terça-feira, Setembro 30, 2014

CITAÇÃO, 501


José Vítor Malheiros, O PS na encruzilhada do seu labirinto, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«A primeira consequência da vitória de António Costa nas primárias do PS é que vamos deixar de ver e ouvir António José Seguro na televisão. E isso, só por si, é uma bênção. [...] O homem não se enxergava e, quando isso acontece, é prova não só de uma limitação pessoal mas também de que, à sua volta, existe uma corte de bajuladores que alimentam a cegueira. Seguro era um líder fraco e sabia que era fraco. As suas constantes e penosas declarações de honradez, de perseverança e de coragem (nunca ninguém lhe disse que há qualidades que não se declaram?) eram a prova mais gritante disso mesmo. Mas é evidente que o principal defeito de Seguro foi a sua tépida acção como líder do maior partido da oposição. A sua “abstenção violenta” ficará para a história como uma página de vergonha para o PS e a sua colaboração de facto com o governo mais reaccionário de sempre feriu profundamente a imagem do PS.

E Costa? Costa é em grande medida uma incógnita mas é certamente um líder mais consistente e mais seguro de si, mais culto e mais inteligente, e parece menos mesmerizado pelo neoliberalismo e menos fascinado pela elegânca dos banqueiros do que muitos dos seus colegas de partido, o que significa que poderá liderar um PS mais mobilizado e empenhá-lo numa trajectória politicamente mais ambiciosa e socialmente mais justa. [...]

A esquerda à esquerda do PS olha para Costa com uma invulgar agressividade porque receia a atracção do “voto útil” que Costa poderá representar para o seu eleitorado. O efeito “eucalipto” que Costa pode representar para a esquerda, fazendo o deserto à sua volta, preocupa BE e PCP e não só. Pelo meu lado, penso que a política precisa de políticos inteligentes, honestos e comprometidos com a causa pública e que o país só tem a ganhar se houver partidos dirigidos por pessoas com ideias e a coragem de definir objectivos ambiciosos e construir consensos. Costa pode ser um desses líderes, se tiver a coragem de fazer a revolução social-democrata que o PS nunca fez e se tiver a coragem de fazer uma política que ponha a justiça à frente da finança. O PS nunca o fez antes, fascinado como sempre foi pela realpolitik, e é pouco provável que o faça agora, mas essa seria a única justificação para a sua existência. O que deve fazer a esquerda à esquerda do PS? O seu dever: continuar a defender uma política para as pessoas sem receio de afrontar os poderes ilegítimos da finança, dos mercados e de Bruxelas e demonstrar, em cada momento, a justeza e a justiça das suas propostas  —  como o fez com a ideia da renegociação da dívida. Se o acordo com o PS de Costa é possível e benéfico, só o futuro o dirá.»

Etiquetas: ,

segunda-feira, Setembro 29, 2014

CITAÇÃO, 500


José Pacheco Pereira, O dia um do ano aleitoral, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«Hoje começa o ano eleitoral de 2015. O PS passou a partido de oposição. [...] na última semana antes das primárias, houve um encontro secreto entre o secretário-geral da UGT e o primeiro-ministro. [...] As fontes do governo diziam que era fundamental haver um acordo antes do final do processo eleitoral no PS. Percebe-se porquê. O secretário-geral da UGT é um dos principais executantes da política de Seguro, de que foi um dos mais activos apoiantes, prestou-se ao timing propagandístico do governo e à substância de um acordo que fragiliza a segurança social, a mesma que o governo usa como pretexto para as suas previsões neomalthusianas. [...] Que se cuide quem não quiser ver que o PS teve uma das poucas vitórias junto da opinião dos portugueses que é de índole político-partidária.

Já não havia disso desde os anos de brasa da revolução. Havia vitórias e derrotas políticas, ligadas a personalidades, mas uma vitória que pudesse ser assacada a um partido enquanto tal, já não se verificava há muito. [...] Seguro teve um papel paradoxal. Fez todas as escolhas por razões estritas de sobrevivência e, porque não tinha nada a perder, e acabou por ser revolucionário malgré lui-meme.

As primários foram convocadas pelas piores razões do mundo: eram um subterfúgio de Seguro para continuar na liderança do PS mais uns meses, na esperança de que qualquer crise lhe desse uma oportunidade, pressupunham uma estratégia negativa de desgaste do aniversário, que o tempo longo sempre traria [...] Mas o PSD, que amava Seguro com o “coração”, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, dificilmente vai perceber o que lhe está a acontecer. Fica-se pela oposição a Costa, quase ao nível da oposição que fazia na autarquia de Lisboa, e não quer, porque não pode, mudar nada. Nem sequer compreendeu que as primárias do PS, em conjunto com a vitória expressiva de Costa, soam a um sino muito preocupante e que nada disto podia hoje acontecer na paz de um cemitério, com os mortos bem firmes a defender as campas, que é hoje o PSD.

