RISCO MÉDIO



Convém referir, em primeiro lugar, a magnífica estreia de uma nova editora, com sede no Porto, de sua graça Ahab Edições. O nome é o de uma personagem de Moby Dick, de Hermann Melville, de onde chega também uma frase que parece funcionar como pedra de toque da orientação da nova chancela: «There are some enterprises in which a careful disorderliness is the true method». O elogio não se deve apenas à ousadia de avançar em terreno tão movediço como o da edição de livros em Portugal, mas sobretudo pelo excelente grafismo que apresentam os três primeiros títulos e pelas criteriosas escolhas. Um dos exemplos é Pudor e Dignidade (Genanse or Verdighet, 1994), de Dag Solstad, que se estreia assim, com o seu título mais célebre, no nosso país. Graças a uma tradução muita cuidada no que respeita à reconstrução do texto em língua portuguesa (nada poderei dizer sobre a qualidade das equivalências do norueguês para a nossa língua), da responsabilidade de Liliete Martins, podemos ter acesso a um texto que respeita o ritmo e a musicalidade que é frequente associar‑se a este romance. É natural, precisamente pelo que acabei de dizer, que Thomas Bernhard possa ser apontado como um autor no horizonte de referências de Solstad, mas não nos deixemos enganar, não se trata de qualquer tipo de epigonismo, porque o que o autor de Pudor e Dignidade faz é a construção de um universo muito pessoal, desde logo pelo facto de distinguir o narrador do protagonista, ainda que, através da técnica do monólogo interior, consiga, em algumas cenas, quase criar a ilusão de que ambos se fundem. A personagem principal é um professor do ensino secundário que experiencia uma situação limite, com origem em pequenos incidentes, quase anódinos, mas que desencadeiam, da sua parte, uma reacção radical. Ao mostrar‑se incapaz de resistir à pressão que a sociedade exerce sobre si, especialmente visível nas atitudes dos alunos, o professor cede e tem um comportamento desajustado das regras que o condicionavam como «um homem adulto muito bem formado e educado, […] pago com os dinheiros públicos para se dedicar – pelo vigésimo quinto ano – a um certo número de obras literárias do […] património cultural, quer isso aborrecesse ou não os alunos» (p. 24). Ora, é só depois desse descalabro que somos informados do nome do protagonista, cujo percurso, no entanto, já acompanhávamos há quarenta e sete páginas. A analepse que aí se inicia talvez esclareça algo sobre a personalidade de Elias Rukla, talvez sirva para lhe conferir um efectivo rosto humano e retirá‑lo da apresentação burocrática em que até então se tinha mantido, apenas como professor (um pouco como se o dilema que atravessa não fosse meramente seu, nem sequer norueguês, mas de quase todos os professores no contexto europeu actual, o que coloca a questão de imaginarmos que avaliação teria este homem no sistema totalitário de colegas que se vigiam uns aos outros recentemente importado para Portugal), mas não deixa de o apresentar como uma figura destituída de carácter trágico, porque parece mais o representante de uma época do que um ser efectivamente individual. Será decerto por isso que ele, quando aspira a tornar‑se no herói do romance de um desses escritores cuja obra ele radica na década de 1920, mesmo que apenas ideologicamente e não cronologicamente (onde inclui nomes como os de Proust, Kafka, Musil, Broch ou Mann), é apenas ao autor de A Montanha Mágica que reconhece a possibilidade de o ter adoptado como modelo; compreende‑se depressa que é como prolongamento de Hans Castorp que Elias Rukla se vê, um Castorp perdido numa guerra que se revela sobretudo como farsa, dado que há um desajuste moral profundo entre os valores do professor e os do tempo em que ainda lhe cabe viver. É a ética de Solstad, profundamente imbricada na sua estética, o que, por exemplo, se mostra neste excerto: «Nem sequer perante a morte se pára já para pensar. Há que pesar, mostrar um pouco de humildade, fazer algumas dessas perguntas elementares que todo o ser humano deve fazer, para que tudo, desde o princípio, não venha a ser a mesma merda, dizia Elias Rukla para si próprio, a sós com o seu sofrimento social nessa noite que já se aproximava do fim. Quando uma apresentadora de telejornal morre, é um assunto privado, a sua morte é a dor da sua família, uma dor que devem poder sofrer em paz e a sós, não tem nenhum interesse público, porque nenhum apresentador de noticiários deixa atrás de si um lastro de tão grande valor – por comparação com outras pessoas – que faça que o seu desaparecimento transcenda os parâmetros da esfera privada para se converter num assunto de interesse nacional. Mas os jornais converteram‑no num assunto de interesse nacional. Tenho ganas de vomitar, pensava Elias Rukla» (pp. 108-109).
A dimensão moral do romance de Solstad é o sinal dessa pretensão em instituir uma crítica da época, de acordo, aliás, com os fundamentos marxistas do autor. O desencanto, porém, não o leva a esquecer que Pudor e Dignidade é uma obra de arte verbal; por isso, Ibsen é o escritor estudado pelo professor Rukla nas aulas dos finalistas; a obra analisada é O Pato Selvagem (a mesma que é representada em Derrubar Árvores, de Thomas Bernhard, que a Assírio & Alvim recentemente editou, na tradução habitual de José A. Palma Caetano), onde é possível encontrar esta frase, citada no romance, quase logo a abrir: «'Prive o homem comum da sua mentira vital e ter‑lhe‑á roubado a felicidade'» (p. 12).

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