Sexta-feira, Maio 25, 2012

NOVELA MEXICANA


O folhetim Relvas dura há 10 dias. Hoje, o Público dedica três páginas ao assunto. O artigo de Maria Lopes, com o ser redundante, inclui uma frase que se presta a várias interpretações: «A versão da editora, Leonete Botelho, tem sido mais alargada...» Tem sido? Work in progress...? O texto de Maria Lopes nunca cita a jornalista Maria José Oliveira pelo nome. A nota da direcção do jornal é clara: um excerto pode ser lido na imagem supra. Esse esclarecimento insere o parecer do advogado do jornal, Francisco Teixeira da Mota:

«[...] Numa primeira avaliação jurídica, o nosso advogado ressalvou que o crime de ameaça implica uma ameaça credível contra a vida, a integridade física, a liberdade pessoal e os bens patrimoniais — e que este não era o caso. Neste primeiro contacto, Teixeira da Mota distinguiu claramente a questão jurídica da questão ética e política, e sublinhou a diferença entre ameaçar divulgar um dado da vida privada que é “íntimo”, “desconhecido”, “secreto” ou “embaraçoso”, e divulgar um dado que, sendo “pessoal”, é de fácil acesso público, sendo que, no seu entender, os jornalistas têm que aceitar um maior grau de exposição e escrutínio do que os cidadãos comuns. Francisco Teixeira da Mota não viu consistência na frase do ministro que justificasse uma actuação legal. Uma semana depois, a sua avaliação mantém-se

Clique na imagem para ler melhor.

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Quinta-feira, Maio 24, 2012

ZHANG JIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Negros Anos, da escritora chinesa Zhang Jie (n. 1937), segundo volume da saga autobiográfica iniciada com Não há palavras, também editado pela Gradiva. A tradução de ambos é de José Colaço Barreiros, que trabalhou a partir da versão italiana. Zhang Jie é economista e feminista, tendo sido uma vítima da Revolução Cultural Chinesa: esteve três anos (1969-72) num campo de reeducação. Negros Anos relata três conflitos que coincidem no tempo: a ocupação japonesa da China (1937-45), a guerra entre nacionalistas e comunistas, e a Longa Marcha que terminou com a chegada de Mao ao poder, em Outubro de 1949. Tudo isto sob a forma de romance, numa linguagem escorreita, sem concessões de natureza ideológica.

Escrevo ainda sobre Agora: Uma história de amores próprios, romance de Pedro Boucherie Mendes (n. 1970). Retrata uma classe, e são palavras do autor, «que julgo que não está representada na nossa literatura.» Que classe é essa? A avaliar pela leitura, a das pessoas que arranjam convites à borla, frequentam tarólogos, bebem sangria de espumante com Lorenins, fazem sexo frouxo e estão sempre à coca de descobrir um gay nas redondezas. Editou a Oficina do Livro.

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Quarta-feira, Maio 23, 2012

O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU



Os números são da OCDE e foram divulgados ontem. As imagens são do Público.

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Terça-feira, Maio 22, 2012

SECRET AID PROPS UP GREEK BANKS


Segundo o Financial Times, o Banco Central Europeu começou ontem a injectar cem mil milhões de euros no sistema bancário grego, de modo a evitar o colapso da moeda única. Caso para dizer que quem tem cu tem medo. Foi preciso chegar a este extremo para o senhor Draghi acordar. Oficialmente, no pasa nada. Na imagem, Alexis Tsipras, o líder do Syriza, ontem em Paris.

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CAMÕES PARA DALTON TREVISAN


Dalton Trevisan, 86 anos  —  «o maior contista brasileiro do século», quem o diz é Abel Barros Baptista  —, venceu o Prémio Camões 2012. O primeiro livro, Sonata ao Luar (1945), foi renegado pelo autor. Tornou-se um escritor popular a partir de Novelas Nada Exemplares (1959, Prémio Jabuti). Por junto, 40 livros, dos quais apenas um  —  A Polaquinha, 1985  —  é um romance. Quanto sei, da sua vasta obra está publicado em Portugal um único título, Cemitério de Elefantes (1964; Relógio d’Água, 1984). Contudo, no vol. 15 do Curso Breve de Literatura Brasileira (Cotovia), dedicado ao conto, Trevisan tem sete contos escolhidos por Alcir Pécora, organizador do volume. Na imagem, uma das raras fotos do autor, provavelmente dos anos 1950.

