Segunda-feira, Junho 17, 2013

VIRGEM MARGARIDA


Chegou a altura de contar o outro lado da história moçambicana? Parece que sim. Por “outro lado” entenda-se o Moçambique pós-1975, os anos de todos os excessos: maoísmo sem freio, campos de reeducação, guerra civil, fome, êxodo de populações nativas, etc. O realizador brasileiro Licínio Azevedo (n. 1951), radicado em Moçambique desde 1975, fundador da Ébano Multimédia, autor de várias longas-metragens e documentários, que trabalhou com Ruy Guerra (n. 1931, natural de Moçambique, radicado no Brasil desde 1958, autor do primeiro filme moçambicano pós-independência), é o autor do recentíssimo Virgem Margarida, que tem andado por alguns festivais de cinema  —  Toronto, Ouagadougou, Belgrado, Varsóvia, Cartago, etc.  —, e era útil trazer a Portugal. Em Maputo a estreia foi no passado dia 14.

Iva Mugalela, Ermelinda Cimela, Victor Gonçalves, Sumeia Maculuva e Rosa Mario são os principais actores. Virgem Margarida foi produzido por Pedro Pimenta e Marianne Dumoulin, com apoios diversificados, portugueses (Instituto do Cinema e do Audiovisual, RTP), franceses (Ministère des Affaires Étrangères, através do Fonds Images Afrique) e outros. O argumento é de Jacques Akchoti. Diz quem viu que é surpreendente.

Esperar que o filme chegue a Portugal. Clique na imagem.

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Sábado, Junho 15, 2013

CITAÇÃO, 449


José Pacheco Pereira, A greve, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«O que está em causa para o Governo na greve dos professores é mostrar ao conjunto dos funcionários públicos, e por extensão a todos os portugueses que ainda têm trabalho, que não vale a pena resistir às medidas de corte de salários, aumentos de horários e despedimentos colectivos, sem direitos nem justificações, a aplicar a esses trabalhadores. É um conflito de poder, que nada tem a ver com a preocupação pelos alunos ou as suas famílias. Há mesmo em curso uma tentação de cópia do thatcherismo, à portuguesa, numa altura em que uma parte do Governo pende para uma espécie de gotterdammerung revanchista e vingativo, de que as medidas ilegais como a recusa do pagamento do subsídio de férias pela lei em vigor são um exemplo. Não é porque não tenha dinheiro, é porque quer mostrar que é o Governo que decide as regras do jogo e não os tribunais e as leis. Qualquer consideração pelas pessoas envolvidas, não conta. [...]

Ainda estou à espera que alguém me explique por que razão não se diz preto no branco, sem bullshit, que a greve é justificada pelo simples motivo de que nenhum grupo profissional numa sociedade democrática, seja empregado de uma empresa, ou do Estado, pode aceitar que se lhe torne o despedimento trivial, por decisões que são de proximidade (os chefes imediatos), e que não têm que ser justificadas a não ser por uma retórica vaga de “reestruturação”, um outro nome para cortes cegos e pela linha da fraqueza dos “cortados”. [...]

E também não se diz, sem bullshit, que não é fácil manter a calma e a civilidade quando se tem que defrontar do lado das negociações pessoas que mentem quanto for preciso [...] Os mesmos que, nos últimos dois anos, tudo prometeram e nada cumpriram e que ainda há poucos meses juravam em público que nada disto iria acontecer. Ou seja, gente não fiável, de quem se pode esperar tudo e cujo discurso nas suas ambiguidades deliberadas está a ser feito para que tudo seja possível. [...]

E tem ainda a vantagem de ser fácil explicar, e de ser fácil de compreender por toda a gente, que é indecente o que se está a fazer aos funcionários públicos e aos professores. E assim socializar o mesmo tipo de revolta que muitos dos actuais alvos do Governo sentem, porque ela não é diferente da que tem muitos milhões de portugueses. Digo bem, milhões. Não é coisa de somenos.»

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Sexta-feira, Junho 14, 2013

JOÃO PINTO E CASTRO 1950-2013

 
A notícia que nunca quereríamos ter de dar: morreu hoje o João Manuel Pinto e Castro. Tinha 62 anos. Sentidas condolências a sua mulher, filhos e restante família. Até sempre, João.

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Quinta-feira, Junho 13, 2013

ALCORA

 
Um livro inesperado sob vários aspectos. Os anos derradeiros da guerra colonial contados por quem os viveu de perto, no caso dois coronéis, um da Artilharia, Aniceto Afonso, outro dos Comandos, Carlos de Matos Gomes. Em Outubro de 1970, Portugal selou com a África do Sul e a Rodésia uma aliança militar designada Alcora, mantida em segredo da opinião pública. Algumas novidades absolutas em quatrocentas páginas de informação, documentos em fac-símile, detalhe exaustivo do avanço da Frelimo em Tete e no corredor da Beira, a tibieza de Caetano, o plano de Jorge Jardim, os fiascos de Kaúlza, etc. Fernando Rosas assina o prefácio. Editou a Divina Comédia.