A verdade, verdadinha, é que na semana em que o PS andou a fazer as tão menosprezadas eleições internas, com tantos “insultos” e vazio de ideias, o PSD andou às voltas com a Tecnoforma, os esquecimentos bizarros de Passos Coelho, e o que mais se virá a saber dessa misteriosa ONG criada para ir buscar negócios para a Tecnoforma. Alguém troca uma coisa por outra?»

Etiquetas: ,

VITÓRIA FOLGADA


Está feito. Costa venceu as Primárias do PS, obtendo mais do dobro dos votos do seu adversário: 118.454 contra 55.239. Votaram 70,24% dos inscritos. Em Lisboa, Costa venceu por 84,22% [Média de Lisboa FAUL e Lisboa FRO.] Em 23 Federações, o antigo secretário-geral só venceu na Guarda.

Seguro honrou o compromisso assumido e demitiu-se de secretário-geral às 20:45h  —  Sou, a partir deste momento, militante de base. Hoje deverá renunciar ao mandato de deputado e ao cargo de conselheiro de Estado.

Clique na imagem.

Etiquetas:

domingo, Setembro 28, 2014

É HOJE

 
As Primárias do PS que hoje se realizam são decisivas para o futuro do país. Estamos de novo como em Abril de 1976, quando se realizaram as primeiras eleições legislativas, ou como em Janeiro de 1986, quando, à boleia das presidenciais, a Direita quis tirar desforra do 25 de Abril, e perdeu. Daqui a pouco vou votar em António Costa. A razão é simples: não quero o PS transformado num berloque do regime.

Etiquetas:

sexta-feira, Setembro 26, 2014

COSTA, OF COURSE!

 
Domingo é dia de Primárias no PS. O Expresso Diário fez uma sondagem cujo resultado se vê na imagem. Clique.

Etiquetas: ,

POMPAS NA FERIN

 
Duas imagens do lançamento de Pompas Fúnebres, o meu livro mais recente, apresentado hoje por Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura e do Tribunal de Contas. A foto ao alto é de Ana Vidigal, e a de baixo de Jorge Neves. Clique para ver melhor.

Etiquetas:

TECNOGATE, 2


De acordo com o documento supra, datado de ontem e assinado pelo secretário-geral da Assembleia da República, as declarações de IRS de Passos Coelho respeitantes aos anos em que o actual primeiro-ministro foi deputado em regime de exclusividade  —  anos 1990: VI e VII Legislaturas  —, não podem ser entregues à Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação.  Comentários para quê?

Hoje de manhã, o primeiro-ministro afirmou no Parlamento que não recebeu honorários da Tecnoforma enquanto foi deputado. Apenas despesas de representação, uns almoços e uma ou outra viagem a Bruxelas. Segundo o jornal i, que teve acesso (sem explicar como) às declarações fiscais de Passos Coelho, «não foi declarado qualquer valor proveniente da Tecnoforma ou de outra entidade com ligações a esta empresa entre 1996 e 1999.» O imbróglio prossegue.

[A imagem é do Público. Clique para ler melhor.]

Etiquetas: , ,

POMPAS FÚNEBRES

 
Publiquei o meu primeiro livro em 1974. Passaram 40 anos. Nesse intervalo publiquei livros de poesia, ficção, ensaio e crítica, uma adaptação do Eça para crianças, diários de viagem e um volume de memórias. Pompas Fúnebres, o mais recente, é apresentado hoje por Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura e do Tribunal de Contas. Apareça. Clique na imagem para ler melhor.

Etiquetas: ,

quinta-feira, Setembro 25, 2014

PHILIPP MEYER


Hoje na Sábado escrevo sobre três livros: O Filho, de Philipp Meyer (n. 1974); Bifes Mal Passados, de João Magueijo (n. 1967); e A Bela Americana, de Jess Walter (n. 1965).