Entre 1989 e 2012, o Prémio Camões (cem mil euros) foi atribuído a dez portugueses, dez brasileiros, dois angolanos, um moçambicano e um caboverdiano. Até hoje, foi recusado uma única vez: em 2006, pelo angolano Luandino Vieira.

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Segunda-feira, Maio 21, 2012

QUEM DIRIA


Se até ele o diz! A coisa está preta. Inesperada, pela positiva, a entrevista ao i. Passos Coelho e Vítor Gaspar devem ter as orelhas a arder. 

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Sexta-feira, Maio 18, 2012

CITAÇÃO, 406


Vasco Pulido Valente, A pergunta, hoje no Público. Excerto:

«[...] A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França. O que lhe interessa é o “contágio”. Ou, mais precisamente, pela velocidade com que a situação da Grécia se reproduzirá em Portugal, na Espanha e na Itália (para não falar da Irlanda, de certa maneira um caso à parte). Existe ou não existe um plano para nos proteger do colapso da Grécia? Existe ou não um plano para nos “tirar” do euro, sem uma excessiva miséria e brutalidade, se for absolutamente necessário? “Lá fora” perguntam isso. Chegou a altura dos portugueses fazerem a mesma pergunta ao seu querido governo

[Imagem: rua de Atenas, foto de Stefanos Kyriazis. Clique.]

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Quinta-feira, Maio 17, 2012

DONNA SUMMER 1948-2012


Donna Summer morreu hoje, de cancro. Tinha 63 anos. Quem não se lembra de I Feel Love...? As redes sociais estão ao rubro.

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SALÁRIOS DA FUNÇÃO PÚBLICA


Se o meu vizinho comer 100 gramas de caviar Beluga por mês  —  preço por quilo, em Lisboa: entre 20 e 25 mil euros; o mais caro é o do Irão, uma latinha de 100gr custa 2500 euros  —, e eu zero, as estatísticas dirão que os senhores X e Y comem uma média de 50 gramas de caviar Beluga por mês.

A cena dos funcionários públicos é igual. Ontem, a televisão não se cansou de repetir que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, correspondeu a 1600 euros. E se apenas tivermos em conta a administração central, esse valor sobe para 1754 euros.

O que a televisão não disse, e devia ter dito, é que “Função Pública” é uma classe que engloba os funcionários propriamente ditos, mais os “Corpos Especiais”, ou seja: diplomatas (média mensal: 8115 euros; inclui despesas de representação), adjuntos e assessores dos gabinetes ministeriais, juízes e outros magistrados, catedráticos, dirigentes (directores-gerais, presidentes de Institutos, directores de serviço, etc.), professores dos vários graus de ensino, médicos, enfermeiros, inspectores, chefes de repartição de Finanças, militares, polícias, etc. Metendo tudo no mesmo saco, não admira que o salário médio mensal da Função Pública, no 1.º trimestre de 2012, tenha sido aquele que foi repetido à exaustão. Um funcionário-funcionário (sem licenciatura) terá hoje um salário médio à volta de 700 euros, e um técnico superior (licenciado) terá o dobro. Espanta-me sempre ver profissionais como José Alberto Carvalho, da TVI, repetirem estas frioleiras sem as contextualizarem.