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Quarta-feira, Junho 12, 2013

TEOLINDA GERSÃO


Hoje na Sábado escrevo sobre As Águas Livres — Cadernos II, de Teolinda Gersão (n. 1940). Textos que vêm «de vários tempos, circunstâncias e lugares», podendo «encaixar-se como matrioscas ou fugir em todas as direcções como fagulhas». Romancista várias vezes premiada, Teolinda Gersão dá-nos a ler o seu mundo particular, em apontamentos que vão da notação prosaica à síntese hermenêutica. Um dos textos, o que vai da página 101 à página 109, é um conto perfeito. O registo autobiográfico surge quando recorda o incêndio do Chiado, os anos de São Paulo, a génese de alguns livros, ou o estado das coisas: «O Estado não é uma pessoa de bem. [...] A sua moral está abaixo da de qualquer pessoa. Ou mesmo abaixo da moral de um cão.» O prazer de contar e reflectir é contagiante.

Escrevo ainda sobre Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, do francês Mathias Énard (n. 1972), ficção que tem como ponto de partida a projectada construção de uma ponte no Corno de Ouro (o estuário que divide as duas partes europeias de Istambul), trabalho entregue por Bayazid II, sultão de Constantinopla, a Miguel Ângelo. Énard efabula muito, mas a escrita não é exaltante. Editou a Dom Quixote. O livro recebeu o Prémio Goncourt des Lycéens 2010.

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Terça-feira, Junho 11, 2013

ATENAS SEM TV PÚBLICA

 
Pensou que já tinha visto tudo? O governo grego anunciou esta tarde que a televisão pública do país, a ERT, fecha hoje à meia-noite. A medida, sublinhou o governo de Samaras, foi imposta pela troika. Os seus 2.700 trabalhadores entram no desemprego às zero horas, sem direito a qualquer tipo de indemnização, porque o posto de trabalho desaparece. A estação é extinta nos termos de um decreto do governo, aprovado hoje, com entrada imediata em vigor, o qual dispensa escrutínio parlamentar. (O diploma aprovado prevê o encerramento de qualquer entidade pública por decisão unilateral do governo.) Além dos canais de televisão, os emissores públicos de rádio também encerram. O que mais será preciso para que Atenas saia da UE?

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Sábado, Junho 08, 2013

SUBSÍDIOS

 
Aprovado anteontem em conselho de ministros. Sem comentários. A administração central (autarquias) vai pagar tudo na íntegra dentro de duas semanas. A imagem é do Público. Clique para ler melhor.

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Terça-feira, Junho 04, 2013

CITAÇÃO, 448


Eugénio Lisboa, Fazer um bom uso dos clássicos, Jornal de Letras, sublinhado meu:

«Os clássicos são um descanso: pode-se pagar-lhes o tributo que lhes é devido, mesmo sem os ter lido. Se dissermos que Homero é grande, não corremos o risco de nos virem perguntar se, por acaso, já o lemos. Ele é grande, por definição, porque é um clássico, e continua a ser grande, quer o tenhamos lido quer não. A nossa opinião sobre ele é completamente irrelevante. Se por um bambúrrio qualquer, eu desse com um verso coxo, na Odisseia, ninguém me prestaria atenção. Homero é Homero e está tudo dito: quem devia estar coxo era eu...

Como digo, é um descanso. Isto mesmo tem sido reconhecido, com alguma maldade, por alguns escritores anglo-saxónicos (esses eternos questionadores e desmancha-prazeres, que, mesmo quando aplaudem, não se deixam entusiasmar!) Chesterton, por exemplo, no seu ensaio “Tom Jones and Morality”, observa, com desenvoltura escarninha: “Um grande clássico é um homem de quem se pode fazer o elogio sem o ter lido.” E Mark Twain, depois de ter dito o mesmo, quase palavra por palavra, em “Pudd’nhead Wilson”, agravou o ultraje, ao observar: “Um clássico é algo que toda a gente quer ter lido e ninguém quer ler” (“The Disapearance of Literature”).

Sim, sejamos sinceros (nada de batota): tirando Vasco Graça Moura e uns especialistas universitários, quem, entre nós, leu “A Divina Comédia”, do princípio ao fim? V. diz que leu? Mentiroso!

