science Sociale a partir de 1975. Em Portugal, os seus livros estão publicados pelas seguintes editoras: Almedina, Bertrand, Edições 70, Estampa, Estúdios Cor, Gradiva e Teorema. Tinha 90 anos.

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VALLS EM MATIGNON


Estava escrito nas estrelas: Manuel Valls chegou a Matignon. O próximo passo será o Eliseu. Ninguém diria que Hollande fosse adepto de roleta russa, mas não há outra explicação. Escolher para primeiro-ministro alguém que, enquanto ministro do Interior, se distinguiu pelo endurecimento das leis da imigração, obrigando à deportação de ciganos romenos, é um jogo arriscado. Dois ministros oriundos do EELV (o partido ecologista) que faziam parte do executivo de Jean-Marc Ayrault, já se demitiram. O mais certo era Valls correr com eles. A ver vamos o conjunto da nova equipa. Em França, a figura do primeiro-ministro é secundária. Suspeito que Valls, o mais direitista dos notáveis do PS francês, vá mudar o paradigma.

Manuel Carlos Valls tem 51 anos, nasceu em Barcelona e a família emigrou para França em 1967. Em 1980 aderiu ao PS e dois anos depois era cidadão francês. Membro da Assembleia Nacional, foi presidente da Câmara de Évry durante onze anos (2001-12). Toda a vida viveu rodeado de artistas: o pai, Xavier Valls, era um famoso pintor catalão; a primeira mulher, e mãe dos seus quatro filhos, é irmã de Aurelio Galfetti, um conhecido arquitecto suíço; a segunda e actual mulher é a violinista Anne Gravoin.

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segunda-feira, Março 31, 2014

A DÉBÂCLE

 
A França ficou assim. Hollande sacrificou Jean-Marc Ayrault, o primeiro-ministro, como se isso mudasse alguma coisa. O PS perdeu 151 municípios importantes, ponto. O aspecto positivo é que, até prova em contrário, a implantação da FN foi uma construção das sondagens e da atracção dos media dominantes por soluções autoritárias. É verdade que o partido de Marine Le Pen conseguiu ficar à frente de oito municípios com mais de dez mil habitantes, mas o que estava anunciado era esse número a multiplicar por trinta. Não é a primeira vez que vimos esse filme. Clique na imagem.

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HIDALGO CONQUISTA PARIS

 
Apesar da débâcle, o PS francês conserva Paris graças à vitória (53,35%) de Anne Hidalgo, que derrotou a candidata da UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet (44,04%). Hidalgo torna-se assim a primeira mulher a governar a capital francesa. Durante treze anos (2001-14), foi primeira adjunta do maire Bertrand Delanoë, primeiro com o pelouro da Igualdade, a partir de 2008 com o do Urbanismo e Arquitectura. É portanto alguém que conhece bem o Hôtel de Ville de Paris. Mas Hollande não pode ignorar a onda azul que cobre a França de Norte a Sul. É fraco consolo saber que a FN de Marine Le Pen não conseguiu mais que o quinto lugar (oito municípios), não tendo, contra as sondagens, conquistado Marselha, onde a UMP obteve maioria absoluta. 

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sábado, Março 29, 2014

CITAÇÃO, 489


José Pacheco Pereira, O país que “vivia vida de rico”, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«Falando num debate corporativo, Vítor Bento, economista, conselheiro de Estado, disse, no mesmo dia em que novos dados sobre a gravidade do empobrecimento dos portugueses vieram a público, que “o país empobreceu menos do que parece. O país já era pobre, vivia era com vida de rico” [...] Deixo de barato a questão do sujeito da frase, esse perverso “nós”, que nos iguala a todos diante do professor com a palmatória na mão, mas volto-me para o que, nesta tese, é revelador dos discursos situacionistas dos nossos dias. Para além do desprezo e da nonchalance de falar assim do “empobrecimento” dos outros, e que tem entranhada uma condenação moralista dos maus hábitos dos portugueses, estes homens virtuosos como Vítor Bento dizem-nos coisas reveladoras. [...]

Desde quando é que os portugueses foram “ricos”? Quantos portugueses fizeram, como ele diz, “vida de rico”? Quando é que se viveu uma “riqueza que era aparente”? Em 2005, quando Sócrates começou a cortar o défice, com um aplauso hoje esquecido? Em 2004, no rápido reino de Santana Lopes quando anunciou ao Frankfurter Allgemeine que vinha aí a “retoma”, o “fim da crise”, a “economia a recuperar”, “todos os sinais são bons” e “nova baixa de impostos”? Em 2002, quando estávamos de “tanga” e ou era ou estradas ou criancinhas? Nos anos de Guterres, onde se distribuiu o bodo (como aliás com Sócrates) aos mesmos empresários e banqueiros que louvaram esses governos com a mesma intensidade com que louvam o actual? No tempo de Cavaco Silva e dos milhões que chegavam todos os dias? Ou desde o 25 de Abril, em que se perdeu o respeito pelo ouro das caves do Banco de Portugal? Estamos a falar de Portugal?