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PESSOA BY CAVALCANTI FILHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Fernando Pessoa uma quase-autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho (n. 1948). Desobrigado de protocolo académico, num tom fluente, acessível ao leitor comum, o autor cruza a obra do poeta com a sua vastíssima bibliografia. Mas vai mais longe: acrescenta o ponto de vista de pessoanos de renome como Cleonice Berardinelli, Richard Zenith, Yvette Centeno, Teresa Rita Lopes, José Blanco, Teresa Sobral Cunha, Jerónimo Pizarro e outros, por vezes citados na forma de testemunhos pessoais. Um dos aspectos dilucidados é o da putativa homossexualidade de Pessoa: Cavalcanti acha que ele “não praticou”, mas queria... Um cartapácio de 710 páginas que inclui toda a informação relativa aos 127 heterónimos do poeta (os quatro que toda a gente trata por tu, mais 123). O livro saiu no Brasil no ano passado, mas a edição portuguesa foi revista e actualizada. Mesmo que tenha lido as biografias de Pessoa feitas por João Gaspar Simões (1951) e Robert Bréchon (1996), vai ver que encontra novos dados.

Escrevo ainda sobre as crónicas que Pedro Mexia (n. 1972) reuniu em O Mundo dos Vivos. Há de tudo: Rupert Murdoch, Monica Lewinsky, Machado de Assis, Thomas Mann, Roman Polanski, Chico Buarque, Nicolas Sarkozy, Lindsay Lohan, etc. Podia escolher outras: em regra, são todas muito boas. Uma edição Tinta da China.

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COMEÇOU


A primeira página do Guardian diz tudo. Clique. As novas eleições gregas são daqui a um mês. Trinta dias é uma eternidade. Depois dos levantamentos em massa, os bancos gregos estão sem liquidez. Anteontem, o BCE fechou a torneira: para Atenas não vai nem mais um cêntimo. Não era mais limpo acabar com isto de uma vez?

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Quarta-feira, Maio 16, 2012

ASSIM VAI PORTUGAL


A manchete do jornal i dispensa comentários. Clique.

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Terça-feira, Maio 15, 2012

CARLOS FUENTES 1928-2012


O escritor mexicano Carlos Fuentes morreu hoje de paragem cardíaca. Tinha 83 anos. Nasceu no Panamá, estudou na Suíça e nos Estados Unidos, foi embaixador do México em Paris (1975-77), e professor em várias universidades americanas, entre elas Harvard e Princeton. Deixa uma obra muito vasta: 24 romances, 12 colectâneas de contos, 5 peças de teatro, 20 volumes de ensaio e um libreto de ópera. A Porto Editora publicou recentemente Adão no Éden (2009). O Prémio Cervantes, que lhe foi outorgado em 1987, foi um dos dezoito que recebeu.

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ACABOU A ERA SARKO


François Hollande tomou posse esta manhã. A imagem mostra o general Jean-Louis Georgelin no momento da imposição da Légion d’honneur, ritual que referenda o acto. Hollande é o 7.º Presidente da V República Francesa (e o 2.º socialista a ocupar o cargo), sucedendo a De Gaulle, Pompidou, Giscard, Mitterrand, Chirac e Sarkozy. Depois de se ter divorciado de Ségolène Royal, mãe dos seus quatro filhos, Hollande vive em união de facto com a jornalista Valerie Tierweiler. Será ele o homem que vai impedir a implosão do euro?

[Foto de Fred Dufour, AFP.]

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Segunda-feira, Maio 14, 2012

ZONA DE CONFORTO


Comentários para quê? A imagem é do Público, que na página 12 da edição de hoje traz o quadro dos salários anuais auferidos em 2010 e 2011 pelos presidentes das empresas do PSI-20. Oito exemplos:


Manuel Faria de Oliveira, Galp
2010: 1.337.000 / 2011: 1.642.600 / Média: 1.489.800 milhões
José Honório, Portucel
2010: 1.532.491 / 2011: 1.425.895 / Média: 1.479.193 milhões
Zeinal Bava, PT
2010: 1.416.959 / 2011: 1.355.943 /Média: 1.386.451 milhões
Pedro Queiroz Pereira, Semapa
2010: 983.000 / 2011: 1.386.888 / Média: 1.184.944 milhões
Paulo Azevedo, Sonae
2010: 1.122.871 / 2011: 1.143.020 / Média: 1.132.945 milhões
António Mexia, EDP
2010: 1.043.541 / 2011: 1.034.840 / Média: 1.039.190 milhões
Ângelo Paupério, Sonaecom [Público]
2010: 1.004.800 / 2011: 1.027.100 / Média: 1.015.950 milhões
Ricardo Salgado, BES
2010: 1.222.000 / 2011: 801.000 / Média: 1.011.500 milhões

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Sábado, Maio 12, 2012

WATERGATE INDÍGENA


Se até o Expresso o diz na 1.ª página. Clique.