Meyer escreveu apenas dois romances, mas tornou-se um caso da nova literatura norte-americana. Ferrugem Americana foi o primeiro e um êxito instantâneo. Chegou agora O Filho, a história da nação americana vista a partir do Texas, através da saga de três gerações da mesma família, entre 1836 e 2012. Depois de pesquisar tudo o que havia a pesquisar sobre “a América” (os Estados Unidos) como identidade nacional, Meyer escreveu este épico. O livro foi finalista do Prémio Pulitzer e, para muitas publicações de referência, o melhor romance publicado em 2013. Foi em 1836 que o Texas foi “arrancado” ao México. Foi também nesse ano que nasceu o narrador: «Eu fui a primeira criança do sexo masculino desta nova república.» O foco da intriga é a linha de fronteira, a fundação, ascensão e declínio das civilizações. Meyer nunca se desvia da mensagem subliminar, embora escreva no tom displicente do jornalismo actual, isento de ênfase literária, o que neste caso traz óbvias vantagens ao relato. O facto de estarem intercalados vários tempos cronológicos, torna a leitura extremamente aliciante. Edição Bertrand.

Em 2003, parece que toda a gente leu Mais Rápido Que a Luz, o livro-sensação do cosmologista João Magueijo. Aparentemente, um tema tão esotérico como a teoria da velocidade da luz variável era acessível à iliteracia universal. Radicado no Reino Unido há mais de vinte anos, Magueijo, professor de física teórica no Imperial College de Londres, resolveu agora contar como vê a sociedade britânica. Bifes Mal Passados é o relato desabrido da sua experiência em terras de Sua Majestade. Ao contrário do livro anterior, que teve de ser traduzido, este foi escrito em português. Em nota final fica esclarecido que os «passeios e outras catástrofes» aconteceram mesmo. Num tom rude, Magueijo passa em revista a hierarquia de classes, os sotaques, as “public schools”, o clima, os motins raciais, o sexo, o desporto, as férias, os animais domésticos, a alimentação, o álcool (as páginas sobre Gales são eloquentes), a religião, as idiossincrasias académicas, a “indústria financeira”, a síndrome pós-colonial, etc. Fique dito que não me incomodam os palavrões: os genitais têm nome e Magueijo faz muito bem em recusar metáforas pífias. Sem abdicar dos pressupostos do autor, Bifes Mal Passados podia ser um livro divertido, e pedagógico, em vez de ser um livro quezilento. Publicou a Gradiva.

Nunca perceberemos o sucesso de certos autores. É o caso do contista e romancista americano Jess Walter, cujo livro mais recente acaba de ser traduzido. A Bela Americana traz na capa a sentença de Richard Russo: «Para quê poupar nas palavras? É uma obra-prima absoluta.» Não está sozinho. O New York Times considerou-o um dos cem livros “notáveis” publicados em 2012, ecoando elogios vindos de toda a parte, incluindo o Huffington Post. Só a heterodoxa Salon torceu ligeiramente o nariz. O romance intercala vários flashbacks. Os de 1962 para meter Richard Burton e Elizabeth Taylor na história, os mais antigos para desviar a intriga do foco central. A pretexto da sucessão de incidentes que fizeram da atribulada rodagem de Cleópatra um caso de estudo, o autor mistura factos com insinuações para colar Burton a Dee Moray, a personagem do romance que inspirou o título infeliz da edição portuguesa. Admito que os mexericos (como descritos entre as páginas 183 e 188 e noutras partes) tenham sustentação, pois quem acompanhou a imprensa da época lembra-se do halo de escândalo que envolveu a produção do filme de Mankiewicz. O óbice é outro. Walter parece ter querido escrever dois livros, não acabou nenhum, e resolveu o impasse misturando as partes. Veja-se como os capítulos “novela italiana” e, em especial, o diário de Alvis Bender, não encaixam nos do outro lado do Atlântico. Com sentido das proporções quando trata de cinema, a mordacidade é de regra: «Os filmes hoje em dia não passam de veículos de concessões...» O essencial do livro é sobre a indústria (sem esquecer a igreja da Cientologia), sendo citados de forma mais ou menos provocatória dezenas de actores e realizadores. Laurence Olivier surge em discurso directo e temos direito a uma tirada de mau gosto sobre “Larry” e John Gielgud. Em todo o caso, o contraponto entre religião e cinema está bem apanhado: «Não eram as salas de cinema os nossos templos, o único sítio onde as pessoas entravam separadas, mas saíam duas horas depois juntas, com a mesma experiência, as mesmas emoções conduzidas, a mesma moral? [...] O que era isso, senão uma religião?» Retrato cínico de Hollywood, portanto. Mas para roman à clef é deveras abstruso. Publicou a Asa.