Mas de que “riqueza” é que estamos a falar? Não é a dos ricos da Forbes. Eu sei o que é a “vida de rico” a que ele se refere, quer àquela que serve para ilustrar o moralismo do discurso, quer àquela que verdadeiramente o preocupa. [...] a “vida de rico” inclui também comprar o Expresso aos sábados, ter televisão por cabo, ser sócio do Benfica e ir aos jogos, ir ao restaurante de vez em quando, comer marisco, comprar livros do José Rodrigues dos Santos, ter expectativas europeias, de ser como os franceses que se vêem nos filmes, ter um carro, mandar os filhos à universidade e ser parte da muito escassa opinião pública.

Ou seja, fazer parte da primeira geração em Portugal que já não tem memória directa da enorme pobreza rural que os seus pais e avós ainda conheceram, que beneficiou do elevador social que foi a educação e o Estado (sim o Estado que, em todos os países democráticos, tem essa função de criar uma classe média... nem que seja para servir de tampão entre os proletários e os milionários. Perguntem ao Bismarck.) e que representa... a única, débil e, pelos vistos, precária modernização de Portugal. Ou, para quem abomina o termo modernização, a primeira geração que acedeu aos padrões de consumo, que a pequena burguesia europeia, a chamada “classe média baixa”, já tem há muitos anos. [...]

A legitimação do ataque a salários, pensões e reformas, do quase confisco administrativo e fiscal do rendimento das pessoas e das famílias, da facilitação do despedimento para criar um exército de mão-de-obra barata, enquadra-se na ideia de que é aí que está a “riqueza aparente” que uma sã economia não pode tolerar, primeiro porque as pessoas consomem mais do que o que devem, depois porque é preciso baixar os salários para o “custo” da mão-de-obra ser “competitivo”. Atacar essa “riqueza” inexistente para abrir caminho à absoluta necessidade da pobreza, é um instrumento político, e é uma ideia sobre Portugal e os portugueses.

Por isso, esperem por mais, porque se “o país empobreceu menos do que parece”, é porque ele ainda não empobreceu tudo o que podia e devia. E a receita que vem aí é óbvia, é tornar permanente os cortes de salários e pensões, para que o tempo actue todos os dias tornando as pessoas e as famílias insolventes, endividadas perante credores muito mais hostis, incapazes de gerir a sua situação e a sua vida, e os que não podem emigrar ficarem por aí aos caídos ou à porta de qualquer banco alimentar. Sem estes portugueses poderem viver aquilo a que Bento chama com desprezo “vida de ricos” ou aceder a ela, sem esses portugueses restaurarem uma escada social que permita a pobreza não se tornar num gueto, e haver uma classe média que puxe para cima, não há saída para Portugal.»

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DESDE A MEIA-NOITE PASSADA


David Cameron foi claro: «When people’s love is divided by law, it is that law that needs to change E a lei mudou.

À meia-noite, entrou em vigor na Inglaterra e no País de Gales a lei que autoriza o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As conservatórias do registo civil permaneceram abertas de madrugada, porque dezenas de casais quiseram casar imediatamente. Nick Holtam, bispo de Salisbury, também não teve medo das palavras: «O casamento entre pessoas do mesmo sexo encarna as virtudes que a Igreja da Inglaterra quer ver interiorizadas pela sociedade.» Hoje, num gesto simbólico, vários edifícios públicos terão içada a bandeira do arco-íris. A Igreja Anglicana não se opõe formalmente à lei, embora proíba os seus sacerdotes de casarem com parceiros do mesmo sexo.

A lei foi aprovada no Parlamento a 5 de Fevereiro de 2013, por 400 votos a favor e 175 contra, e também autoriza a adopção de crianças por casais gay. A sua passagem pela Câmara dos Lordes, onde recebeu luz verde, fez com que só agora entrasse em vigor.

A Inglaterra e o País de Gales juntam-se assim à África do Sul, Argentina, Bélgica, Canadá, Cidade do México, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Islândia, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Suécia e Uruguai, bem como aos seguintes estados americanos: Califórnia, Connecticut, Delaware, Hawaii, Illinois, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, New Hampshire, New Jersey, Nova Iorque, Rhode Island, Vermont e Washington (não confundir com Washington DC). Em Novembro próximo será a Escócia.

[Na imagem, Andrew Wale e Neil Allard, um dos primeiros casais a celebrar o casamento quando passava um minuto da meia-noite. Foto de Luke MacGregor. Clique.]

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sexta-feira, Março 28, 2014

DANOS COLATERAIS


Apanhando o governo de surpresa, o secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, organizou anteontem de manhã um briefing com vários jornalistas. O encontro serviu para esclarecer os media acerca de legislação que visa tornar definitivos, com efeitos a partir de Janeiro de 2015, os actuais cortes nos salários dos funcionários públicos, bem como nas pensões da CGA e da Segurança Social. Tal legislação seria aprovada no próximo dia 31, em conselho de ministros extraordinário. A meio da noite, a pretexto do funeral oficial de Adolfo Suárez, cerimónia onde o governo se fará representar ao mais alto nível, circulou a informação de que o conselho de ministros extraordinário seria adiado.