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MUDAR DE VIDA, DIZ ELE


Um quadro eloquente. Clique. A infografia é do Público.

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Sexta-feira, Maio 11, 2012

BERNARDO SASSETTI 1970-2012


Bernardo Sassetti, pianista e compositor, morreu ontem. Tinha 41 anos. Terá caído numa falésia perto do Guincho, o corpo levou horas a ser recolhido, e a notícia só hoje foi divulgada. Era casado com a actriz Beatriz Batarda, de quem teve duas filhas. Compôs muito para cinema, gravou com a London Philarmonic Orchestra (e com Sting), e deixa uma discografia importante, da qual destaco Piano a quatro mãos (2003, com Mário Laginha), Livre (2004), Ascent (2005), Três pianos (2007, com Laginha e Burmester), e Second Life (2009). Como músico, participou no filme O Talentoso Mr Ripley (1999), de Anthony Minghella: era o pianista de jazz do septeto napolitano. Os obituários de imprensa referem todos que era bisneto de Sidónio Pais, o presidente-rei assassinado em 1918 ao chegar à Estação do Rossio.

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Quinta-feira, Maio 10, 2012

DEBORAH MOGGACH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Exótico Hotel Marigold — que no original se chama These Foolish Things —, de Deborah Moggach (n. 1948). A capa do livro reproduz os retratos dos principais actores do filme que John Madden fez. Sem razão lógica, Deborah Moggach tem sido ignorada pelos editores portugueses. Em 2000 saiu A Febre das Tulipas, e depois esqueceram-se dela. É pena. Ainda bem que a Porto Editora a recuperou. O Exótico Hotel Marigold / These Foolish Things é uma brilhante comédia de costumes sobre a forma como a sociedade britânica lida com o problema do envelhecimento. Em pleno século XXI, o Serviço Nacional de Saúde britânico desintegra-se «sob os efeitos combinados da falta de financiamento, da escassez de funcionários e do colapso moral.» A parte indiana do livro (e do filme) corresponde à quota de humor. Além de romancista, Deborah Moggach é autora do guião para cinema de Orgulho e Preconceito (versão Joe Wright, 2005), a obra-prima de Jane Austen, bem como de adaptações para televisão de obras de Nancy Mitford.

Escrevo ainda sobre O Lustre, o segundo romance de Clarice Lispector (1920-1977), só agora publicado em Portugal. Trata-se de um longo monólogo interior e a sua estrutura aleatória, acentuada por uma escrita que rompe com as noções de representação convencionais, faz lembrar Maria Gabriela Llansol. Uma edição Relógio d’Água.

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Quarta-feira, Maio 09, 2012

E AGORA, ALEXIS?


Karolos Papoulias, o Presidente da Grécia, não esteve pelos ajustes: convidou Alexis Tsipras, o líder do Syriza, da extrema-esquerda radical, a formar governo. Alexis Tsipras (na imagem) tem 37 anos e é engenheiro civil. O Syriza foi o segundo partido mais votado, com 16,8% dos votos e 52 deputados eleitos. Tsipras não perdeu tempo: tenciona rasgar o acordo com  a troika e exigir uma moratória para a dívida. Mais: pretende responsabilizar criminalmente os deputados envolvidos nas negociações com a troika.

Como nem os conservadores (Nova Democracia, com 108 deputados: 58 por eleição directa, 50 por indexação ao partido mais votado), nem os socialistas (PASOK, 41 deputados), nem os independentes de direita (Anexartitoi Ellines, 33 deputados), nem os comunistas (KKE, 26 deputados) aceitam coligar-se, não se vê como Tsipras possa formar governo.

Os nazis da Aurora Dourada, com 21 deputados, e a Nova Esquerda, com 19, não foram tidos nem achados nas conversações.