Etiquetas: ,

TECNOGATE


Os dois requerimentos que vemos na imagem, ambos assinados por Pedro Passos Coelho, provam: um, o actual PM requereu a atribuição do subsídio de reintegração em Outubro de 1999 (receberia cerca de 60 mil euros em Maio do ano seguinte); dois, durante a tramitação do processo, reiterou, em Fevereiro de 2000, ter exercido funções de deputado em regime de exclusividade durante a VI e VII Legislaturas. No requerimento da esquerda pode ainda ler-se a seguinte nota: «Não consta que o Sr. ex-Deputado tenha enviado as declarações do IRS relativas aos anos 1995/99.» Sobre este assunto, o actual PM declarou há dias: «Não tenho presente todas as responsabilidades que desempenhei há 15 anos...» Também se esqueceu de ter recebido honorários da Tecnoforma, «cinco mil euros durante vários meses», ao mesmo tempo em que era deputado em regime de exclusividade.

A cereja em cima do bolo é a carta enviada ontem, pelo actual PM, à Procuradoria-Geral da República, indagando «se houve algum ilícito no recebimento de montantes não declarados [ao Fisco] e com origem na Tecnoforma...» Porém, como lembra Braga Temido, antigo procurador-geral distrital de Coimbra, «um crime que prescreveu não pode ser investigado». Também ouvido pelo Público, o constitucionalista Manuel Costa Andrade foi peremptório: «É ridículo abrir um inquérito que já se sabe que será de imediato arquivado.» Comentários para quê?

[A imagem é do Público. Clique para ler melhor.]

Etiquetas: , ,

quarta-feira, Setembro 24, 2014

CITAÇÃO, 499


Pedro Santos Guerreiro, A cabeça de Passos está no cepo, Expresso Diário. Excertos, sublinhados meus:

«O primeiro-ministro assinou hoje [ontem] uma carta em branco de demissão. [...] Se forem confirmadas as suspeitas que ainda não foram desmentidas, Pedro Passos Coelho violou a lei nos anos 90. Se violou o estatuto de incompatibilidades da Assembleia da República, recebeu então mais dinheiro do Parlamento do que devia no subsídio de reintegração. Se recebeu dinheiro da Tecnoforma que não declarou, então pior: fugiu aos impostos. E não só não é possível ter um primeiro-ministro que praticou evasão fiscal [...] Não é crível que alguém se esqueça ao fim de 15 anos de receber cinco mil euros durante vários meses. Isso não existe, ou Passos recebeu ou não recebeu. Se recebeu, não basta pedir desculpa, Passos tem de demitir-se. [...]»

[Imagem: primeira página do parecer jurídico da Assembleia da República, assinado por Henrique Pereira Teotónio, em 23 de Maio de 2000, sobre a atribuição do subsídio de reintegração ao então deputado Pedro Passos Coelho. O documento de cinco páginas está disponível na íntegra no Expresso Diário. Clique para ler melhor.]

Etiquetas: , , ,

VALE TUDO?

 
Acusando António Costa de ser amigo de colaboradores de Ricardo Salgado, ao citar sem pudor o nome do advogado Nuno Godinho de Matos, fundador do PS e administrador do BES durante seis anos, António José Seguro deixou o país atónito. A promiscuidade entre a alta finança e o milieu político não se combate com insinuações obscenas. É irrelevante saber se António José Seguro tem condições para disputar as próximas legislativas em nome do PS. Trata-se de deixar claro que um homem deste calibre não pode estar à frente de um partido.

Etiquetas: ,

sexta-feira, Setembro 19, 2014

A VIDA COMO ELA É

 
A independência da Escócia foi rejeitada por 55,3% dos eleitores. Não é uma vitória avassaladora, mas também não é um taco-a-taco. Onze pontos de diferença são a linha de fronteira. A abstenção ao referendo foi de 15,4%. A imagem é do Guardian e reflecte o resultado oficial. Clique na imagem.

Etiquetas: ,

quinta-feira, Setembro 18, 2014

TO BE, OR NOT TO BE

 
Cerca de 4,3 milhões de pessoas residentes na Escócia (escoceses, britânicos de variada proveniência, estrangeiros), de idade igual ou superior a 16 anos, inscreveram-se para votar no referendo que hoje coloca Edimburgo perante o dilema de ser independente ou continuar parte do Reino Unido. Estando as urnas abertas até às dez da noite, não deverá haver resultados conclusivos antes das duas da madrugada. A sondagem mais recente aponta para a vitória do NÃO, com 53%. Isabel II está, como sempre no Verão, em Balmoral. É de prever que as luzes se apaguem tarde no castelo.