José Leite Martins, inspector-geral de Finanças desde 2004, não é um desses rapazes que chegaram ao governo pela tômbola da sorte. É alguém que conhece bem a máquina do Estado: foi director do departamento de assuntos jurídicos do MNE entre 1994 e 2000 e chefe de gabinete do primeiro-ministro Durão Barroso entre 2002 e 2004. Em suma, não parece que tenha organizado o briefing sem pensar nas suas consequências. Os jornalistas retiveram a garantia de que... «não haverá reduções adicionais de rendimento dos reformados em Portugal.» Afinal, o mesmo que garantira o líder parlamentar do PSD.

À hora do briefing, Passos Coelho estava em Maputo, a ministra das Finanças em Washington, e Poiares Maduro desconhecia o que se passava. Ao ser informado, Passos Coelho não escondeu o desagrado. Portas, idem. Na Gomes Teixeira, a avaliar pela reacção de Luís Marques Guedes («Isto é manipulação»), o governo parecia à beira de um ataque de nervos. Hoje, a imprensa económica não poupa o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares.

No Económico, Bruno Proença escreve:

«[...] Luís Marques Guedes, usa da velha táctica: dispara sobre os jornalistas. A estratégia de matar o mensageiro não resulta. Desde logo porque é óbvio para todos a incompetência do Governo na condução dos processos políticos. Não há coordenação no Executivo. Percebeu-se ontem que ninguém sabe o que se anda a passar nos ministérios, nem sequer o primeiro-ministro. Portanto, antes de atacarem os jornalistas, organizem-se. Sejam profissionais. Para que servem as dezenas de assessores, adjuntos, secretárias e chefes de gabinete que estão ao serviço do Governo e pagos com os nossos impostos? Trabalhem mais e melhor. Mas ainda mais importante, é a questão substantiva. O Governo tem problemas de comunicação porque tem dificuldades em falar a verdade. Prefere as meias verdades, os jogos de sombra, as medidas apresentadas aos bocados e mal explicadas, tudo especialidades do ministro Marques Guedes. [...]»

O governo está preocupado com o «alarmismo injustificado» provocado por Leite Martins. Injustificado? Entretanto, o PS quer ouvir (e muito bem) o secretário de Estado da Administração Pública no Parlamento.

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quarta-feira, Março 26, 2014

QUE FAZER COM ESTE CARRO?

 
No âmbito das facturas convertidas em cupões de dez euros, a Autoridade Tributária vai sortear, até ao fim do ano, 41 automóveis da marca Audi. Os sorteios semanais contemplam trinta e nove Audi A4 de 136 cavalos, ao preço unitário de 28.300 euros, e dois Audi A6 de 177 cavalos, ao preço unitário de 36.200 euros. Face à Portaria que regula estes sorteios, a AT decidiu investir menos 28% no modelo mais barato e menos 30% no mais caro. Poupar é preciso, diz a Dona Teodora.

E depois o que é que uma família de classe média-média faz com viaturas deste calibre? Põe à venda no OLX a um terço do preço? Não aceita o carro? (Está prevista a opção de ficar de fora do sorteio, mas não a de não-aceitação.) Endivida-se para pagar os seguros correspondentes a esta gama? Ninguém pensou no pós-Audi? Segundo o Expresso, os encargos mensais com o A4 e o A6 rondam os 315 e 365 euros, respetivamente.

Não estou a falar de desempregados, pensionistas, emigrantes, trabalhadores rurais ou de salário mínimo ou de recibo verde. Estou a falar de classe média-média urbana.

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POBREZA JOVEM

 
Piores que os gregos. É obra! Imagem do Público. Clique.

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terça-feira, Março 25, 2014

OS RAPAZES DOS TANQUES


Quem foram os homens que na manhã de 25 de Abril de 1974 estiveram frente a frente, dentro de tanques, com o dedo no gatilho? Um deles, José Alves Costa, cabo apontador, recebeu instruções para disparar sobre Salgueiro Maia e desobedeceu à ordem directa de um brigadeiro. Trancou-se dentro do blindado M47 e não fez nada. Assim ajudou a mudar a face do país. Salgueiro Maia disse mais tarde que foi naquele momento que se ganhou o golpe.

Esta e outras histórias dão corpo ao livro Os Rapazes dos Tanques, fotografias de Alfredo Cunha e entrevistas de Adelino Gomes. O lançamento é hoje à tarde (18:30) no Torreão Poente do Terreiro do Paço, em Lisboa. Carlos Matos Gomes, autor e historiador militar, membro do Movimento dos Capitães, e o sindicalista Amílcar Coelho, apresentam a obra. Duzentas páginas para a História.

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segunda-feira, Março 24, 2014

PONTO FINAL


Ao cabo de dezasseis dias fez-se luz: «É com grande tristeza e lamento que somos obrigados a concluir, sem margem para dúvidas, que o vôo MH370 se despenhou no oceano Índico e nenhuma das pessoas que estavam a bordo sobreviveu.» Palavras do primeiro-ministro da Malásia, hoje.

Como os familiares dos 239 ocupantes do avião têm acesso à Internet, a milhares de blogues e às redes sociais, é de prever que grande parte deles esteja a matutar na versão suja do acontecido.