A menos que Karolos Papoulias suspenda o Parlamento, deixando Tsipras governar sem escrutínio, ou que se realizem novas eleições dentro de poucas semanas. A ver vamos.

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Segunda-feira, Maio 07, 2012

O IMBRÓGLIO GREGO


Na Grécia, o Χρυσή Αυγή  —  Aurora Dourada  —, partido nazi, elegeu 21 deputados. As primeiras declarações do seu líder, Nikos Mihaloliakis, foram claras: Rua com os estrangeiros! Por seu turno, o Syriza, da extrema-esquerda radical, elegeu 52. O partido de Alexis Tsipras tem como prioridade rever as condições do resgate da dívida. Tsipras, que está na imagem ao alto, e o nazi Mihaloliakis, vão tornar impossível qualquer tentativa de normalidade, uma vez que os conservadores da Nova Democracia e os socialistas do PASOK apenas conseguiram eleger, respectivamente, 108 e 41 deputados, aquém da maioria absoluta (151). Tanto Samaras como Venizelos propõem um governo de unidade nacional, mas não se vê como. Por junto, sete partidos terão assento no Parlamento.

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A ESQUERDA DE VOLTA AO ELISEU


Hollande ganhou, como previsto, mas com margem curta. A ver vamos as legislativas de Junho. Clique na imagem do Libé.

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Domingo, Maio 06, 2012

EUROPA: 6 DE MAIO


Se as sondagens baterem certo, Hollande será eleito hoje com mais de 53% dos votos. Portugal, tão afoito em votar o Tratado Orçamental, arrisca-se a ver o papel ir para o lixo antes do Verão. Hollande não o aceita nos termos actuais, a Irlanda vai referendar, mais ninguém tem pressa na ratificação.

O pior é a Grécia: de acordo com as últimas sondagens, os dois maiores partidos, a Nova Democracia e o PASOK, juntos, vão ficar aquém de 40% dos votos. Qualquer coisa como 27% para os conservadores e 12% para os socialistas. Os 61% que sobram — quase dois terços do eleitorado — dividem-se entre a extrema-direita, os comunistas e a extrema-esquerda. Com pequenas nuances, este grande bloco (61%) defende a saída da Grécia da UE e do euro, bem como o não-pagamento da dívida. Uma vez que a lei eleitoral grega prevê um bónus de 50 deputados para o partido mais votado, pode ser (mas não é certo) que a Nova Democracia e o PASOK, juntos, consigam fingir que a Grécia fará um esforço para honrar os compromissos.

Sucede que Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia, concorre com um programa claro: ninguém mexe mais nos salários, as pensões de reforma vão subir e os impostos descer. Por seu turno, Evangelos Venizelos, actual ministro das Finanças e líder do PASOK, também prometeu um travão aos impostos e à redução de salários. Dito de outro modo, ambos prometem a quadratura do círculo.

Amanhã a Europa será um sítio diferente. Só não sabemos ainda se para melhor ou pior.

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Sexta-feira, Maio 04, 2012

A ESPIRAL


Em matéria de devolução de casas aos bancos, por impossibilidade de cumprir a hipoteca, a procissão ainda vai no adro. Quanto se sabe, governo e oposição olham para o modelo de Espanha. Mas esse modelo não é famoso: entre outras restrições, é necessário que todos os membros da família em idade activa estejam desempregados e que o valor da casa não exceda 150 mil euros. Basta que no agregado familiar haja um elemento empregado para que a benesse vá por água abaixo.

A proposta de Lei do PS restringe a dação aos desempregados e a casas de valor inferior a 200 mil euros. O BE pretende que a devolução da casa salde a dívida por inteiro. O PCP ainda está a estudar o assunto. A ver vamos como legisla o governo.

Uma coisa é certa: tem de ser posto travão à subida imoderada dos spreads, que se situavam entre 0,25% e 0,50% no momento da concessão do empréstimo, e estão a ser renegociados entre 2% e 7%. É obsceno multiplicar os spreads por oito ou catorze vezes. Lembrar que, no 1.º trimestre de 2012, foram devolvidas aos bancos 2300 casas.