Etiquetas: ,

WILBUR SMITH

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Vingança de Sangue, de Wilbur Smith (n. 1933), autor que vendeu mais de 120 milhões de exemplares dos seus livros, muitos dos quais foram adaptados ao cinema. Smith nasceu na antiga Rodésia do Norte, actual Zâmbia, e não causa surpresa que África ocupe lugar de destaque na obra. Por exemplo, A Time to Die, romance de 1989 que encerra a série Courtney, é sobre a Guerra Civil Moçambicana. E a série Ballantyne tem acção centrada na antiga Rodésia do Sul, actual Zimbabwe. Vingança de Sangue, o título mais recente, é um thriller pouco subtil, encharcado em lugares-comuns. Prolonga a saga iniciada com A Lei do Deserto, trazendo de volta a panóplia de horrores associados a rituais somalis. Com o ser pouco original, a narrativa é frouxa e repetitiva. Um verdadeiro flop.

Etiquetas: ,

quarta-feira, Setembro 17, 2014

INFANTILIDADES


O Partido Socialista anda, desde 1995, a propor a reforma do sistema eleitoral. Vai fazer vinte anos que a medida consta dos programas eleitorais do partido. Porém, fiado na falta de memória da opinião pública e na preguiça dos media, António José Seguro tirou ontem da cartola uma Proposta de Deliberação atinente à redução do número de deputados. Não apresentou, como se esperaria, um projecto de lei. Divulgou um paper com gralhas (ver imagem) a que chamou Proposta de Deliberação, figura inexistente na Constituição. Seguro propõe que a AR seja composta por 181 deputados, fasquia que bloqueia a representação de partidos pequenos, como o CDS e o BE, e reduziria a bancada da CDU. Contudo, Seguro diz estar preocupado com a «distorção da representação proporcional das várias correntes de opinião». Correntes de opinião? Opinião?

De acordo com a Constituição (art.º 148.º), A Assembleia da República tem o mínimo de cento e oitenta e o máximo de duzentos e trinta deputados, nos termos da lei eleitoral. O primeiro passo seria mudar a lei eleitoral, alteração que faz parte de um projecto de reforma de todo o sistema, propósito aparentemente consensual, mas como os partidos têm visões diferentes da questão, a mudança aborta.

Sem surpresa, o acto de prestidigitação do actual secretário-geral do PS ignora a proposta de reforma do sistema eleitoral apresentada pelo PS em 1998, quando António Costa era ministro dos Assuntos Parlamentares. Patético? Lamentável? Ou apenas ridículo?

Etiquetas: , ,

terça-feira, Setembro 16, 2014

NÚMEROS OFICIAIS

 
A Comissão Eleitoral das Primárias do PS, acto marcado para o próximo dia 28, divulgou estes números. A imagem é do Público. Clique.

Etiquetas:

segunda-feira, Setembro 15, 2014

O SENHOR QUE SE SEGUE


Eduardo Stock da Cunha, 51 anos, director no Lloyds em Londres, é o senhor que se segue à frente do Novo Banco. Substitui Vítor Bento, que provavelmente regressará ao Conselho de Estado, onde o seu lugar permanece vago, e à docência na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Seria estranho que voltasse à SIBS, embora o site oficial da empresa continue a ter o seu nome inscrito como presidente do Conselho de Administração.

Em sua defesa, muita gente (até Sócrates) diz que ele tinha as mãos e os pés atados, porque quem de facto manda no Novo Banco é o Fundo de Resolução. Mas o CEO de uma empresa é alguém mandatado para executar a política dos accionistas. É para isso que servem as assembleias-gerais. Não pode ser um “iluminado” a brincar aos Rothschild. Sucede que os accionistas do Novo Banco são dois: o Estado, que meteu mais de quatro mil milhões de euros no Novo Banco; e o Fundo de Resolução, o sindicato de bancos que lá meteu perto de mil milhões. Bento não podia fugir à realidade: a ministra das Finanças tutela em nome do Estado, o governador do Banco de Portugal monitoriza do Fundo. Não compreender isto é surpreendente. Bento demitiu-se porque não quer chatices, e está no seu direito. Um homem que em 2011 não aceitou ser ministro das Finanças de um governo suportado por uma maioria parlamentar, não tem guts para gerir o imbróglio Novo Banco vs BES. O resto é conversa fiada.

Se não acontecer nada de extraordinário, Eduardo Stock da Cunha tomará posse esta semana como CEO do Novo Banco. Tem contactos e larga experiência na finança internacional, e obrigação de saber ao que vem: vender o Novo Banco, de preferência até ao Natal. Traz com ele três homens de confiança: Jorge Freire Cardoso, administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos; Vítor Fernandes, que fez parte da equipa de Carlos Santos Ferreira no Millenium BCP; e José João Guilherme, que liderou o BIM, em Maputo, e era agora gestor de empresas não-financeiras. Vêm todos com “acordos de cedência” (ou seja: licenças sem vencimento) dos lugares de origem. A ver vamos.

[Imagem: foto de Nuno Fox, Expresso, Clique.]