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LA DOUCE FRANCE

 
Com uma abstenção de 40%, a primeira volta das autárquicas francesas não foi o terramoto anunciado pelas sondagens, mas a Frente Nacional de Marine Le Pen ficou em primeiro lugar numa dúzia de cidades importantes. E em Hénin-Beaumont nem sequer será necessária segunda volta: o candidato da extrema-direita (Steeve Briois) obteve mais de 50% dos votos. Em Marselha, a cidade mais importante e mais populosa de França a seguir a Paris, a FN obteve 22% dos votos.

Verdade que, em 36 mil municípios, a FN apenas apresentou candidatos em 597, tendo passado à segunda volta em 230. E estão previstas alianças com a UMP (Sarkozy) em 200 municípios. Em Bordéus também não será necessária segunda volta: Alain Juppé, o rival de Sarkozy à liderança da UMP, obteve mais de 60% dos votos. Entretanto, para obviar à previsível vitória dos lepenistas, o PS retirou a sua candidatura a Saint-Gilles.

Mesmo em Paris, a candidata de esquerda, Anne Hidalgo, apoiada por socialistas, comunistas e os radicais do PRG, ficou em segundo lugar com 34,4% dos votos. Se, no próximo domingo, os Verdes do EELV votarem nela, a esquerda conservará Paris. Para já, a vencedora foi a candidata da UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet (na foto ao alto) com 35,6%.

O resultado nacional dá 46,5% à UMP, 38% ao conjunto da esquerda, e 4,65% à Frente Nacional. Esperar pela segunda volta.

[Imagem: foto de Christopher Morris. Clique.]

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sexta-feira, Março 21, 2014

CITAÇÃO, 488


Vasco Pulido Valente, A balança, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:

«Como império continental, o império russo sempre teve o problema de estabelecer para si, e sob seu domínio, uma saída para o mar. [...] Não foi por acaso que a única invasão triunfante da Rússia nos tempos modernos [...] se pôs como objectivo principal conquistar a Crimeia. Toda a gente sabia que, sem Sebastopol, a Rússia voltaria ao seu isolamento e pouco a pouco perderia o seu peso na Europa.

[...] Não admira que Sebastopol se tornasse num emblema do nacionalismo russo e da sua “porta aberta” para a Europa e para o Atlântico. A UE e a América não perceberam a tempo que o renascimento do império, com Putin ou sem ele, iria levar ao programa primário de recuperar a Crimeia. E encorajaram a Ucrânia, a que a Crimeia pertencia por uma extravagância de Khrustchov, a criar uma dependência, se não uma “aliança”, com a Europa. O que devia suceder, sucedeu: não o regresso à Guerra Fria, o regresso à velha balança das potências do século XIX.»

[Imagem: o porto de Sebastopol fotografado por Jerome Levitch. Clique.]

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quinta-feira, Março 20, 2014

JOÃO PEDRO MARQUES


Hoje na Sábado escrevo sobre O Estranho Caso de Sebastião Moncada, do historiador João Pedro Marques (n. 1949). Depois de romances com acção centrada no período da Regeneração (o primeiro) e na fundação de uma colónia agrícola em Moçâmedes, o actual toma por objecto as Guerras Liberais. Tudo se passa nos anos 1830, quando as lutas entre “malhados” e “corcundas”, ou seja, entre liberais e miguelistas, atinge o paroxismo. A época ajuda a reflectir sobre a natureza dos costumes: as cabeças dos presos políticos enforcados eram separadas do tronco para serem pregadas e expostas em postes altos, tanto em Lisboa como no Porto. O pano de fundo da história é o desembarque no Mindelo das tropas de D. Pedro, dando origem ao Cerco do Porto que duraria treze meses. O plot inclui uma Bovary de Penafiel. Naquele tempo já o problema da dívida pública era candente, e foram «os vinhos de Vila Nova de Gaia...» que serviram de caução ao empréstimo que o marquês de Palmela foi negociar a Londres. Publicou a Porto Editora.

Escrevo ainda sobre Assim Para Nós Haja Perdão, da norte-americana A. M. Homes (n. 1961). O livro venceu o Women’s Prize for Fiction 2013. Ms Homes não usa paninhos quentes para descrever o indizível, o que explica o antagonismo de alguns sectores da crítica face aos temas “impróprios” que aborda. Não esquecer que, em 1996, O Fim de Alice foi recusado por várias livrarias do Reino Unido. A violenta controvérsia gerada dos dois lados do Atlântico deu origem ao livro Appendix A, um ensaio-explicação de Alice. Assim Para Nós Haja Perdão é um cocktail de livre-arbítrio, sexo, doença, solidão, drogas, depressão, abuso, crime e disfunção familiar. Face ao obsceno, a escrita não hesita. Ao pé disto, a senhora das sombras dégradées parece a Mary Poppins. Excelente. Miguel Serras Pereira traduziu, a Relógio d’Água editou.

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quarta-feira, Março 19, 2014

ACONTECEU

 
Aconteceu. Putin formalizou a anexação da Crimeia à Federação Russa. Sabe que o pode fazer, como fez ontem, ignorando a comunidade internacional.