A propósito de Dante, li, num livro de Paul Morand, sobre a morte, uma história deliciosa e saboreadamente afrontosa. Conta-se que, estando Lope de Veja em “artigo de morte”, pediu que lhe levassem ao leito da dita, não um padre mas, antes, um médico. Chegado este, o grande dramaturgo e poeta explicou o seu problema: queria saber, tão exactamente quanto possível, o tempo que tinha de vida. É que tinha uma terrível confissão a fazer, mas esta era tão medonha, tão descomunal, que só teria ânimo de a fazer, se morresse logo a seguir. Não suportava a ideia de viver muito, depois de confessar aquela vergonha. O médico compreendeu a situação e fez um exame meticuloso ao moribundo, no final do qual lhe disse que, se tinha algo de que se queria aliviar, o melhor era fazê-lo depressa, porque o fio da vida estava mesmo a quebrar-se... Lope de Veja deu então um suspiro de alívio e sussurrou: “O que eu quero confessar é que acho o Dante tão chato!” Dito o que, cheio de sorte, morreu.

Podem tirar-se desta história várias conclusões, conforme as várias escolas de pensamento. Eu tiro, sobretudo, uma: a opressão intelectual que exerce sobre as pessoas a glória pesada dos grandes clássicos é tal, que nem “um monstro da natureza” como Lope se atreveu a dar, em tempo útil, uma opinião franca sobre um clássico  que supinamente o chateava! Na sua segurança inabalável, os clássicos confortam mas também aterram! “Que sentido de segurança, num velho livro que o Tempo criticou por nós!”, suspirava James Russell Lowell, o poeta romântico, diplomata e abolicionista americano. É tão bom não termos que pensar nem afrontar opiniões contrárias... Repito: é um descanso. A verdade, porém, é que toda esta indiscutida veneração, por mais que tenha a bênção do Tempo, me parece intelectualmente pouco saudável. Eu tenho todo o direito de achar, como achava um grande escritor francês, que a Ilíada é pueril (ele achava-a “idiota”). E não há razão para alaridos: tenhamos, sobre o assunto, uma sóbria e salutar conversa, eis tudo. Nisto, subscrevo, de todo o coração, o conselho do velho Lord Chesterfield, numa das suas cartas ao filho: “Fala dos modernos, sem desprezo, e dos antigos, sem idolatria; julga-os todos pelo mérito e não pela idade” (sempre o bom senso terráqueo e irritante destes ingleses, para quem tudo é sempre questionável  —  como na ciência!).

A inquestionada veneração pelo “clássico” pode até ter razões menos nobres: o seu “estabelecimento” definitivo assegura a carreira de muita gente, mesmo que alguns não disponham dos verdadeiros recursos necessários a uma fruição autêntica do que faz o real valor daquele. Os irmãos Goncourt, por exemplo, numa das “entradas” desenvoltas do seu Journal, não estiveram com papas na língua: “A Antiguidade foi criada para proporcionar aos professores o seu pão com manteiga.”

Há, nisto, admito, algum exagero. Mas há  —  e é, repito, intoleravelmente opressivo  —  um equivalente excesso, na admiração acrítica e beócia de um clássico, só porque, oficialmente, o é.

Dito o que fica para trás, para desatravancar o que se segue de qualquer aura de veneração beatífica, não custa aceitar que os clássicos, quando são bons, nos fazem boa serventia. Há até um bom livro a escrever sobre “o bom uso dos clássicos”. Em períodos difíceis da minha vida, o filósofo Vauvenargues ou, por exemplo, Schopenhauer, ajudaram-me a vencer a crise. No seu seminal ensaio sobre Goethe (“desde dientro”), o imprescindível Ortega y Gasset observa: “Só nos resta uma maneira de salvar um clássico: desistirmos de venerá-lo e usarmo-lo para a nossa própria salvação.” As conversas do autor do Fausto com Eckerman “salvaram-me”, de uma vez que estive à beira do abismo.

Tudo isto, a propósito de uma leitura que tenho andado a fazer de um clássico: os contos dos Irmãos Grimm. Aproveito para saudar a bela e exaustiva edição integral dos Contos da Infância e do Lar, com coordenação científica de Francisco Vaz da Silva e tradução, introdução e notas de Teresa Aiga Bairos. É esta que tenho andado a ler, devagar e muito mastigadamente, como gosto de fazer. Recomendo-a do modo mais enfático. No segundo volume, entre os 91 contos que comporta, escolho um para que alguém  —  não eu  —  possa fazer dele um bom uso. Por outras palavras, para que possa, salvando-se, salvá-lo (ou, salvando-o, salvar-se)... O conto intitula-se “O velho avô e o neto” e ocupa apenas três quartos de uma página (e mais uma “Nota” de página e meia). É curtíssimo, mas um forte teor de sabedoria fecunda pode acolher-se em modesto espaço... A diarreia verbal quase nunca é o melhor veículo.