Etiquetas: ,

sexta-feira, Setembro 12, 2014

CITAÇÃO, 498


Vasco Pulido Valente, Primarismos, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«O jovem José Seguro tem um génio quase miraculoso para fazer asneiras sem remédio. Explicar, por exemplo, num debate de televisão que se demitiria se tivesse de aumentar impostos não passava pela cabeça de ninguém, excepto talvez pela cabeça de uma criança de oito anos, um pouco atrasada. Promover este extraordinário indivíduo a secretário-geral do PS ou a primeiro-ministro seria uma rematada loucura e poria rapidamente Portugal inteiro numa crise de nervos. As coisas que ele pode dizer, capazes de meter o país num indescritível sarilho, achando que está a exibir a sua grande virtude ou beneficiar o PS e a Pátria. Não tem equilíbrio, nem prudência, nem sensatez. Como, de resto, provou à primeira oportunidade quando Costa o desafiou. [...] Esta querela do PS é muito mais dramática e muito mais perigosa do que se pensa.»

[Imagem: foto de Nuno Ferreira Santos, Público. Clique.]

Etiquetas: ,

quinta-feira, Setembro 11, 2014

 
Vi a seguir ao almoço o debate de ontem à noite na SIC entre Costa e Seguro. Não me vou alongar porque teria de ser desagradável, isto é, rasteiro ao nível de Seguro. Não me apetece. A tirada da janela (Costa não faria outra coisa senão estar à janela) dá a medida do carácter do actual secretário-geral do PS. Não podemos ter um gajo com este perfil à frente do maior partido da Oposição. Seria pleonástico sublinhar que Costa, sem nunca perder o sangue-frio (o 6½ valeu o debate), atirou o dinky toy borda fora.

Etiquetas: ,

MEG WOLITZER


Hoje na Sábado escrevo sobre Os Interessantes, de Meg Wolitzer (n. 1959), autora que não faz parte do selecto grupo de autores americanos com vénia garantida na Europa. A crítica anglo-americana não tem poupado elogios, comparando a autora a John Updike, Philip Roth, Tom Wolfe, Jonathan Franzen e Jeffrey Eugenides, o que me parece excessivo. Franzen e Donna Tartt chegavam e sobravam. Os Interessantes é um romance de iniciação sem pretensões de ruptura conceptual. A história começa no Verão de 1974, quando, num campo de artes visuais e performativas no Massachusetts, meia dúzia de adolescentes de ambos os sexos fazem um pacto para a vida. O discurso, ora mordaz, ora divertido, adequa-se a cada situação concreta: «Sim, a questão da bichice já tinha sido decidida muito tempo antes, mas Jonah era protector em relação às suas próprias predilecções, defendendo-as e mantendo-as sempre debaixo de olho.» A linguagem “solta” e o tom despretencioso podem dar uma ideia errada, mas este nono romance de Wolitzer é de facto a epopeia da geração que perdeu a inocência a reboque do caso Watergate. A narrativa alimenta-se de remissões subtis sobre costumes, a contracultura dos anos 1970, arte, música, literatura, sexo (em todas as variantes e sempre descrito com naturalidade), disfunções sociais, terapia grupal, etc. A ironia é de regra. Certo “darwinismo” explica o destino dos membros do grupo, cujas origens sociais são sublinhadas a traço grosso.

Escrevo ainda sobre Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. O volume colige três romances: Um Estanho Amor (1999), Os Dias do Abandono (2002), considerado a sua obra-prima, e A Filha Obscura (2006), cada um com seu tradutor. Elena Ferrante é o pseudónimo de alguém que escreve em italiano mas não se sabe se é mulher ou homem. O conspícuo L’Unità sustenta desde 2006 que Ferrante é um pseudónimo do encenador e escritor Domenico Starnone. Quem quer que seja, Ferrante assina uma obra portentosa, sem paralelo na literatura italiana contemporânea. James Wood fixou a lápide definitiva: «Comparado com Ferrante, Thomas Pynchon é um exibicionista devasso.» Um português dirá: comparado com Ferrante, Luiz Pacheco é um menino de coro. Isto dá a medida da crueza da prosa. A nitidez gráfica e vocabular das cenas de sexo, bem como o modo transgressor como a maternidade é vista, tornam a leitura uma vertigem. Publicou a Relógio d’Água.