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Quinta-feira, Maio 03, 2012

GUILHERME CENTAZZI


Hoje na Sábado escrevo sobre O Estudante de Coimbra, de Guilherme Centazzi (1808-1875), que talvez possa ser considerado o pai do romance moderno português. Quem o diz é Pedro Almeida Vieira, que foi buscar O Estudante de Coimbra ao limbo em que estava esquecido, fixando-lhe o texto e actualizando a ortografia. Como o livro é de 1840-41 (nessa altura foi publicado em três tomos), e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, de 1846, fica instalada a querela: quem deu o tiro de partida da literatura moderna em Portugal? Garrett, como tem sido aceite até aqui, ou Centazzi? O Estudante de Coimbra teve uma segunda versão em 1861 (mais amaciada), mas Pedro Almeida Vieira optou, a meu ver bem, pela versão original, inserindo em aditamento os capítulos finais da edição de 1861. Tendo como pano de fundo as Guerras Liberais (em que Centazzi não participou), O Estudante de Coimbra rompe com a tradição Setecentista e faz um tour d’horizon à vida em Portugal entre 1826 e 1838. Maria de Fátima Marinho assina o posfácio. Pedro Almeida Vieira e a editora Planeta estão de parabéns

Escrevo ainda sobre As Feras de Jamrach, de Carol Birch (n. 1951), que reporta a um episódio verídico: um tigre de Bengala a vaguear à solta nas ruas do East End de Londres em 1857. Quem o encontrou foi um miúdo de 8 anos, que no livro se chama Jaffy. Digamos que o romance é uma espécie de Dickens pós-moderno. Uma edição Bertrand.

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Quarta-feira, Maio 02, 2012

FERNANDO LOPES 1935-2012


Vítima de cancro na garganta, morreu hoje o cineasta Fernando Lopes. Numa filmografia com mais de trinta títulos, destacam-se Belarmino (1964), Uma Abelha na Chuva (1971), Nós Por Cá Todos Bem (1978), Crónica dos Bons Malandros (1984), Matar Saudades (1988) e O Delfim (2002). Há dois meses chegou às salas o seu filme mais recente, Em Câmara Lenta (2012). Formado em cinema pela London Film School, a sua obra contribuiu para dar identidade ao Cinema Novo português. Tinha 76 anos. Fernando Lopes era casado com Maria João Seixas (de quem se tinha divorciado mas com quem voltou a casar no Verão de 2011), directora da Cinemateca Portuguesa. 

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APOTEOSE DO CONSUMO


Não sei se ria se chore. Esta foto de Paulo Novais para o jornal i vale mil palavras. Clique.

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Segunda-feira, Abril 30, 2012

VIVE LA FRANCE!


Agora que o n.º 113, relativo a Maio, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Vive la France!, publicada no n.º 112 na minha coluna Heterodoxias:


Michel Hazanavicius, realizador francês de origem lituana, resgatou a honra perdida do cinema francês? Tenho dúvidas. Verdade que O Artista acaba de ser considerado melhor filme do ano pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas convém deixar a poeira assentar. Houve um tempo, entre o fim dos anos 1940 e a primeira metade dos anos 1990, em que autores como René Clement, Jacques Tati, Serge Bourguignon, Claude Lelouch, Régis Wargnier e François Truffaut recebiam óscares em Hollywood. Depois, durante quase vinte anos, Hollywood esqueceu a França. Até que surgiu Michel Hazanavicius.

Hazanavicius é famoso em França por ter feito em registo paródico dois filmes da saga OSS 117, de Jean Bruce. Bruce é o Ian Fleming do outro lado do Canal. Bruce e Fleming morreram com um ano de intervalo: o primeiro em 1963, com 42 anos; o segundo em 1964, com 56. Ambos fizeram da guerra fria uma profissão. Enquanto Fleming criava James Bond, agente secreto 007 de Sua Majestade, herói de catorze livros e vinte e sete filmes, Bruce, o gaulês, criou Hubert Bonisseur de La Bath, agente secreto OSS, herói de mais de cem livros e treze filmes. Dois foram realizados por Hazanavicius, com Jean Dujardin no papel de Hubert Bonisseur de La Bath: OSS 117. Le Caire, nid d’espions (2006) e OSS 117. Rio ne répond plus (2009). Comédias de détournement, como lhes chama Hazanavicius. Na realidade, pretendia homenagear Sean Connery. Foram estas improváveis personagens que em Fevereiro trouxeram a glória da França ao palco do Kodak Theatre.