No continho em questão, fala-se de “um homem muito, muito velho que ficou com os olhos turvos e os ouvidos surdos e os joelhos tremelicantes.” Dou a palavra aos Irmãos Grimm, para não estar a fazer paráfrases desnecessárias: “Quando estava sentado à mesa, mal conseguia segurar a colher e espalhava a sopa na toalha e deixava-a cair da boca. O filho e a nora tinham nojo dele e assim o velho avô acabou por ter de se sentar num canto atrás do fogão, e eles davam-lhe a comida numa tigelinha de barro e nem sequer a enchiam. E ele olhava tristemente para a mesa e vinham-lhe lágrimas aos olhos. Uma vez, as suas mãos tremelicantes não conseguiram segurar na tigelinha e ela caíu ao chão e partiu-se. A jovem mulher admoestou-o, mas ele não disse nada e apenas suspirou. Ela comprou-lhe então uma tigelinha de madeira por dois tostões e era dela que ele tinha que comer. Estando ali sentados, o pequeno neto começou a reunir uns pedacinhos de madeira do chão. «O que estás a fazer?», perguntou-lhe o pai. «Estou a fazer uma tigelita», respondeu o filho, «para dar de comer ao pai e à mãe quando for crescido». O homem e a mulher entreolharam-se por um momento e depois desataram a chorar.”

Na muito documentada “Nota”, que complementa o conto, os organizadores informam-nos de duas coisas: primeiro, da imensa variedade de versões que há, desta mesma história, o que testemunha a profundidade da ferida que deixou no imaginário universal; segundo, que já o poeta medieval Walther (von der Vogelweide) num seu poema, meditou sobre este tema dilacerante, em versos assim: Os jovens afastaram os velhos / E agora achincalham os velhos. / Isto não fica esquecido /  Até a vossa juventude ser esquecida: / O que aos velhos fizerdes os vossos jovens vo-lo farão.

Sugiro, pois, ao Círculo de Leitores que ofereça ao ministro Victor Gaspar e ao Primeiro Ministro Passos Coelho exemplares destes admiráveis contos de Grimm, à laia de pepita de sabedoria que ajude a evitar que, um dia, daqui a não muitos anos, eles tenham que “desatar a chorar”. O que aos velhos reformados e à velha e estimada Constituição eles andam repetidamente a fazer, agora, os filhos deles lho farão a eles também. O que eles têm congeminado e continuam a congeminar ultrapassa as marcas do decentemente aceitável. Mas cá se fazem, cá se pagam, como dizem os clássicos, quando acertam  —  e acertam um número assustador de vezes!»

[Na imagem, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.]

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Segunda-feira, Junho 03, 2013

A ESFINGE


Agora que o n.º 125 da LER, de Junho, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica A esfinge, publicada no n.º 124 na minha coluna Heterodoxias:

No momento em que a Fundação Gulbenkian patrocina uma exposição sobre a vida e obra de Clarice Lispector, apetece lembrar essa mulher oriunda da distante Tchetchelnik, a aldeia ucraniana onde nasceu em Dezembro de 1920, com o nome de Chaya Pinkhasovna Lispector.

O título da exposição é A Hora da Estrela, título do último romance publicado em vida. Não estou dentro da cabeça dos organizadores, mas parece plausível admitir que a escolha não foi inocente. A história de Macabéa, uma rapariga «incompetente para a vida», é o retrato nítido de alguém que toda a vida dissimulou os recessos mais íntimos da sua personalidade. Por outro lado, considerando “estrela” na sua acepção glamorosa, tendemos a concordar com Gregory Rabassa: Clarice tinha o carisma de Marlene Dietrich — uma star — e escrevia como Virginia Woolf.

Estou curioso em ver a exposição para avaliar até que ponto ilumina a natureza esquiva da autora. Clarice sempre lidou mal com as suas origens, toldadas por miséria extrema e sífilis. A história dos pais, fugidos aos pogroms anti-judaicos que tiveram início em 1918, provocando, só na Ucrânia, mais de trezentos mil assassinatos, é uma lembrança que se obstinou a rasurar. Até à morte da mãe (em 1930), a língua falada em casa dos Lispector era o ídiche. Talvez por isso tenha insistido tanto na identidade brasileira. Afinal de contas, era um bebé de 15 meses quando chegou a Maceió, no Estado de Alagoas.

 Antes de completar 15 anos, Clarice, o pai e as irmãs mudaram-se para o Rio de Janeiro. Detalhe importante: convém não esquecer que o Brasil praticou até ao início dos anos 1940 uma política segregacionista relativamente aos judeus. Foi na antiga capital federal que frequentou o curso de Direito, ali conhecendo o homem que seria seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente (antes do divórcio, o casal teve dois filhos). Em 1943 obteve a nacionalidade brasileira e a carteira de jornalista. No mesmo ano, publicou Perto do Coração Selvagem, romance que provocou um abanão cataclísmico e deu novos contornos à ficção escrita em português. A crítica marxista fez os possíveis por subestimar a obra, mas estava criado o mito.