Etiquetas: ,

quarta-feira, Setembro 10, 2014

FLOP

 
Não gostei do debate entre Costa e Seguro, que vi em diferido. Judite de Sousa não fez perguntas, fez discursos. O tratamento por tu, iniciado por Seguro, é inadequado. Costa resistiu mas acabou por entrar no jogo. Ao contrário da expressão serena de Costa, Seguro manteve um sorrisinho sacana, parecia um rufia pimpão de novela mexicana. Costa esteve bem quando lembrou que muita água passará sob as pontes (e se calhar também sobre), aqui e no vasto mundo, antes de poder dizer o que fará em matéria fiscal se e quando chegar ao governo. Seguro deu um tiro no pé quando disse que se demite caso a realidade o obrigue a subir impostos: «Não aumentarei a carga fiscal. Assumo que me demitirei se não houver alternativa.» Quem é que vota num homem que à primeira dificuldade bate com a porta?

Etiquetas: ,

CITIUS

 
Em 2012, os responsáveis pelo Citius, o sistema informático sem o qual os tribunais não funcionam, foram peremptórios: a entrada em vigor do novo mapa judiciário tornaria o sistema inoperante. Era necessário mexer na plataforma. Os procedimentos constam de um documento de 43 páginas entregue à ministra da Justiça há mais de dois anos. Paula Teixeira da Cruz teria de escolher uma de três soluções. Em vez disso, assobiou para o lado. Entretanto, dez técnicos da equipa que geria o Citius demitiram-se em Fevereiro de 2013. Isto não aconteceu na Mauritânia. Até ver, ainda pertencemos à Europa.

Etiquetas: , ,

terça-feira, Setembro 09, 2014

FOLHETIM


Em Setembro de 2009, Noronha Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, tendo concluído que as escutas a Sócrates eram irrelevantes para o processo Face Oculta, decretou a sua nulidade e destruição imediata. Mas João Marques Vidal, o procurador titular da investigação, considerou que as escutas indiciavam um crime de atentado ao Estado de Direito. (Modere o riso.) E não cumpriu a ordem do Supremo Tribunal.

Em Abril de 2010, o juiz de instrução criminal de Aveiro que tinha a responsabilidade do processo, exarou o seguinte despacho:

«Procedi a nova análise dos produtos a destruir, podendo afirmar, com absoluta segurança que os mesmos não possuem qualquer conexão, remota que seja, com os factos e/ou arguidos investigados nestes autos

Não é necessária grande argúcia para perceber o óbvio: se as escutas fossem mesmo relevantes (e relevante, aqui, significa incriminar Sócrates), há muito que teriam sido transcritas no Correio da Manhã.

Porém, como João Marques Vidal revelou em Novembro de 2010, as escutas continuavam por destruir. Entretanto, Noronha Nascimento cessou as funções de presidente do Supremo Tribunal de Justiça em Junho de 2013, seis meses antes de atingir o limite de idade.

Só ontem, 8 de Setembro de 2014, no gabinete de Raul Cordeiro, juiz-presidente do colectivo de Aveiro, as famosas escutas foram destruídas, a x-acto, tesoura e máquina trituradora. E porquê? Porque, como reza o acórdão, as referidas escutas «nada têm a ver com a matéria dos autos, sendo absolutamente estranhas ao objecto do processo...» Cinco anos depois, cumpriu-se o despacho de Noronha Nascimento. Se isto é um processo exemplar, não imagino o que seja o seu contrário.

Com base na destruição dos DVD e CD, os advogados de dois arguidos vão pedir a anulação do processo.

Etiquetas: , ,

segunda-feira, Setembro 08, 2014

FRACTURA

 
Rezava a lenda que António José Seguro tinha o aparelho na mão. Porém, este fim-de-semana realizaram-se eleições para as Federações do PS, tendo os apoiantes de António Costa obtido vitória em 10 e os de Seguro em 9. A maioria dos presidentes de Concelhia também apoia Costa. Se a isto juntarmos o apoio declarado por 85 presidentes de Câmara (em 150), e o de 53 deputados (numa bancada de 74), bem como o dos históricos, como Soares, Sampaio, Alegre e outros, vemos como Seguro perdeu o partido. Mesmo que as Primárias do próximo dia 28 tragam alguma surpresa, acabará por sair da pior maneira, por culpa sua. Não esquecer que o folhetim só termina no Congresso.