À UE lembrou o precedente do Kosovo. De resto, a prioridade da UE são os banqueiros. A partir daqui, ninguém estranhará que as famosas sanções da UE contra a Rússia tenham por alvo 21 pesos-leves. Nenhum oligarca russo consta da lista. A City nunca brincou em serviço, não seria agora que o faria: «It’s quite clear that with 60% of the EU’s financial services industry located in the UK, the bankers and fund managers are seen as more than just big business...»

Portanto ficamos assim: «No coração e na consciência de todos, a Crimeia sempre foi e continua a ser uma parte inseparável da Rússia.» As duas câmaras do Parlamento aplaudiram de pé. Quem foi que disse que os actos imperiais eram coisa do passado?

[Imagem: da esquerda para a direita, Sergei Aksyonov, primeiro-ministro da Crimeia, o czar Putin e Alexei Chaly, presidente da Câmara de Sebastopol, após a assinatura do decreto de anexação. Foto de Sergei Ilnitsky. Clique.]

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terça-feira, Março 18, 2014

MEDEIROS FERREIRA 1942-2014


Morreu hoje de manhã José Medeiros Ferreira, um dos poucos, pouquíssimos políticos de quem se podia dizer que era ao mesmo tempo um homem de visão, íntegro e culto, qualidades a que aliava um fair play invejável. Dirigente estudantil nos anos 1960, foi preso e torturado pela Pide, exilando-se depois na Suíça. Enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros (1976-77) do I Governo Constitucional, foi responsável pelo pedido de adesão de Portugal à CEE, actual UE. Em 1978 afastou-se do Partido Socialista, tendo, no ano seguinte, juntamente com António Barreto e Francisco de Sousa Tavares, criado o Movimento Reformador, extinto em 1985. Voltou ao PS no tempo de Jorge Sampaio. Professor de História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fundador e membro do Instituto de História Contemporânea, antigo deputado e eurodeputado, comentador político heterodoxo, blogger irreverente, autor de obras de referência sobre relações internacionais, mas também sobre O Comportamento Político dos Militares (1992).  Em Novembro do ano passado saiu o livro derradeiro  —  Não há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia.

Em entrevista recente, comentou: «O mapa cor-de-rosa é assim: nós temos de ter uma política realista de negociação. Eu nunca teria posto a negociar com a troika um ministro como Vítor Gaspar, saído da dogmática do BCE. É um colonizado, viu a revelação, soube a catequese, já estava com o lacinho da comunhão. Interiorizou aquilo até ter percebido que estava errado, como escreveu na carta de demissão. Um bom negociador seria o ministro da Saúde, Paulo Macedo. Ou uma pessoa como Bagão Félix.» Sobre a zona euro, também foi certeiro: «Eu acho que nós, neste momento, temos duas moedas. Houve um regresso clandestino do escudo. Temos é de criar condições para que a zona euro seja uma zona de crescimento. Se isso for feito, vale a pena continuar. Se não for feito, significa que as consequências da saída e as consequências da manutenção serão uma questão da oportunidade

Medeiros Ferreira tinha feito 72 anos no mês passado. Deixa viúva Maria Emília Brederode dos Santos. O corpo estará em câmara ardente a partir das 15:00h, no Palácio Galveias, em Lisboa.

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sábado, Março 15, 2014

CITAÇÃO, 487


José Pacheco Pereira, A raiva que o manifesto dos 70 provocou, hoje no Público. Breves excertos, sublinhados meus:

«É difícil imaginar tanta raiva, tanta vontade de calar, tanto desejo de pura exterminação do outro, como aquele que se abateu sobre o manifesto dos 70 signatários a pretexto da reestruturação da dívida, uma posição expressa em termos prudentes e moderados por um vasto grupo de pessoas qualificadas, quase todas também prudentes e moderadas.

Nem isso poupou os seus signatários a uma série de insultos, acusações ad hominem, insinuações e o que mais adiante se verá. Sobre eles caiu a excomunhão que retira os seus nomes do círculo de ferro da confiança do poder. [...]

Veio ao de cima tudo, a começar pelo primeiro-ministro, que os tratou de essa “gente”, ou porque tinham uma “agenda política” ou porque eram “cépticos” por natureza, inúteis para o glorioso esforço nacional de empobrecer como programa de vida. O manifesto era “antipatriótico”, com um timing inaceitável, a dois meses da “libertação” de 1640, feito pelos “culpados” do esbanjamento, pelos “velhos” a defenderem os seus privilégios, pelos defensores do statu quo dos interesses instalados, pelos “jarretas”, pela “geração errada”. [...] José Gomes Ferreira é mais claro: “Estará a vossa iniciativa relacionada com alguns cortes nas vossas generosas pensões?” [...] José Gomes Ferreira pergunta: “Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas gravíssimos que vocês lhes deixaram? É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem lugar aos mais novos?” [...] José Gomes Ferreira vai mais longe  —  se as coisas correrem mal, a culpa é vossa: “Mesmo sendo uma proposta feita por cidadãos livres e independentes, pela sua projecção social poderá ter impacto externo e levar a uma degradação da percepção dos investidores, pela qual vos devemos responsabilizar desde já. Se isso acontecer, digo-vos que como cidadão contribuinte vou exigir publicamente que reparem o dano causado ao Estado.”