Em 1944, a caminho de Nápoles, onde Maury fora colocado como vice-cônsul, Clarice passou dez dias em Lisboa. Conheceu João Gaspar Simões e fez amizade com Natércia Freire, com quem manteve correspondência até morrer. Por causa da guerra, a viagem fez-se aos ziguezagues: seis escalas entre o Brasil e a Itália. Não gostou: «As coisas são iguais em toda a parte.» O enfado com países terceiros está bem patente na forma como descreveu uma visita ao Egipto: achou tudo ruim. Não obstante, esteve 15 anos fora do Brasil. Depois de Nápoles, o marido foi colocado em Berna, Torquay e Washington (onde nasceu o segundo filho). Só em 1959 regressou ao Rio de Janeiro.

Aos 38 anos tinha publicados três romances e uma colectânea de contos, mas as dificuldades financeiras obrigaram-na a assinar uma coluna feminina do Correio da Manhã carioca, usando os pseudónimos de Teresa Quadros e Helen Palmer. Foi ainda ghost writer da actriz Ilka Soares. Como cronista assinando em nome próprio, apenas entre 1967-73, no Jornal do Brasil, mas o fantasma anti-semita deu em despedimento. Isso não impediu a construção da obra, que atingiu dois cumes em 1964 — o romance A Paixão Segundo G.H. e a colectânea de contos A Legião Estrangeira. A lenda começava a tomar forma.

Em Setembro de 1966 provocou um incêndio por ter adormecido a fumar: «O estuque das paredes e do tecto caiu...». A mão direita não chegou a ser amputada, mas deixou de servir. Os últimos anos foram terríveis: esquizofrenia do filho mais velho, as suas próprias depressões, dificuldades materiais, o cancro que a matou em menos de um ano. Clarice morreu na véspera de completar 57 anos.

Preciso ir conferir A Hora da Estrela.

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LER 125

 
Saiu hoje a LER n.º 125. Rogério Casanova entrevista o escritor inglês Geoff Dyer, que veio a Lisboa presidir ao júri do BES Photo 2013; e Ana Sousa Dias entrevista o investigador Adriano Henriques (na capa), do ITQB  —  Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa. Um dossiê dedicado a John Le Carré ocupa oito páginas da revista. O resto, que é muito, são as crónicas (a minha é sobre memória e autobiografismo) e secções do costume.

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Sexta-feira, Maio 31, 2013

LIBERTAR PORTUGAL

 
A conferência Libertar Portugal da Austeridade, organizada por Mário Soares, juntou ontem à noite na Aula Magna de Lisboa personalidades das várias sensibilidades da esquerda, tais como, entre outras, Manuel Alegre, Ferro Rodrigues e Vítor Ramalho (PS), Domingos Abrantes e João Ferreira (PCP), João Semedo e Cecília Honório (BE), Garcia Pereira (MRPP), Arménio Carlos (CGTP-IN), Carlos Silva (UGT), Maria do Rosário Gama (APRE), Sampaio da Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, Boaventura Sousa Santos, Vasco Lourenço e Pilar del Río.

O social-democrata Pacheco Pereira também apoiou a inicitiva, tendo enviado a seguinte carta:

«Caro Presidente Mário Soares,

Não podendo estar presente nesta iniciativa, apoio o seu objectivo de contribuir para combater a “inevitabilidade” do empobrecimento em que nos querem colocar, matando a política e as suas escolhas, sem as quais não há democracia. Gostaria no entanto de, por seu intermédio, expressar com mais detalhe a minha posição.

A ideia de que para alguém do PSD, para um social-democrata, lhe caem os parentes na lama por estar aqui, só tem sentido para quem esqueceu, contrariando o que sempre explicitamente, insisto, explicitamente, Sá Carneiro disse: que os sociais democratas em Portugal não são a “direita”. E esqueceu também o que ele sempre repetiu: de que acima do partido e das suas circunstancias, está Portugal.

Não. Os parentes caem na lama é por outras coisas, é por outras companhias, é por outras cumplicidades, é por se renegar o sentido programático, constitutivo de um partido que tem a dignidade humana, o valor do trabalho e a justiça social inscritos na sua génese, a partir de fontes como a doutrina social da Igreja, a tradição reformista da social-democracia europeia e o liberalismo político de homens como Herculano e Garrett. Os que o esquecem, esses é que são as más companhias que arrastam os parentes para a lama da vergonha e da injustiça.

Não me preocupam muito as classificações de direita ou de esquerda, nem sequer os problemas internos de “unidade” que a esquerda possa ter. Não é por isso que apoio esta iniciativa. O acantonamento de grupos, facções ou partidos, debaixo desta ou daquela velha bandeira, não contribui por si só para nos ajudar a sair desta situação. Há gente num e noutro espectro político, preocupada com as mesmas coisas, indignada pelas mesmas injustiças, incomodada pelas desigualdades de sacrifícios, com a mesma cidadania activa e o mesmo sentido de decência que é o que mais falta nos dias de hoje.