Etiquetas:

sábado, Setembro 06, 2014

MENTIRA


A criação do Novo Banco tem várias pontas soltas? Tem. A excelente entrevista que o advogado Miguel Reis deu ao jornal i no passado dia 1, contém revelações que dão que pensar? Contém. Mas dizer, como diz Margarida Bon de Sousa, hoje, no jornal i, a enquadrar uma notícia que envolve o grupo Jerónimo Martins, que um dos factores de quebra de confiança tem a ver com o facto, e cito a jornalista, «de se deixar de conseguir gerenciar as contas do Novo Banco na plataforma digital, o que obriga as empresas e os particulares a deslocarem-se aos balcões do Novo Banco ou a um multibanco para conseguirem fazer uma simples transferência bancária ou carregarem telemóveis...» é uma mentira que não resiste a qualquer verificação. É uma mentira que envergonha o jornal. E um disparate («uma simples transferência bancária...») que a realidade desmente. Não faço a mínima ideia do que passa nos departamentos de crédito, títulos, leasing, livranças, etc., mas sei por experiência própria que nunca a plataforma digital nunca deixou de funcionar nos exactos moldes em que sempre funcionou. Lamentável. Foi para isto que o jornal mudou de direcção?

Parece anedota, mas não é. A edição online do jornal i mantém, hoje, às 10 da manhã, a imagem da capa de 4 de Agosto. A de hoje inexiste. Para quem que se queixa de plataformas digitais...

Etiquetas: , , ,

sexta-feira, Setembro 05, 2014

BILIÃO DO BCE OU DA RESERVA FEDERAL?

 
A manchete do Diário de Notícias segue a norma europeia ou americana? Na Europa, bilião é um número com doze zeros à direita do 1. Nos EUA, bilião é um número com nove zeros à direita do 1. Faz toda a diferença. Clique na imagem.

Etiquetas: , ,

quinta-feira, Setembro 04, 2014

CITAÇÃO, 497


Não vi a entrevista que António Costa deu à TVI24, mas chegou-me a reprodução de parte dela. Cito duas passagens:

«Acha que eu sei o que é que se passa numa secção? Agora, quem é responsável pelos ficheiros, que é o caso de António Galamba e Miguel Laranjeiro, esses têm obrigação de saber. E, detectando problemas desses, têm uma outra obrigação, que é corrigir. E têm uma outra obrigação ainda, que é não ocultar, não esconder, quem são os responsáveis por essas acções

«É um pouco extraordinário, acho eu, que ao fim destes três anos seja mais clara a demarcação entre a doutora Manuela Ferreira Leite e o actual Governo do que entre a direcção do PS e o actual Governo

Etiquetas: ,

VIRGINIA WOOLF


Hoje na Sábado escrevo sobre um volume de Ensaios Escolhidos de Virginia Woolf (1882-1941), reconhecida sobretudo pela obra ficcional, embora tenha escrito largamente na imprensa sobre livros e cultura em geral. Os textos ora reunidos são uma pequena amostra dessa actividade. Virginia nunca deixa de surpreender. Os adeptos da prosa abstrusa têm aqui a prova de que o Modernismo não obliterou a clareza de raciocínio. Para alguém cuja imagem está associada ao glamour do grupo de Bloomsbury, a forma como discreteia sobre Montaigne, Defoe, Conrad, Hardy, Sterne, Whitman, Henry James ou Jane Austen, e temas tão diversos quanto o romance gótico, a “personagem” na ficção, o ensaio moderno ou a arte da biografia, estes ensaios são deveras reveladores de um espírito nos antípodas da pessoa «isolada, mal informada e pouco sensata» que confessa ser em Mr. Bennett and Mr. Brown. O volume omite o nome do editor responsável pela selecção, podendo presumir-se que a tarefa coube a Ana Maria Chaves, a tradutora. Vários destes ensaios ilustram a desenvoltura crítica da autora. Três exemplos: Como se deve ler um livro?, de 1925; Eu sou Christina Rossetti, escrito no ano do centenário da famosa pré-Rafaelita; e Os romances de Turgenev, de 1933. Mas há muito por onde escolher.

Escrevo também sobre A Casa da Aranha, de Paul Bowles (1910-1999), autor que em 1947 trocou Nova Iorque por Tânger, onde permaneceu durante mais de 50 anos. A obra ficcional tem sido sobrevalorizada, o que não é de admirar, tendo em vista a lenda alimentada por uma dúzia de biografias indiscretas. Ao invés, a de compositor é relativamente ignorada. A Casa da Aranha é o mais linear dos seus romances. Ao contrário dos anteriores, tem balizas definidas: colonização francesa e nacionalismo árabe. Os fios da História (exílio do Sultão, dogmas do Islamismo, etc.) apoiam uma intriga bem urdida. A tradução de Jorge Pereirinha Pires é uma mais-valia. Editou a Quetzal.

Etiquetas: ,

terça-feira, Setembro 02, 2014

A VIDA COMO ELA É

 
O auditor não conhece o valor dos activos que passaram para o Novo Banco. Repito: não conhece. Bento conhecerá?

[Imagem: capa do ECONÓMICO com foto de Paulo Alexandre Coelho. Clique.]

Etiquetas: , ,