A mensagem essencial é “saiam da frente”, a mesma que está na capa e no título de um livro de Camilo Lourenço, que achava bem que houvesse um novo resgate porque isso “disciplinaria” os preguiçosos dos portugueses. [...]

Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele, na sua magnitude e violência. E não vai acabar, vai-se tornar endémico. Ele é o efeito a curto prazo de uma política que se assume para vinte ou trinta anos de empobrecimento, centrados num único eixo: pagar aos credores, obedecer aos mercados. Essa política não pode ser conduzida em democracia, só pode existir com base num regime autoritário

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O ARMÁRIO


Há dois meses, a propósito do golpe do referendo, Carlos Reis dos Santos, destacado militante do PSD, advogado de profissão, escreveu no Público uma Carta aberta ao presidente da JSD e seus compagnons de route. O texto pode ser lido aqui.

Para quem não saiba de quem se trata, Carlos Reis dos Santos identifica-se no segundo parágrafo:

«Para vocês, que certamente não me conhecem, permitam-me que me apresente: sou militante do PSD, com o n.º 10757. Na JSD onde me filiei aos 16 anos, fui quase tudo: vice-presidente, director do gabinete de estudos, encabecei o conselho nacional, fui quem exerceu funções por mais tempo como presidente da distrital de Lisboa, fui dirigente académico na Faculdade de Direito de Lisboa, eleito com a bandeira da JSD, fui membro da comissão política nacional presidida por Pedro Passos Coelho, de quem, de resto, fui um leal colaborador. Quando saí da JSD, elegeram-me em congresso como vosso militante honorário

Não estamos a falar do Ti Russo das Bifanas.

Ontem, na sua página do Facebook, Carlos Reis [dos Santos] publicou aquele que terá sido o texto mais cáustico acerca do chumbo do projecto de lei sobre co-adopção por casais do mesmo sexo. No momento em que escrevo este post, o texto de Carlos Reis tinha sido partilhado nos murais de 627 pessoas e apoiado (Gosto) por 771. E estou só a falar do FB. Mas o texto circula em blogues e no twitter. Como se diz em jargão-media, incendiou as redes sociais. O que diz de Assunção Esteves e Paulo Portas e os comentários ao contorcionismo de vários deputados tem um teor de corrosão que não pode ser ignorado. Mas a imprensa, sempre pressurosa a citar quem lhes convém (se Pacheco Pereira disser que ‘O céu está azul...’ nenhum jornal omite o statement com chamada de primeira página), desta vez não viu, não leu, não ouviu.

O país é um armário cheio de jornalistas, políticos, cientistas, escritores, artistas, diplomatas, desportistas, historiadores, juristas, professores, etc. Et pour cause!

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sexta-feira, Março 14, 2014

MH 370 NA TWILIGHT ZONE

 
O desaparecimento do avião da Malaysia Airlines, sábado passado, com 239 pessoas a bordo, entrou na twilight zone... Desde o início que os meios envolvidos sinalizavam gato escondido com rabo de fora. Doze países, três Marinhas de Guerra, 40 navios, 50 aviões, um número indeterminado de helicópteros, etc., tudo associado ao laconismo das autoridades da Malásia, não têm precedente em casos análogos. Surgiu finalmente a tese do sequestro, que deveria ter parecido lógica ao fim de 72 horas sem vestígio de destroços e com telefones a funcionar. Rumores insistentes, não confirmados nem desmentidos, dão conta de que o avião terá sido desviado para uma das ilhas Andamão, no Índico. (O arquipélago faz parte da Índia.) Se está em Havelock, Baratang, Rutland, Neil ou outra qualquer, não sabemos, mas meia dúzia de serviços secretos devem saber desde o primeiro dia. Pois, os satélites. Se calhar avariaram...

[Imagem: fotografia de Lai Seng Sin obtida no aeroporto de Kuala Lumpur. Clique.]

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CHUMBADO

 
Por 112 votos contra 107 (uma norma) e 111 votos contra 107 (outra norma), foi chumbado o projecto de lei de co-adopção por casais do mesmo sexo. No primeiro caso houve 5 abstenções e, no segundo, 4. Foram 15 os deputados do PSD que votaram a favor. Em bloco cerrado, o CDS votou contra. Seis deputados de quatro partidos não participaram na votação. Não tendo sido aprovada nenhuma das duas normas, o diploma não chegou à votação final global. Entre a votação na generalidade, em Maio do ano passado, e a de hoje, 11 deputados do PSD, CDS e PS alteraram o sentido dos seus votos. Portugal junta-se assim à Rússia, Ucrânia e Roménia, únicos países da Europa que não permitem a co-adopção por casais do mesmo sexo.

Estamos a falar de co-adopção, ou seja, de crianças já inseridas em famílias legalmente constituídas. Se um dos cônjuges morrer, quem as protege?