A política, a política em nome da cidadania, do bom governo, e da melhoria social, é que é decisiva. O que está a acontecer em Portugal é a conjugação da herança de uma governação desleixada e aventureira, arrogante e despesista, que nos conduziu às portas da bancarrota, com a exploração dos efeitos dessa política para implementar um programa de engenharia cultural, social e política, que faz dos portugueses ratos de laboratório de meia dúzia de ideias feitas que passam por ser ideologia.

Tudo isto associado a um desprezo por Portugal e pelos portugueses de carne e osso, que existem e que não encaixam nos paradigmas de “modernidade” lampeira, feita de muita ignorância e incompetência a que acresce um sentimento de impunidade feito de carreiras políticas intra-partidárias, conhecendo todos os favores, trocas, submissões, conspirações e intrigas de que se faz uma carreira profissionalizada num partido político em que tudo se combina e em que tudo assenta no poder interno e no controlo do aparelho partidário.

Durante dois anos, o actual governo usou a oportunidade do memorando para ajustar contas com o passado, como se, desde que acabou o ouro do Brasil, a pátria estivesse à espera dos seus novos salvadores que, em nome do “ajustamento” do défice e da dívida, iriam punir os portugueses pelos seus maus hábitos de terem direitos, salários, empregos, pensões e, acima de tudo, de terem melhorado a sua condição de vida nos últimos anos, à custa do seu trabalho e do seu esforço.

O “ajustamento” é apenas o empobrecimento, feito na desigualdade, atingindo somente “os de baixo”, poupando a elite político-financeira, atirando milhares para o desemprego entendido como um dano colateral não só inevitável como bem vindo para corrigir o mercado de trabalho, “flexibilizar” a mão de obra, baixar os salários. Para um social-democrata poucas coisas mais ofensivas existem do que esta desvalorização da dignidade do trabalho, tratado como uma culpa e um custo não como uma condição, um direito e um valor.

Vieram para punir os portugueses por aquilo que consideram ser o mau hábito de viver “acima das suas posses”, numa arrogância política que agravou consideravelmente a crise que tinham herdado e que deu cabo da vida de centenas de milhares de pessoas, que estão, em 2013, muitas a meio da sua vida, outras no fim, outras no princípio, sem presente e sem futuro.

Para o conseguir desenvolveram um discurso de divisão dos portugueses que é um verdadeiro discurso de guerra civil, inaceitável em democracia, cujos efeitos de envenenamento das relações entre os portugueses permanecerão muito para além desta fátua experiência governativa. Numa altura em que o empobrecimento favorece a inveja e o isolamento social, em que muitos portugueses tem vergonha da vida que estão a ter, em que a perda de sentido colectivo e patriótico leva ao salve-se quem puder, em que se colocam novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores do sector privado contra os funcionários públicos, contribuintes da segurança social contra os reformados e pensionistas, pobres contra remediados, .permitir esta divisão é um crime contra Portugal como comunidade, para a nossa Pátria. Este discurso deixará marcas profundas e estragos que demorarão muito tempo a recompor.

O sentido que dou à minha participação neste encontro é o de apelar à recusa completa de qualquer complacência com este discurso de guerra civil, agindo sem sectarismos, sem tibiezas e sem meias tintas, para que não se rompa a solidariedade com os portugueses que sofrem, que estão a perder quase tudo, para que a democracia, tão fragilizada pela nossa perda de soberania e pela ruptura entre governantes e governados, não corra riscos maiores.

Precisamos de ajudar a restaurar na vida pública, um sentido de decência que nos una e mobilize. Na verdade, não é preciso ir muito longe na escolha de termos, nem complicar os programas, nem intenções. Os portugueses sabem muito bem o que isso significa. A decência basta.»
 
[Os sublinhados são da minha responsabilidade. A imagem é do jornal i.]

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Quinta-feira, Maio 30, 2013

JOHN BANVILLE

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Luz Antiga, do irlandês John Banville (n. 1945), um dos mais importantes autores europeus da actualidade. Este romance encerra a trilogia iniciada com Eclipse (2000) e prosseguida com O Impostor (2002). O virtuosismo é um traço distintivo: nenhuma palavra menos adequada, nenhuma frase supérflua, monólogo interior bem estruturado. Para os que gostam de cruzar realidade e ficção, Luz Antiga tem o interesse suplementar de remexer no passado de Paul de Man, o desconstrucionista belga que nos anos 1950 foi leccionar para os Estados Unidos sem que ninguém suspeitasse das suas simpatias nazis. Notável. Uma edição Porto Editora.

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Sexta-feira, Maio 24, 2013

CITAÇÃO, 447


Vasco Pulido Valente, E o presidencialismo?, hoje no Público. Excerto:

«Sozinho, completamente sozinho, o dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio. [...] O regime, na realidade, acabou. [...]»