O que é que mudou na relação da França com a cultura planetária? O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) é um indicador?
Saudades do tempo em que Simone Signoret era tão conhecida como Marilyn Monroe ou Elizabeth Taylor. Quem diz a Signoret diz Jeanne Moreau. Ambas foram consagradas pela Academia. A Signoret em 1959, óscar para melhor actriz principal por Um Lugar na Alta-Roda; a Moreau em 1998, óscar honorífico pelo conjunto dos filmes. Onde isso vai. Em 2012, quais os actores franceses a quem podemos atribuir o estatuto de “monstro sagrado”? Catherine Deneuve? Gérard Depardieu? Juliette Binoche? Em Nova Iorque ou Mumbai (não esquecer o peso da indústria do cinema na economia indiana), quem cita de cor um nome, um só, dos laureados do Théâtre du Chatelet?

Os portugueses da minha idade cresceram com doses maciças de filmes franceses. Em Moçambique menos, porque o cinema de Hollywood, mas também o inglês (nos anos 1950-70), os “filmes de Pinewood”, como então se dizia, dominavam as salas. Isso não impediu Renoir, Rohmer, Bresson, Resnais, Pialat, Rivette, Godard, Truffaut, etc., de serem acompanhados por um público mais reduzido, mas fiel. (Por alguma razão a Pide não gostava do Cineclube de Lourenço Marques.) Noutro plano, Claude Chabrol e Roger Vadim eram indiscutíveis sucessos de bilheteira, o primeiro com a ajuda de Stéphane Audran, o segundo à boleia de Brigitte Bardot e Jane Fonda. E, claro, havia Jean Gabin, Jean-Paul Belmondo e Alain Delon. Isto para dizer que durante muito tempo a França se bateu taco a taco com Hollywood.

Quando Sylvia Kristel chegou pela mão de Just Jaeckin, o mundo tinha começado a mudar muito depressa. Na minha memória, talvez enviesada, o ocaso do cinema francês coincide com a retirada americana de Saigão e o êxodo dos brancos das antigas colónias africanas. Por isso mesmo, em 1992, quando Régis Wargnier fez Indochina — duplo requiem com argumento de Érik Orsenna —, era tudo menos o cinema francês que estava em pauta.

Aqui chegados, quer-me parecer que a Firma Hazanavicius/Dujardin encaixa mal na história. Os Mercados decerto explicam.

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LER 113


A LER 113 chegou hoje às bancas e livrarias. A pièce de résistance é a BD portuguesa, um dossiê de doze páginas da responsabilidade de Sara Figueiredo Costa. Autores de BD em destaque: Susa Monteiro, João Lemos (um autor da Marvel; é ele que assina a capa deste número da revista), Filipe Abranches, Osvaldo Medina e David Soares. Raul Brandão também tem direito a dossiê porque Manoel de Oliveira vai levar a Cannes o seu filme mais recente, Gebo et l’Ombre (com Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Ricardo Trêpa, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Jeanne Moreau nos principais papéis), feito a partir de O Gebo e a Sombra, a peça que Brandão publicou em 1923. Sobre Brandão, há um inédito de Nemésio e um texto de Vasco Rosa (eu assino o ensaio de abertura). Henrique Vila-Matas é o entrevistado de Carlos Vaz Marques. Discurso directo: «A ficção exige sempre uma certa dose de impostura.» O resto, que é muito, inclui uma homenagem a Antonio Tabucchi (1943-2012), da autoria de Francisco Belard. E depois as crónicas, recensões, um texto de Filipa Melo sobre Clarice Lispector, etc. João Paulo Cotrim preenche o Ponto Final. A minha crónica deste mês é sobre o mérito do 15/25.

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