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CONTRADANÇA

 
O governo devolveu o diploma ao Parlamento sem o alterar. O Presidente da República ainda pode vetar mais uma vez. Mas à terceira terá mesmo de o promulgar. Gente cínica garante que a contradança foi combinada. A ver vamos. A imagem é do jornal i.

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CITAÇÃO, 486


Viriato Soromenho Marques, Os homens não são todos iguais, ontem no Diário de Notícias. Excerto, sublinhados meus:

«O manifesto propondo a reestruturação da dívida foi conhecido no mesmo dia em que o INE revelava os resultados da política levada a cabo pela troika com a cumplicidade entusiástica deste governo. Como se fosse uma lista de baixas numa guerra, ficámos a saber que o PIB do país recuou ao nível do ano 2000 e o emprego tombou até ao ano de 1996. Em dois anos e meio foram destruídos 328 mil empregos. Tudo isto para combater uma dívida pública bruta excessiva, que, no mesmo período, subiu de 94% para quase 130% [...] Este manifesto limita-se a olhar a realidade de frente: o País caminha para o suicídio, e é preciso mudar o rumo. [...] Perante isso, o primeiro-ministro, e uma escassa legião de escribas auxiliares, acusam os subscritores do manifesto de “pôr em causa o financiamento do país”, de “inoportunidade” e, até, de falta de patriotismo. [...] A verdade dói, mas a mentira mata. Tenho muito orgulho em ter assinado este manifesto ao lado de Manuela Ferreira Leite, ou Bagão Félix, pois a diferença crucial não é entre esquerda e direita, mas entre a verdade e a mentira. O que une este governo, e o atual diretório europeu, é a ligação umbilical entre o seu poder e a mentira organizada. O país e a Europa só poderão sobreviver se forem resgatados de líderes medíocres, com fobia da verdade.»

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quinta-feira, Março 13, 2014

CARSTEN JENSEN


Hoje na Sábado escrevo sobre o besteseller do dinamarquês Carsten Jensen (n. 1952)  —   Nós, os Afogados. O livro levou cinco anos a escrever e recebeu o prémio literário mais importante da Dinamarca. Pelas suas tomadas de posição, expressas no influente jornal Politiken, o autor recebeu em 2009 o Prémio Olof Palme de defesa dos direitos humanos, sendo muito popular na Escandinávia. Nós, os Afogados é o seu único romance. A acção decorre entre 1848 e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo como denominador o conflito entre dinamarqueses e alemães. A narrativa apoia-se em diários, correspondência de origem diversa, pesquisa no Museu Marítimo de Marstal, documentos de época, vasta bibliografia e tradição oral, sendo utilizados os “apelidos de família tradicionais” da região. Jensen cria uma série de personagens credíveis, dando unidade e espessura à trama romanesca, que noutras mãos seria mero patchwork de episódios avulsos. Os apreciadores de aventuras têm muito com que se entreter.

Escrevo ainda sobre Portugal. A Flor e a Foice, de J. Rentes de Carvalho (n. 1930). Destinado ao público holandês, o livro foi publicado em 1975, em Amesterdão. Vem a talhe de foice lembrar que no ano passado circulou uma petição “exigindo” a sua publicação no nosso país. Voltando ao que interessa. Trata-se de uma obra didáctica, onde não falta sequer uma tábua cronológica da História de Portugal. Com a desenvoltura de um livre pensador, Rentes de Carvalho faz uma radiografia azeda do período que decorreu entre Abril de 1974 e Outubro de 1975, terminando antes do golpe de 25 de Novembro. Um factor de interesse suplementar reside na forma como o autor desmonta as relações de casta que moldaram o PREC. O retrato sociológico tem momentos devera certeiros, como quando recorda a presença em dois governos de Vasco Gonçalves de uma secretária de Estado que «era também [...] Madre Superiora das Escravas do Patriarcado.» Certas revelações serão novidade para muitos. Um exemplo: nas semanas que antecederam o 25 de Abril, «quinze milhões de contos» (o equivalente a setenta e cinco milhões de euros, importância astronómica para a época) saíram do país. O tom sarcástico não contamina a frieza analítica e o futuro deu razão às premonições do autor. Editou a Quetzal. Nas livrarias a partir do próximo dia 21.

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quarta-feira, Março 12, 2014

PESADELO ARQUITECTÓNICO

 
Construída nos terrenos da antiga Escola de Medicina Veterinária, ao lado do edifício inaugurado em 1958, que se mantém, a nova sede da Polícia Judiciária tem heliporto e bunker para reuniões operacionais. Como se vê na imagem, os dois edifícios estão ligados por uma gaiola de vidro. Custou 95,2 milhões de euros (inclui o preço do terreno). Visualmente é um susto. Do ponto de vista dos equipamentos, diz o director que... «Só eventualmente a polícia de Singapura terá algo de parecido.» A ideia é concentrar no mesmo local os efectivos da PJ que estão espalhados por sete edifícios de Lisboa. Mesmo ao lado, no Liceu Camões, chove nas salas de aula. Clique nas imagens.