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CITAÇÃO, 446

 
Miguel Sousa Tavares, entrevistado por Anabela Mota Ribeiro, hoje, no Jornal de Negócios. Excerto:

«Beppe Grillo? Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva. Muito pior do que isso, é difícil.»

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LEV DE VOLTA

 
Começa hoje à noite em Matosinhos a 7.ª edição do LeV, o festival de Literatura em Viagem. Abre com uma conferência de Jeronimo Pizarro sobre Fernando Pessoa. A sessão terá lugar na Câmara Municipal, integrando uma dramatização do poema Opiário, de Álvaro de Campos, com encenação de Luísa Pinto e interpretação de João Costa. A partir de amanhã de manhã, vários escritores vão passar pela Biblioteca Municipal Florbela Espanca, participando em mesas-redondas sobre diversos temas. Na impossibilidade de citar toda a gente, destaco a presença de Afonso Cruz, Carla Maia de Almeida, Christiane Rösinger, Fernando Pinto do Amaral, Francisco José Viegas, João Luís Barreto Guimarães, José Rentes de Carvalho, Júlio Magalhães, Lucian Vasilescu, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Miranda, Nuno Camarneiro, Onésimo Teotónio de Almeida, Pedro Vieira, Pilar del Río, Teolinda Gersão, Valter Hugo Mãe e eu próprio. Pedro Marques Lopes será o moderador da mesa em que participo  —  Portugal do nosso descontentamento  —, juntamente com Rentes de Carvalho, Viegas e Pedro Vieira.

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Quinta-feira, Maio 23, 2013

CLARICE LISPECTOR

 
Hoje na Sábado escrevo sobre A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector (1920-1977). Trata-se do volume de crónicas que o filho Paulo organizou, coligindo tudo o que Clarice publicou no Jornal do Brasil entre Agosto de 1967 e Dezembro de 1973. Vem a talhe de foice lembrar que Clarice foi despedida do J.B. por ser de origem judaica, pois a direcção do jornal alinhou com a orientação anti-semita da política externa brasileira que vigorou durante a presidência de Ernesto Geisel. Nestes textos, Clarice fala das dificuldades do quotidiano, das insónias, dos filhos, do processo criativo, de ocasionais encontros com outros escritores e artistas, da correspondência dos leitores, da praia de Olinda onde passou a infância, da hipocrisia social com a miséria e, também, de factos políticos, como, por exemplo, a guerra do Vietname. As “Conversas de sábado”, título da sua coluna no J.B., foram o ganha-pão de Clarice depois do incêndio que provocou (em sua casa) numa noite de Setembro de 1966, por ter adormecido a fumar. De certo modo, A Descoberta do Mundo é uma autobiografia exemplar.

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Terça-feira, Maio 21, 2013

OKLAHOMA

 
 
Imagens da devastação provocada pelo tornado que ontem destruiu Newcastle e Moore, a sul de Oklahoma. A foto superior é de Gene Blevins (Reuters) e a inferior de Steve Gooch (AP). Ambas constam da fotogaleria de El País. Clique.

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Segunda-feira, Maio 20, 2013

EM QUE FICAMOS?

 
Faz-me muita confusão o logro em que aparentemente toda a gente faz de conta que acredita. Toda a gente: políticos, jornalistas, comentadores, etc. A ver se nos entendemos: quando dirigentes do CDS-PP juram que «o doutor Paulo Portas não deixa passar a taxa» sobre pensões de reforma, estão a falar exactamente do quê? É que a contribuição especial de solidariedade (3,5%), que se aplica a pensões de reforma e aposentação a partir de 1.350 euros, continua (e vai continuar) a ser aplicada. O TC até a considera legítima. O que está na calha é outra coisa. A saber, um corte nas pensões de reforma e aposentação, em nome da famigerada convergência entre os regimes público e privado. E eu ainda não ouvi Paulo Portas dizer, preto no branco, que não concorda com o carácter retroactivo da referida convergência, ou seja, que a mesma incida sobre pensões atribuídas antes de 2005. Convinha portanto o CDS-PP esclarecer de uma vez por todas aquilo com que não concorda. Mas ainda nenhum jornalista teve curiosidade em esclarecer esse pequeno detalhe.

[A imagem é do Expresso. Clique.]

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GRANTA PORTUGAL

 
Depois do Brasil, Bulgária, Espanha, Noruega e Suécia, a revista inglesa GRANTA tem agora uma edição portuguesa, editada pela Tinta da China e dirigida por Carlos Vaz Marques. O primeiro número inclui cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados por Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, textos de Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Hélia Correia, Orhan Pamuk, Rachel Cusk, Ricardo Felner, Rui Cardoso Martins, Ryszard Kapuscinski, Saul Bellow, Simon Gray, Valério Romão e Valter Hugo Mãe, além de um portfolio de Daniel Blaufuks. Vera Tavares assina os desenhos das cortinas. Com periodicidade semestral, a revista é lançada no próximo dia 25, na Feira do Livro de Lisboa.

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Sábado, Maio 18, 2013

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Fnac Chiado / 17:00 / Apresentação de Eugénio Lisboa
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Sexta-feira, Maio 17, 2013

CO-ADOPÇÃO APROVADA

 
O projecto-lei do PS sobre co-adopção por casais homossexuais, foi aprovado com 99 votos a favor (sendo doze de deputados do PSD), 94 contra e 9 abstenções.

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Quinta-feira, Maio 16, 2013

PRÉMIO RAINHA SOFIA

 
Nuno Júdice venceu a XXII edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, no valor de 42 mil euros. Antes dele, só dois autores de língua portuguesa haviam sido distinguidos: o brasileiro João Cabral de Melo Neto, em 1994, e Sophia de Mello Breyner Andresen, em 2003. O prémio foi atribuído ao conjunto da obra. Parabéns, Nuno.

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MIGUEL ESTEVES CARDOSO


Hoje na Sábado escrevo sobre Como é Linda a Puta da Vida, a primeira colectânea de crónicas que Miguel Esteves Cardoso (n. 1955) publicou nos últimos sete anos. No plano da Porto Editora de reeditar toda a obra do autor, é para já o único original. Alternando crónicas de formato standard com outras de maior dimensão, o livro está dividido em cinco núcleos, sendo o primeiro dedicado à mulher: «Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!» Tornou-se lugar-comum dizer que MEC influenciou toda uma geração. Não é verdade. Se isso tivesse acontecido, o jornalismo e a literatura “novíssima” teriam hoje uma clareza que não têm. Afinal, nenhum jornalista ou escritor da moda chama cagalhão a uma andouillette.

Escrevo ainda sobre Viagens e Outras Viagens, de Antonio Tabucchi (1943-2012). Não se trata de um livro de viagens no sentido tradicional do termo. Diria antes que é um notebook que intercala impressões de viagens (ao Brasil, Goa, Austrália, etc.) com textos evocativos, alguns tomando como ponto de partida obras suas. O texto dedicado à síndrome de Stendhal é dos mais interessantes. Editou a Dom Quixote.

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Quarta-feira, Maio 15, 2013

JUSTIÇA BRASILEIRA DEU PONTAPÉ DE SAÍDA

 
A notícia chega um pouco atrasada, mas não perde pela demora: por decisão do Conselho Nacional de Justiça, os cartórios do Brasil são doravante obrigados a efectuar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A decisão foi tomada por catorze votos a favor, entre eles o do Presidente do Supremo Tribunal Federal, e um voto contra. A medida tem força de lei até à aprovação de legislação própria. Clique na imagem, que pertence ao jornal Estado de São Paulo.

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TO BE, OR NOT TO BE


Em Portugal, se um homossexual ou uma lésbica quiserem adoptar uma criança, podem fazê-lo. Podem fazê-lo enquanto pessoas singulares. E têm-no feito com regularidade, há pelo menos dez anos. Não falo de homossexuais encapotados ou lésbicas enrustidas, estou a falar de pessoas que assumem a sua condição homossexual no acto da adopção. Alguns aparecem na imprensa cor-de-rosa com as criancinhas. Outros são mais recatados. Contudo, um casal de pessoas do mesmo sexo não o pode fazer. É uma originalidade do nosso quadro legislativo.

Na próxima sexta-feira, dia 17, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, o Parlamento vai discutir diplomas do BE e do PS. O Bloco propõe que os casais de pessoas do mesmo sexo possam adoptar dentro ou fora da família, como é permitido aos casais hetero. O PS propõe que um dos cônjuges possa adoptar o/a filho(a) da sua cara metade. Em Fevereiro do ano passado, idêntico projecto-lei do Bloco foi chumbado, embora 58 deputados tivessem votado a favor: 38 do PS, 9 do PSD, 8 do BE, 2 dos Verdes e 1 do CDS-PP (mas nenhum do PCP). A ver vamos agora.

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Segunda-feira, Maio 13, 2013

CISMA


Como sublinha Ana Sá Lopes, «O governo esteve para cair durante o fim-de-semana  — infelizmente, para uma boa parte dos portugueses, não caiu. [...] Claro que a prova de que o governo está todo partido e não tarda a tranformar-se num “holograma” foi o facto da “fonte oficial” do governo se ter empenhado em humilhar Paulo Portas, anunciando aos quatro ventos a sua cedência, mal a reunião acabou  —  ignorando objectivamente o trade-off alcançado. [...]»

Bem pode João Almeida, vice-presidente da bancada parlamentar do CDS-PP, tentar matizar (no Facebook) o enxovalho, que contra factos não há argumentos. Portas transpôs a deadline e o país inteiro sabe que não tem guts para chumbar o OE para 2014.

[A imagem é do jornal i. Clique.]

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