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O MANIFESTO DOS 70


Foi hoje divulgado o manifesto que propõe a reestruturação da dívida pública.

Lista alfabética dos 70 subscritores  —  Adriano Moreira, Adalberto Campos, Fernandes, Adriano Pimpão, Alberto Ramalheira, Alberto Regueira, Alexandre Quintanilha, Alfredo Bruto, da Costa, André Machado, António Bagão Félix, António Capucho, António Carlos Santos, António Eira Leitão, António Sampaio da Nóvoa, António Saraiva, Armando Sevinate Pinto, Artur Castro Neves, Boaventura Sousa Santos, Carlos César, Carlos Moreno, Constantino Sakellarides, Diogo Freitas do Amaral, Eduardo Cabrita, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Paz Ferreira, Emanuel Santos, Esmeralda Dourado, Eugénio Fonseca, Fausto Quadros, Fernanda Rolo, Fernando Gomes da Silva, Fernando Rosas, Francisco Louçã, Henrique Neto, João Cravinho, João Galamba, João Vieira Lopes, Joaquim Gomes Canotilho, Jorge Malheiros, Jorge Novais, José Almeida Serra, José Maria Brandão de Brito, José Maria Castro Caldas, José Reis, José Silva Lopes, José Vera Jardim, José Tribolet, Júlio Mota, Luís Braga da Cruz, Luís Nazaré, Luís Veiga da Cunha, Manuel Carvalho da Silva, Manuel de Lemos, Manuel Macaísta Malheiros, Manuel Porto, Manuel Sobrinho Simões, Manuela Arcanjo, Manuela Ferreira Leite, Manuela Morgado, Manuela Silva, Mariana Mortágua, Pedro Adão e Silva, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Pedro Delgado Alves, Pedro Lains, Pedro Marques Lopes, Ricardo Bayão Horta, Ricardo Cabral, Ricardo Paes Mamede, Rui Marques, Teresa Pizarro Beleza, Viriato Soromenho-Marques, Vitor Martins, Vitor Ramalho.

Leque ideológico da direita conservadora à extrema-esquerda, gente de vária formação, que exerce ou exerceu cargos e profissões de índole diversa: catedráticos, ministros, deputados, governadores do Banco de Portugal, reitores universitários, cientistas, dirigentes sindicais, economistas, historiadores, sociólogos, constitucionalistas, uma antiga presidente do PSD, fundadores do CDS, um ministro de Salazar, dois consultores de Cavaco Silva, etc. A ideia partiu de João Cravinho e Bagão Félix. O antigo ministro da Segurança Social e do Trabalho (com Barroso) e das Finanças e Administração Pública (com Santana), é peremptório: Cumprir o Tratado Orçamental é irrealista. Pinto Balsemão não assinou, mas considera que tentar reestruturar a dívida é o caminho adequado.

Como isto (reestruturar a dívida) vai acontecer, o mais tardar em 2015, os signatários podem sempre dizer que deram o tiro de partida.

Em tempo: ao fim da tarde soube-se que Sevinate Pinto e Vítor Martins, os consultores da Casa Civil do PR que assinaram o Manifesto, foram exonerados.

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terça-feira, Março 11, 2014

O MITO DOS CÉREBROS

 
Um estudo sobre emigração portuguesa, financiado pela FCT e desenvolvido por docentes do ISCTE, desmistifica algumas ideias-feitas. Por exemplo: «Fala-se da fuga de cérebros. Claro que sim, nunca houve tantos licenciados a sair do país, mas [...] a maioria das saídas não são de mestres e doutores. É uma ilusão pensar que Portugal passou a ter uma emigração sobretudo qualificada. Que a árvore não esconda a floresta. A esmagadora maioria das saídas continua a ser, tal como na década de 1960, de pessoas pobres e pouco escolarizadas.» Quem ouve telejornais julga que sai um cientista do CERN a cada 45 minutos. Cerca de 85% dos emigrantes portugueses escolhe países europeus. Por esta ordem: Reino Unido, Suíça, Alemanha, Espanha e Luxemburgo. Os restantes vão para Angola e o Brasil. Desde 2011 terão saído do país cerca de 400 mil pessoas. O número de licenciados não excede 36% do total.

O estudo será apresentado amanhã e depois, na conferência internacional sobre emigração portuguesa contemporânea que terá lugar no ISCTE.

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DEZ ANOS


Faz hoje dez anos. O atentado de Atocha, organizado pelo marroquino Amer Azizi (nunca detido), provocou cerca de duzentos mortos e dois mil feridos. Eram 07.37 da manhã e Madrid não voltou a ser a mesma. Sem pudor, Aznar atribuiu à “complacência” da esquerda pela ETA a responsabilidade da tragédia. Dias depois perdeu as eleições. A investigação e os tribunais provaram que a Euskadi Ta Askatasuna nada teve a ver com a chacina, perpetrada por elementos afectos ao grupo de Abu Dahdah e ao GICM. O longo braço da Al-Qaeda fazia chegar a jihad à capital espanhola. Passaram dez anos. Convém não esquecer.

[Imagem: foto de Ervin Sarkisov, museu dedicado à tragédia de Atocha. Clique.]

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